GLOBALIZAÇÃO E A NOVA ORDEM MUNDIAL
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Publicado 09/11/2017 - 07h18

GLOBALIZAÇÃO E A NOVA ORDEM MUNDIAL

Olhando o mapa mundi pode-se observar que numa relativamente pequena área do planeta que inclui a China, a Índia, o Paquistão, as duas Coreias, o Vietnã, o Japão e alguns outros países da região estão concentradas mais de dois terços da população mundial. São bilhões de pessoas que viveram durante longo período à margem dos fluxos da economia internacional e que com a globalização passam a ter papel primordial. Entre esses países destaca-se a China.
Essa região está provocando uma profunda e rápida mudança nas relações internacionais. Os fatos mais recentes mostram a ascensão vertiginosa do gigante chinês, com sua vasta esfera de influência em quase todos os cantos do planeta, especialmente naqueles que possuem recursos naturais considerados estratégicos pelos chineses e dos quais depende sua economia crescente. São vínculos estabelecidos com base em negócios e comércio que dominam e dirigem o curso das relações entre os governos e outros atores no sistema internacional. A expansão chinesa é baseada no pragmatismo, não importa o regime político adotado pelos parceiros comerciais, as relações não são permeadas por componente ideológico.
O XIX Congresso do Partido Comunista Chinês encerrou-se no último dia 24 de outubro e estabeleceu como objetivo estratégico liderar o mundo em todos os aspectos. Essa liderança já é realidade em diversos setores. A China é o segundo detentor da dívida dos EUA, com mais de 1 trilhão de dólares. É o primeiro consumidor de cimento no mundo, o país com a rede ferroviária de alta velocidade mais desenvolvida e possui a maior capacidade de produção de energias renováveis. Na China são fabricados grande parte dos componentes eletrônicos que utilizamos em nossos produtos. É o primeiro investidor na África e suas empresas estão espalhadas pelo mundo competindo exitosamente com as empresas dos países desenvolvidos.
No Congresso foram definidos os principais objetivos econômicos nos próximos cinco anos, entre os quais maior proteção para os interesses dos investidores estrangeiros, abertura de mercado e apoio ao desenvolvimento de empresas privadas, medidas claramente alinhadas com um modelo de globalização, que parte da ideia de que o Estado-nação já não é capaz de lidar com os desafios atuais e que somente a busca pelo interesse comum poderá governar o atual processo de mundialização acelerado e evitar ou mitigar confrontos entre as nações.
Os chineses consideram obsoleta a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos que surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Não pretendem destruí-la de uma hora para outra, mas estabelecer uma ordem paralela “mais justa e mais inclusiva” que lhe permita desempenhar um papel destacado na esfera econômica. Trata-se de um avanço progressivo, como afirmou Xi Jinping no dia 14 de maio deste ano na abertura o Fórum da Nova Rota da Seda: "Vamos criar um novo modelo de cooperação e benefício mútuo".
Os chineses têm apostado alto numa concepção diferente de globalização. Há alguns anos, já sob a liderança de Xi Jinping, lançaram a iniciativa “Um cinturão, uma rota” (“One Belt, One Road”, OBOR, em inglês) também conhecida como a nova rota da seda, que visa conectar a China à toda Ásia e Europa, África Oriental e o Mediterrâneo, com o propósito de melhorar as relações comerciais e culturais. Trata-se de uma grande área do planeta, composta por 75 países, com 75% da população e 40% do comércio mundial. De acordo com a consultoria McKinsey, o plano tem potencial para impactar diretamente cerca de 65% da população mundial e um terço do PIB global.
Esse ambicioso plano de infraestruturas e conectividade entre os dois extremos do continente euroasiático e da África é a bandeira com a qual a China pretende seduzir o mundo e ganhar influência. Esse megaprojeto baseia-se na criação de uma rede de linhas ferroviárias, portos e rodovias. A via terrestre (o cinturão), que abrange a área continental da Ásia Central, Europa Oriental e Europa Ocidental, é considerada um dos projetos mais ambicioso da história para integrar a Ásia continental e a Europa. O corredor marítimo (a rota) passa pelo Mar da China, o Oceano Índico, o Chifre da África e o Mar Vermelho para chegar ao Mediterrâneo.
A conexão comercial da China com o mercado europeu está avançando rapidamente. As 20 cidades chinesas mais importantes estão hoje diretamente conectadas por trem a metrópoles europeias. Em 2014 passou a funcionar a linha férrea mais longa do mundo, ligando a cidade chinesa de Yiwu a Madri na Espanha. Em janeiro de 2017 um trem chinês atravessou, pela primeira vez o canal da mancha, chegando a Londres. O volume de exportações chinesas para o Velho Continente aumentou cinco vezes desde 2013. A China já é o parceiro comercial mais importante da Alemanha.
A escala da iniciativa chinesa indica que estamos enfrentando um ponto de virada na cena comercial mundial; é a primeira vez nos tempos modernos que o modelo americano que até agora dominou o mundo está sendo desafiado pelo surgimento do poder chinês. Mesmo alguns dos mais leais aliados dos EUA na Europa, como o Reino Unido e a Alemanha, se juntaram à iniciativa chinesa, apesar da forte oposição americana.
O afastamento dos Estados Unidos da cooperação internacional propícia o aceleramento da ascensão e consolidação da China como superpotência o que terá efeitos no cenário internacional e exigirá uma nova configuração das relações geopolíticas globais que poderão ir ao encontro dos princípios e interesses chineses. Dada sua dimensão e ineditismo em termos planetários, as consequências para o mundo são difíceis de antecipar.