Os vendedores de ilusões
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Publicado 19/10/2017 - 08h31

Os vendedores de ilusões

O noticiário dos países desenvolvidos evidência uma forte presença do populismo nas últimas eleições. Na Europa há grande preocupação com o avanço do populismo de direita, que de modo geral é contrário à União Europeia, à diversidade cultural e aos imigrantes. Nas recentes eleições na Alemanha, a extrema direita voltou ao parlamento federal depois de 60 anos de ausência e trouxe com ela uma plataforma fortemente populista. A votação do Brexit na Inglaterra revelou o descontentamento, com a imigração, dos habitantes do meio rural na periferia de Londres. Na França o partido dos Le Pen, num primeiro momento, assustou o establishment.
A eleição de Trump através de votação minoritária, mas com maioria no Poder Legislativo, levou um político populista ao poder nos Estados Unidos, respaldado amplamente por nacionalistas de direita e por uma massa de trabalhadores brancos do meio oeste que acreditam estar marginalizados pela globalização. Resultam dessa base de apoio uma política nacionalista e xenofóbica contrária à imigração.
O que une essas recentes manifestações eleitorais radicais nos países desenvolvidos são o populismo e o descontentamento com os avanços da globalização relacionados com os direitos humanos e a diversidade cultural. Em sua maioria identificam-se com um nacionalismo de direita e que, cada vez mais, vai se viabilizando eleitoralmente e, pelo menos num caso, assumindo o poder como ocorreu nos Estados Unidos.
A América Latina tem uma longa tradição populista, com uma prática diferente das versões europeia e norte-americana. São da safra mais recente de populistas latino-americanos, Hugo Chavez e Nicolas Maduro na Venezuela; Evo Morales na Bolívia, Néstor e Cristina Kirchner na Argentina e Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil. Esses políticos se assemelham pela busca de popularidade através da distribuição de benesses aos mais pobres aproveitando-se de períodos de bonança econômica propiciado pela alta de preços de commodities como petróleo, café, soja e outros produtos primários.
O que os populismos têm em comum é um estilo de governo pautado pelo improviso que não consolida estruturas permanentes de sustentação econômica, pois baseia-se na distribuição de benefícios que tem como contrapartida o apoio eleitoral. O resultado disso são o colapso das instituições e da economia que desembocam no aumento da inflação e no desemprego.
O discurso populista é simplista e maniqueísta e se centra na luta de “nós” contra “eles”. No discurso de Lula, por exemplo “nós” são os trabalhadores e “eles” são as elites. No discurso de Bolsonaro, “nós” são as pessoas de bem, e “eles” são todos aqueles que não se identificam com essa categorização (negros, imigrantes, gays, políticos corruptos, ongs, mulheres não submissas, outras religiões). O povo, é identificado como aquele segmento da população ao qual dizem representar; os demais são inimigos do povo. A liderança populista não é institucional, mas pessoal, despreza as instituições democráticas; não é racional, mas movida por emoções que utiliza para enganar seus adeptos; não é pluralista e prega sempre uma pretensa unanimidade associada à palavra povo.
A prática populista opõe-se às instituições democráticas como a imprensa livre, a divisão de poderes e principalmente, a autonomia do judiciário. Nenhum sistema democrático está imune ao risco do populismo, que pode ter origem tanto à esquerda quanto à direita do espectro ideológico. A desestruturação institucional, a perda de legitimidade, da eficácia e da credibilidade das instituições democráticas, a degradação do estado de direito e a corrupção constituem o caldo de cultura do qual se alimenta o populismo.
Políticos populistas são vendedores de ilusões no mercado eleitoral, prometem um futuro melhor para as massas empobrecidas em troca de apoio nas eleições. No poder distribuem benesses com o objetivo de manter-se apoiando políticas improvisadas que visam tão somente trazer-lhes benefícios. Os mais ricos que apoiam essas ações têm a expectativa de que as multidões sejam iludidas e controladas para que mantenham suas estruturas de dominação, como vimos recentemente ocorrer no Brasil com grandes empresas – empreiteiras, bancos, indústrias - apoiando e sustentando o populismo de esquerda.
Historicamente, na América Latina as lideranças populistas sempre mostraram mais afinidade por políticas de esquerda. No entanto, recentemente tem surgido líderes populistas que manifestam ostensivamente sua identificação com políticas de extrema direita. No Brasil o exemplo é Jair Bolsonaro, declarado candidato presidencial e apontado nas recentes pesquisas nacionais de intenção de voto em segundo lugar e em primeiro lugar em estados como o Distrito Federal e o Rio de Janeiro. Suas propostas de conteúdo xenofóbico, machista, racista, contrário à imigração e a diversidade cultural são de tal forma extremistas que muitos se surpreendem que obtenha tanto apoio.
As pesquisas eleitorais, mesmo que prematuras, indicam que o populismo atrai ainda importantes segmentos da população, as últimas mostram que Lula e Jair Bolsonaro juntos aparecem com até 50% das intenções de voto. Caso Lula não se viabilize como candidato, Bolsonaro assume a dianteira. Num cenário com múltiplos candidatos, aumentam as chances de a extrema direita ir para um segundo turno difundindo e dividindo o eleitorado com uma plataforma de ódio.
A população está cansada dos políticos e das elites empresariais que levaram o país à bancarrota com baixo crescimento econômico, aumento da desigualdade, corrupção, impunidade etc. A pergunta que mais se faz nas ruas é, em quem votar? De fato, estão dadas as condições para que o populismo de extrema direita cresça. A possibilidade de que aconteça o pior não pode ser descartada. Depois que Trump foi eleito em uma das mais importantes democracias ocidentais, tudo é possível.