A crise humanitária do êxodo venezuelano
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Publicado 23/11/2017 - 07h12

A crise humanitária do êxodo venezuelano

Há uma preocupação cada vez maior da comunidade internacional, em particular a latino-americana, em relação à situação na Venezuela. Inúmeras ações foram tomadas condenando as violações internas dos direitos humanos e as medidas adotadas de fraudar eleições, dissolver a Assembleia Nacional legitimamente eleita, de criar uma Assembleia Constituinte acima de todas as instituições e manipulada pelo governo Maduro, além de prisões de opositores sem qualquer processo legal.
A essas condenações se somam esforços para se conseguir uma saída pacífica para o problema do país como do Grupo de Lima, que reúne 12 países latino-americanos e as manifestações frequentes da ONU e da União Europeia, entre outros.
A Venezuela é uma país que tem uma economia totalmente dependente da extração de petróleo e teve perdas significativas de arrecadação com a queda do preço do barril no mercado internacional. A situação na Venezuela se agravou devido ao colapso na produção petrolífera, à falta de investimentos nas instalações e à fragilidade do sistema de gestão dessa indústria que tem sua renda utilizada para assegurar o apoio dos setores chavistas da população, ao invés de investir na criação de um parque industrial que possibilitasse a diversificação e a criação de emprego.
Uma das grandes preocupações com a crise venezuelana e que a torna uma questão internacional é que o colapso do regime bolivariano amplia a crise de refugiados desse país que se espalham por diversas partes do mundo, gerando problemas de ordem econômico-social nos países que os acolhem. Essa tendência é particularmente preocupante na América Latina.
Não há conflito armado na Venezuela, como ocorre na Síria, mas os efeitos deletérios são os mesmos, como a migração massiva e sem controle como ocorreu nos países europeus no caso dos imigrantes do Oriente Médio.
Esse êxodo da Venezuela só tende a aumentar em decorrência da profunda crise econômica e humanitária pela qual o país atravessa, impactando principalmente os países vizinhos e outras nações que, embora não tenham proximidade geográfica estão recebendo um grande fluxo de venezuelanos.
A Venezuela não é um país pequeno, tem pouco mais de 32 milhões de habitantes. Comparando o impacto da crise humanitária provocado na Europa pela Síria que tem 17,5 milhões de habitantes, pode-se ter uma ideia das repercussões da crise venezuelana na região, já que nosso vizinho tem quase o dobro da população e a maior parte das rotas de fuga são terrestres, o que facilita o deslocamento.
O êxodo venezuelano cresceu com o passar dos anos e é produto de uma grave recessão econômica gerada por uma inflação que atinge três dígitos, a mais alta do mundo. Há meses a população sofre com a escassez de produtos básicos como alimentos e remédios. Segunda dados da FAO há 4,1 milhões de pessoas desnutridas ou 13% da população que passam fome. Acrescente-se a esse quadro um alto índice de violência que converte a Venezuela em um dos países mais violentos do mundo.
Considerando que várias nações latino-americanas estão sendo diretamente afetadas pelo êxodo venezuelano, os países da região têm motivações de sobra para buscar uma solução para a crise venezuelana. Alguns dados recentes mostram um cenário perturbador. O Panamá, onde se estima em 60.000 refugiados venezuelanos, impôs restrições a novas entradas exigindo visto a partir de 1º de outubro de 2017 e restringindo a estadia. No Perú estima-se em 40.000 e na Colômbia diariamente ingressam 36.200 refugiados venezuelanos, são estimados em mais 500.000 no total que ingressaram legal ou ilegalmente. No Chile, entre janeiro e julho deste ano chegaram 64.516 venezuelanos, representando um aumento de 131% em relação a 2016. Na Argentina, de acordo com os dados oficiais, vivem atualmente mais de 40.000 imigrantes de nacionalidade venezuelana.
No Brasil, 12.193 venezuelanos formalizaram este ano um pedido refúgio em Roraima, multiplicando por cinco as solicitações registradas na região em todo ano de 2016, de acordo com dados da Polícia Federal. O governo estadual estima que desde o agravamento da crise política econômica no país vizinho, 30 mil venezuelanos ingressaram no Estado, sobrecarregando o sistema de saúde local entre outros serviços públicos.
A quantidade de venezuelanos em outros países se multiplicou nos últimos meses. O exílio se acentuou em 2017, quando a face autoritária do regime chavista se apresentou plenamente. Foi um ano marcado por protestos, inflação e isolamento, que forçaram muitos cidadãos a buscar alternativas à situação que impera no país dirigido por Nicolás Maduro.
Para os países da região só resta pressionar Maduro para que respeite a vontade popular dentro do modelo democrático. Além disso, deve se considerar que depois de ser encontrada uma saída política para a Venezuela, os países da região, deverão investir recursos para reverter o desastre econômico consequência dos governos populistas de Chávez e Maduro.
O Brasil poderia ter um papel mais relevante e porque não dizer, até decisivo para a solução da crise venezuelana, no entanto, a prioridade do governo Temer é a sua sobrevivência política, possuindo baixa legitimidade para se impor como ator relevante na solução da crise no país vizinho.