A importância do acordo Mercosul-União Europeia
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Publicado 07/12/2017 - 08h31

A importância do acordo Mercosul-União Europeia

As negociações entre o Mercosul e a União Europeia(UE) para que se estabeleça um tratado de livre comércio que se arrastam por quase vinte anos podem estar chegando ao fim. Há uma expectativa entre as partes de que se viabilize um acordo neste final de ano e que se faça um anúncio na Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) que se realizará em Buenos Aires entre os dias 10 e 13 de dezembro próximo.
Há diversos fatores favoráveis ao fechamento do acordo. O isolamento do presidente norte-americano Donald Trump e sua política protecionista é um deles. O fato de os principais governos do Mercosul, o Brasil e a Argentina, não serem populistas é outro fator positivo, pois esse tipo de arranjo político é essencialmente protecionista e não contribui para o crescimento do multilateralismo. A dificuldade de fechamento de um acordo nos últimos anos deveu-se a permanência de governos populistas no Brasil, com Lula e na Argentina, com Cristina Kirchner.
Há um consenso entre os negociadores que há um ambiente propício para as negociações que abre uma janela de oportunidades, que pode se fechar devido as eleições de 2018 no Brasil e a perspectiva de volta do populismo. Por outro lado, o fechamento do acordo representará uma vitória política para os atuais presidentes Michel Temer e Mauricio Macri que enfrentam problemas internos em seus países.
Os europeus, assim como os chineses tem interesse em expandir seus negócios aproveitando-se da falta de iniciativa norte-americana. Além disso os países latino-americanos possuem maior afinidade cultural com nações europeias o que pode facilitar uma maior integração.
Com um acordo com a União Europeia o Mercosul será revigorado e produzirá um impacto estratégico que impulsionará a integração regional dos países latino-americanos em função de seu enorme potencial econômico. O bloco econômico do Sul tem um PIB de 4,58 bilhões de dólares, cerca de metade do PIB da região e representa 82,3% da América do Sul.
Num primeiro momento o acordo com a UE refletiria em maior aproximação do Mercosul com a Aliança do Pacífico constituída em 2012 com a participação de Chile, Colômbia, Peru e México e que inicialmente pretendia uma maior integração com o Tratado de Livre Comércio da América do Norte. Com a política errática de Donald Trump esse bloco tem buscado novas parcerias e maior integração com as economias latino-americanas. A Aliança assume postura explicitamente multilateralista nas negociações internacionais, contraria à política da atual gestão norte-americana.
Para o Mercosul, ampliar a integração com a Aliança do Pacífico possibilitaria maior abertura para os negócios com países asiáticos e da Oceania. Neste ano a Aliança iniciou negociações com Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Cingapura, que incluem a livre circulação de bens e serviços e facilidades para a mobilidade dos cidadãos. A união dos dois blocos comerciais formaria a espinha dorsal de uma América Latina integrada.
Durante mais de um século os Estados Unidos foram o principal parceiro comercial da América Latina devido sua proximidade geográfica, seu grau de influência e seu enorme poderio econômico. Durante a guerra fria a região era considera o quintal dos Estados Unidos. Ocorre que este cenário está mudando rapidamente. Nas últimas décadas, as empresas chinesas ganharam terreno. Na contramão, a participação dos importados norte-americanos na América Latina caiu de 50% no ano 2000 para 33% em 2016, enquanto que os produtos chineses aumentaram sua presença no mesmo período de 3% para 18% e continuam nesse caminho de forma acelerada.
Para a UE o acordo com o Mercosul é estratégico pois aspira a ser o principal defensor do livre comércio global, em contraste com o protecionismo de Donald Trump. O acordo será o maior já negociado pela UE em termos econômicos. Além disso, reforçaria a posição dos europeus como maior parceiro comercial do Mercosul, posição cada vez mais ameaçada pela China.
Esse cenário é bastante positivo para o Mercosul que pode realizar negócios com a principais economias do mundo: Estados Unidos, Europa e China, aumentando seu poder de negociação e evitando uma total dependência a uma delas, numa relação que mais se assemelharia a um neocolonialismo.
O fechamento de um acordo comercial com a Europa equilibra o jogo político-comercial favorecendo o Mercosul e beneficiando toda América Latina. Diante da queda da influência dos Estados Unidos e a voracidade da China em ocupar o espaço, o acordo com a União Europeia pode oferecer a oportunidade que necessitávamos de utilizá-lo como contrapeso ao avanço chinês.