Risco de guerra nuclear é real
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Publicado 19/09/2017 - 09h14

Risco de guerra nuclear é real

No início de setembro a Coreia do Norte realizou mais um teste nuclear, desta vez, detonando um artefato termonuclear ou bomba H, muito mais poderosa que as bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki e que pode ser transportada num míssil balístico intercontinental. Esse tipo de bomba quando explodida a grande altura pode gerar um pulso eletromagnético (EMP) que pode semear o caos e a destruição numa escala muito maior do que o próprio ataque nuclear.
A explosão de uma bomba H em grande altitude no espaço aéreo dos Estados Unidos, por exemplo, geraria um pulso que poderia causar um apagão nas redes elétricas de todo país e destruição numa escala sem precedentes. Deixaria sem eletricidade os hospitais, organizações governamentais e civis e toda a infraestrutura do país. Interromperia o fornecimento de alimentos, a purificação da água, as telecomunicações e o sistema bancário.
Esse poder destrutivo de uma bomba de hidrogênio está agora à disposição do ditador Kim Jong-Un, que lidera o regime totalitário mais opressivo do planeta e a quem a população daquele país cultua de todas as formas possíveis desde a mais tenra idade. Desde pequenas as crianças aprendem que o “querido líder” é um ser superior do ponto de vista moral, físico e mental. As crianças devem saber recitar de memória suas proezas e de todos os seus antepassados durante os anos de aprendizagem.
A cultura do país está a serviço da propaganda das virtudes do “querido líder” e ocorre da forma mais brutal que se possa imaginar. Todas as expressões da arte manifestam seu amor incondicional pela liderança do regime e o ódio ao inimigo. A censura não se aplica somente aos meios de comunicação – todos controlados pelo Estado – mas a todas as expressões da vida cotidiana. Há total ausência de liberdade na forma mais elementar.
A economia do país está voltada totalmente para manutenção de uma das maiores máquinas militares do mundo. Numa população de 25 milhões a Coréia do Norte possui um aparato militar que envolve 8 milhões de pessoas, entre militares, reservistas e paramilitares. Seu exército é o quarto maior do mundo com 1 milhão e duzentos mil soldados. O resultado é que a Coréia do Norte ao privilegiar o desenvolvimento de armamento militar sacrifica o bem-estar da população e não atende às necessidades básicas de seus cidadãos tornando o país um dos mais pobres do mundo.
Toda essa máquina de guerra está sob o comando de uma liderança instável e paranoica e que tem total autonomia para a tomada de decisões. Nos Estados Unidos, embora Donald Trump também possa ser considerado uma liderança instável e imprevisível, não detém completa autonomia para a tomada de decisões, estas são submetidas a outras lideranças que podem frear ações insensatas e irresponsáveis.
O ditador norte-coreano vem dando sinais cada vez maiores de megalomania com os frequentes avanços no seu arsenal nuclear. Seu isolamento, cada vez maior, pode lhe trazer a a ilusão de que possa realizar ataque surpresa e ter condições de aumentar seu poder de negociação mesmo diante de repúdio global. Afinal a principal preocupação de Kim Jung-Un é manter-se no poder, nem que para isso haja o sacrifício de milhões de pessoas, como tem ocorrido com a população daquele país.
Durante a guerra fria, existiam anteparos para evitar uma guerra nuclear, os líderes do Kremlin e da Casa Branca mantinham canais diretos para evitar mal-entendidos que poderiam dar início à conflagração. Isto não existe hoje. As agressões verbais de ambos os lados se sucedem sem que haja contatos diretos. Há somente a intermediação de outras nações que agem em função de seus próprios interesses. Portanto, a possibilidade de um lançamento acidental de mísseis é possível de ocorrer na Coréia do Norte devido à excessiva centralização de Kim Jong-Un.
Os meios de resolução diplomática da atual crise parecem estar se esgotando. A aplicação de sanções econômicas mais rigorosas contra Pyongyang esbarra na China que, basicamente, sustenta a economia norte-coreana. No entanto, os chineses têm demonstrado impaciência diante das atitudes de seus vizinhos que causam intranquilidade no sistema global, no qual a China é ator em ascensão para se tornar figurante principal.
Até o momento, a adoção de medidas econômicas contra a Coreia do Norte não tem tido a eficácia esperada. O país mantém relações comerciais com mais de 80 países do mundo com a China representando 83% desse comércio. O Brasil, por exemplo, em 2015 exportou pasta química de madeira e medicamentos e importou circuitos integrados e máquinas. Esses dados revelam que as conexões de Pyongyang com a economia global são maiores do que possa parecer à primeira vista.
De qualquer modo, a única saída possível para evitar um conflito nuclear é investir na diplomacia. A intensificação dos exercícios militares na região e a troca de ameaças com a utilização de retórica verbal exacerbada praticada com frequência entre Donald Trump e Kim Jong-Un não contribuem para abrir caminho para a paz e aumentam o risco de eclosão de uma guerra devastadora que causaria a morte de milhões de pessoas.