Separatismo inconsequente
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Publicado 13/10/2017 - 07h18

Separatismo inconsequente

Assunto dos mais comentados nos últimos dias, a tentativa de separação da Catalunha do Estado Espanhol pode ser abordada de várias formas, mas merece destaque a tendência à fragmentação de nações consolidadas e com forte histórico de unidade.
Atualmente, o discurso separatista está em evidência, havendo processos desse tipo no Canadá, com a província de Quebec; no Reino Unido, com a Escócia; no Iraque, com o Curdos; na Bélgica, com os separatistas flamengos de Flandres entre outros. Tendências separatistas podem ser encontradas em diversos outros países, até mesmo no Brasil há dois movimentos desse tipo, “O sul é o nosso país” que defende a separação dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e o Movimento pela Independência do Pampa que prega a separação do Rio Grande do Sul e a criação da República do Pampa.
Embora possam haver fortes razões para o movimento de emancipação de um povo e sua declaração de independência perante um Estado que o oprime, o processo em si revela a dificuldade de diálogo no seio de um Estado Nacional e a manutenção da convivência intercultural.
O processo de formação dos Estados nacionais, em particular a partir do Século XIX, constituiu-se de forma a impor uma determinada cultura dominante sobre as demais que ocupavam um mesmo território. Nesse processo culturas foram esmagadas e proibidas de se expressarem em seu idioma, suas tradições, hábitos e costumes. Essa forma opressiva de formação do Estado Nacional foi a regra durante vários anos ao longo dos séculos XIX e XX. Ocorreu com destaque na Espanha, onde durante várias gerações se impôs o idioma e os costumes de Castela sobre outros povos como os Bascos, os Catalães, Galegos e Andaluzes. O mesmo ocorreu em outros Estados Europeus, como a França, a Bélgica e a Itália onde há movimentos separatistas.
Sob a influência europeia, o modelo de construção do Estado Nacional se replicou em todo o mundo, repetindo-se a opressão de povos que foram obrigados a permanecer em Estados artificialmente criados pelos colonizadores tendo como base uma etnia que passou a subjugar as demais. Foi um modelo fortemente adotado na África e até hoje muitas nações têm dificuldade de consolidação devido sua fragmentação interna. O esmagamento da República da Biafra, na Nigéria e o massacre perpetrado pelos Hutus contra os Tutsis em Ruanda são expressões dessa realidade.
Há que se destaca, contudo, que o momento histórico atual não é o de isolamento cultural e construção de identidades forçadas sob um Estado baseado na força coercitiva. Vivemos um intenso processo de globalização, com a construção de consensos e valores culturais universais buscando a convivência multicultural num planeta culturalmente diverso. O reconhecimento da diversidade cultural como pilar de consolidação de uma humanidade solidária e tolerante é cada vez mais aceita globalmente. O respeito às diferenças se torna cada vez mais um valor universal. É um processo gradual e contínuo que busca a valorização do outro diferente e o respeito à sua livre manifestação.
Ocorre que o discurso do “nós” contra “eles” é simplista e de fácil assimilação pelas massas. É desse discurso que se nutrem políticos populistas e oportunistas que buscam obter apoio para suas propostas e para tanto, sempre elege um culpado pelos problemas, especialmente aqueles que apresentam soluções complexas. As narrativas se fortalecem com a identificação de uma vocação histórica ou econômica para a separação, que são apresentadas fora do contexto e ignora o alto grau de interdependência das diversas regiões do planeta, num processo irreversível, que demanda muito diálogo e interação baseada no respeito mútuo.
A tentativa de separação da Catalunha, nesse contexto, é profundamente inconsequente, pois goza de bastante autonomia na Espanha mantendo seus costumes, sua língua e outros direitos conquistados sob a vigência do Estado Democrático de Direito. Além disso, a possível separação, coloca em risco a construção da União Europeia que se constitui no melhor exemplo de superação dos nacionalismos e de convivência multicultural, permitindo o livre transito de pessoas e de mercadorias, a prevalência da democracia como valor fundamental e tendo como elemento básico de sua construção, o respeito irrestrito aos direitos humanos.
Uma eventual separação dos catalães criaria problemas para vários Estados no mundo todo, a começar pelos Europeus, mas nem mesmo o Brasil escaparia de sua influência. Como movimento contrário a construção de uma unidade global de culturas baseado no respeito mútuo, a separação da Catalunha não pode prosperar. Cabe ao Estado Espanhol buscar formas de reestabelecer o diálogo, sem violência, para manter a unidade da nação e sua diversidade. Cabe aos Catalães compreenderem que com a consolidação da unidade europeia, as fronteiras perderão cada vez mais significado o que facilitará a convivência multicultural.