Eleições: o jogo mal começou
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Publicado 19/11/2017 - 07h38

Eleições: o jogo mal começou

Faltando menos de um ano para as eleições, as pesquisas estão esquentando o clima eleitoral. O governo, por sua vez, continua sem rumo, pautado por denúncias e sobrevivendo a cada dia às ameaças a sua continuidade, como ocorreu recentemente quando a Câmara dos deputados impediu o prosseguimento da denúncia contra o Presidente Temer. O ano está próximo de findar e o momento é de articulações e alinhamentos para o embate eleitoral que se avizinha e que promete ser decisivo para o país retomar o desenvolvimento, em patamares sustentáveis.
Até aqui o governo Temer mostrou capacidade de sobrevivência política, mantendo a lealdade de parcela significativa do Congresso às custas da dignidade e da ética. Tem menos de um ano para apresentar uma agenda positiva ao país e manter alguma credibilidade que possa arregimentar força política suficiente para apoiar um candidato com a máquina do Estado. Conseguir eleger um candidato pode ser uma questão de sobrevivência no pós-eleições, pois Temer perderá o foro privilegiado e terá que prestar contas à justiça. Sua estratégia deverá levar em conta a possibilidade de eleger um candidato que dê proteção a si e aos seus mais próximos integrantes da organização criminosa, como a denominou o procurador Rodrigo Janot.
O Congresso deverá continuar legislando em causa própria, algumas poucas vezes esta coincidirá com os interesses gerais do país, mas o que orientará a posição dos parlamentares será sua própria sobrevivência política. Não haverá discussão de um projeto para o país, somente articulações que possam evitar o julgamento criminal de inúmeros parlamentares pós-eleições. Seus projetos particulares coincidem com o projeto presidencial. Eleger um candidato que não lhes seja hostil e estanque a sangria provocada pela Lava-jato. Nesse quadro, seria até viável a volta de Lula ao Planalto, o que não passou despercebido ao esperto candidato petista, que anunciou no início de novembro o “perdão aos golpistas” abrindo a porta para reviver velhas alianças do PT com o PMDB e outros partidos da situação. Renan Calheiros se antecipou a todos e anunciou a integração de petistas ao governo de seu filho no Estado de Alagoas.
As pesquisas atuais de opinião não transmitem otimismo para a maioria da população, pois trazem nos primeiros lugares duas lideranças populistas à direita e à esquerda, ambos com altas taxas de rejeição, em torno de 60%. Há uma expectativa generalizada de que a saída para o Brasil passa por uma candidatura de centro, não populista e distante dos extremismos. O que falta para essa alternativa democrática é definir uma estratégia viável que possa seduzir, de modo racional, essa porcentagem do eleitorado desencantada com os dois candidatos populistas.
Há um desencanto da juventude com a situação do país e dos seus dirigentes. Não há liderança que motive os jovens. Estes, podem se tornar presas fáceis de liderança populista de direita que apresente soluções simplistas para problemas complexos. A questão de ampliar o acesso da população ao porte de armas, por exemplo, está tendo receptividade em parcelas da juventude, que a justificam em função da ineficácia dos governos.
Não serão as estruturas partidárias que definirão as próximas eleições. Será o candidato que mais se identifique com essa parcela majoritária. Como afirmou em recente entrevista na revista Veja, o estrategista da campanha do presidente francês Emanuel Macron: “se um candidato quiser atrair os eleitores perdidos do centro, é necessário que faça campanha sobre sua personalidade e caráter e não apenas sobre pontos programáticos detalhados”. Afirma que isso é particularmente verdade no Brasil, onde os políticos não têm crédito, o que justifica a necessidade de as pessoas sentirem confiança no indivíduo.
Um dos primeiros pontos a serem abordados no processo eleitoral por um candidato de centro é que ele se identifique claramente com o combate à corrupção em todos os níveis, e com uma postura ética na política. Condenar e propor alternativas aos sinais claros de decadência na administração pública. Valorizar o alcance de metas com base na eficiência e eficácia em processos transparentes submetidos ao escrutínio público.
Ao logo do processo eleitoral, um candidato deverá encontrar respaldo na maioria do eleitorado. O processo de consolidação dessa candidatura ocorrerá no primeiro semestre do próximo ano. No momento, são realizados balões de ensaio por diversos possíveis candidatos. Os mais afoitos nesse período tenderão a se desgastar ao longo do processo eleitoral. Reeditar velhas fórmulas como movimentar uma caravana eleitoral pelos rincões do país somente revela desespero e tentativa de escapar de processos criminais. Se não há defesa diante da justiça, recorra-se aos mal informados ou àqueles que aceitam o “rouba, mas faz”.
Não há voto consolidado, o debate eleitoral destruirá reputações e revelará quem são realmente aqueles que se dizem salvadores da pátria, à direita e à esquerda.