A integração sul-americana e a China
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Publicado 04/10/2017 - 10h51

A integração sul-americana e a China

Para os povos da América do Sul a colonização espanhola e portuguesa foram das mais espoliadoras das riquezas naturais. Em seguida os países sul-americanos se submeteram a uma forma de neocolonialismo ao estabelecer relações de dependência com a Inglaterra e os Estados Unidos, sucessivamente, que impediram o desenvolvimento da região mantendo-a como fornecedora de produtos primários.
Agora surge um novo ator de peso no cenário mundial, a China, que gradativamente vem substituindo os Estados Unidos como principal parceiro comercial das nações sul-americanas. Ocorre que estas relações continuam assimétricas, com os países da região fornecendo matéria-prima e comprando produtos industrializados.
Esta nova dependência acontece num momento bastante desfavorável para as nações da América do Sul, que vivem um período de baixa integração política e econômica. Na realidade, a integração entendida como soberania compartilhada, não avança na região como ocorre na Europa, pois todas as tentativas de cooperação têm como objetivo reforçar a soberania nacional.
Sem dúvida, os países sul-americanos têm muito em comum entre si – semelhantes raízes culturais, predomínio de uma mesma religião e, com exceção do Brasil, o mesmo idioma. Contudo parece que isto não facilita a integração. Qualquer integração é uma decisão política baseada em interesses que fazem com que os estados decidam compartilhar soberania. A União Europeia, por exemplo, é formada por 28 membros, com vários idiomas oficiais e distintas raízes culturais e, no entanto, a integração é real e avança. Esse exemplo parece demonstrar que a homogeneidade não é um elemento que facilita a cooperação.
Não existe hoje uma crise regional sul-americana, o que há são conflitos na relação bilateral entre estados, como o existente entre o Chile e a Bolívia que até hoje não mantem relações diplomáticas, persistindo os bolivianos na meta estratégica de conseguir um dia uma saída para o oceano pacífico. Nos demais países o que existe são rivalidades históricas, como entre Brasil e Argentina, e que de modo geral se manifestam nas competições esportivas.
A única crise regional digna desse nome é a interrupção de um importante processo de integração entre os países da região, o que está fundamentalmente relacionado com a falta de liderança.
O Brasil, devido a suas dimensões continentais, grande população, inúmeros recursos naturais e com fronteiras por terra com a maioria das nações sul-americanas, tem a vocação histórica de assumir a liderança de qualquer processo de cooperação regional. No entanto, devido a seus problemas internos está cada vez mais ausente dos eventos que se sucedem na região. Não esteve presente no processo de paz vivenciado pelos colombianos que encerrou uma longa guerra civil. Não consegue se impor como interlocutor entre as partes que se opõem na crise venezuelana, apesar de estar recebendo milhares de venezuelanos, numa crise humanitária sem precedentes.
Com a falta de liderança para levar adiante um projeto de integração o que predomina na América do Sul é a defesa de interesses nacionais mesquinhos, parecendo não existir aqueles que acreditam que a prosperidade depende da promoção de interesses comuns. Reside aí a dificuldade de implementação de todas as tentativas regionais de cooperação como a Comunidade Andina de Nações (CAN) e o Mercosul.
Ocorre que na região, as economias estão cada vez mais dependentes e se mantém estruturalmente vinculadas a um padrão de acumulação da década de 1950, ou seja, exportação de matéria-prima e importação de bens industriais. Neste contexto é que surge a China como ator central.
Nos últimos anos, a China, de forma muito agressiva, soube tirar proveito da diminuição do interesse dos Estados Unidos na região e da falta de uma liderança regional que possibilitasse negociações em bloco dos países sul-americanos. Esse espaço foi ocupado pela China nos últimos cinco anos que incrementou seus investimentos em matéria-prima e no comércio. Algumas mudanças recentes nos investimentos chineses revelam maior interesse em obras de infraestrutura.
A América do Sul é importante para a China por duas razões: seus recursos naturais e o possível mercado para os seus produtos. Brasil, Argentina, Venezuela, Equador, Bolívia, Chile e Perú são os principais destinos dos investimentos chineses. A China é o principal destino das exportações do Brasil, Chile, Argentina e Perú. A Venezuela está hipotecada aos chineses ao receber empréstimos de 70 bilhões de dólares em troca de Petróleo. Na Bolívia e no Perú, mais de 40% do setor mineral está em poder das empresas chinesas.
A maior cooperação entre as nações sul-americanas poderia estabelecer parcerias em condições mais favoráveis se as negociações com os chineses (e os europeus e os norte-americanos) fossem feitas em bloco priorizando os interesses regionais e estabelecendo as bases para um crescimento regional sustentável e não restabelecendo relações neocolonialistas. As vantagens oferecidas pelos chineses somente caracterizam uma nova forma de neocolonialismo onde predominam ações de “soft power”, que promove o desenvolvimento dos países da região vinculado aos interesses do gigante asiático. .