A perda da liderança global norte-americana
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Publicado 26/10/2017 - 09h03

A perda da liderança global norte-americana

O presidente Donald Trump continua provocando danos à imagem dos Estados Unidos e a sua liderança mundial. Suas ações têm gerado incertezas no mundo, disseminado desconfianças em antigos aliados e na comunidade internacional. Sua principal arma é uma metralhadora verbal giratória que não perdoa nem os amigos e aliados de longa data como a Otan (organização do Tratado do Atlântico Norte), além disso, denuncia com regularidade medidas que alega serem protecionistas da União Europeia, questiona a Organização Mundial do Comércio, a ONU e vários organismos multilaterais.
Suas ações levam os Estados Unidos a abdicar de sua liderança global. Tendo como guia o lema “América First” (América primeiro) Trump tem se isolado cada vez mais no cenário mundial. Se acumulam suas iniciativas para afastar-se de acordos e organismos internacionais. Obcecado por destruir o legado de seu antecessor, um defensor do multilateralismo, a estratégia adotada pelo presidente norte-americano tem o unilateralismo como tema principal em política externa. Esse recuo foi denominado pelo presidente do Conselho de Relações Exteriores, Richard Haass, de Doutrina da Retirada.
As inúmeras pretensões da administração Trump de desfazer ou abandonar acordos de cooperação e tratados internacionais tem sido surpreendente pela sua magnitude. Sua decisão de sair da Conferência de Paris sobre as mudanças climáticas, seguida de sua retirada do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP) e suas ameaças de acabar com o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLC) formado com o México e o Canadá e em vigor a 24 anos, são algumas das posições mais representativas de sua visão política isolacionista e distante da realidade.
Recentemente os Estados Unidos divulgaram que deixariam de ser membros de pleno direito da UNESCO, a agencia cultural, científica e educacional das Nações Unidas. No mesmo período anunciaram sua pretensão de retirar-se do acordo firmado com o Irã e do qual fazem parte a União Europeia, Rússia e China. Trump alega que o Irã não está cumprindo o acordo, o que é contestado pela Agencia Internacional de Energia Atômica, pelos aliados e pela cúpula militar dos Estados Unidos que confirmam que o país persa não violou os termos do que foi acordado.
A esse quadro deve-se acrescentar o fato de que Trump manifesta desprezo pelos valores e alianças que sustentam a influência norte-americana no mundo. Os Estados Unidos foram um grande fiador dos avanços políticos, sociais e internacionais dos anos pós-segunda guerra mundial. A redução das armas nucleares, a expansão dos regimes democráticos, a primazia dos direitos humanos, o avanço da tecnologia, o multilateralismo são algumas das grandes contribuições da nação norte-americana nos últimos anos e que tem sido menosprezado por Trump.
O isolamento a que Trump tem relegado os Estados Unidos, em menos de um ano de governo, tem custado à nação americana uma queda vertiginosa de seu status como ator global hegemônico, criando um vácuo de poder, facilitando e cedendo espaços à ascensão chinesa que desponta como nova superpotência global. Por outro lado a Alemanha de Ângela Merkel vem assumindo a posição de liderança, de fato, do mundo ocidental e defensora das alianças transatlânticas e do multilateralismo, além de ter-se convertido em clara defensora dos direitos humanos, de tratamento digno aos refugiados e da necessidade de reduzir as emissões de carbono.
Ao romper com o acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, Trump cedeu espaço estratégico para o protagonismo chinês que por meio de seu líder Xi Jinping, reagiu de imediato garantindo os compromissos de investimento em energias renováveis e redução de gases efeito estufa. Com o anúncio de saída dos Estados Unidos da Unesco, os chineses rapidamente manifestaram seu apoio ao organismo realçando seu papel na promoção da paz mundial e do desenvolvimento sustentável.
A possibilidade da saída dos norte-americanos do acordo nuclear com o Irã aproxima a União Europeia da China que defende o pacto indicando uma provável aliança para a governança global onde ficaria ausente os Estados Unidos.
A China vem ocupando cargos nos organismos internacionais preenchendo o vazio político deixado pelos norte-americanos, aumentando dessa forma sua influência e projetando um perfil positivo de cooperação respaldando um multilateralismo cada vez mais acentuado e que vai de encontro a seus objetivos estratégicos.
O afastamento dos Estados Unidos da cooperação internacional propícia o aceleramento da ascensão e consolidação da China como superpotência o que terá efeitos no cenário internacional exigindo uma nova configuração das relações geopolíticas globais que poderão ir de encontro com os princípios e interesses chineses. Dada sua dimensão e ineditismo em termos planetários, as consequências para o mundo são difíceis de antecipar.