Maratona eleitoral na América Latina em 2018
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Publicado 08/01/2018 - 07h19

Maratona eleitoral na América Latina em 2018

Em 2018, ocorrerão na América Latina as mais importantes eleições das últimas décadas. Mais de 420 milhões de pessoas serão chamadas às urnas para escolher candidatos a eleições presidenciais. Costa Rica (fevereiro), Paraguai (abril), Colômbia (maio), México (julho), Brasil (outubro) e Venezuela (se ocorrer, com todas as restrições impostas pelo regime autoritário, poderá ser em outubro).
As eleições presidenciais no Equador, Chile e Honduras, realizadas em 2017 deram início ao ciclo eleitoral mais importante das últimas décadas na região. Se forem acrescentadas as eleições previstas para 2019 (Bolívia, Argentina, Uruguai, El Salvador, Panamá e Guatemala), serão 15 países latino-americanos (de um total de 18) com eleições presidenciais realizadas num período de dois anos.
Estas eleições acontecerão num contexto econômico de baixo crescimento de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) de 1,9% para 2018, com uma onda crescente de demandas e expectativas insatisfeitas da classe média, escândalos de corrupção e denúncias de fraude. Fatores que, combinados, costumam gerar tensões sociais e crises políticas que corroem a governabilidade e diminuem o apoio dos cidadãos e a legitimidade de muitos presidentes da região.
A maior parte dos processos eleitorais de 2018 ocorrerão em ambiente de alto nível de fragmentação partidária e o surgimento de candidaturas independentes o que aumentará a possibilidade de eleger governantes que, provavelmente, não obtenham maioria no Congresso, o que afetará a governabilidade e a implementação de reformas.
Os graves escândalos de corrupção que impactaram a região, muitos deles potencializados pela empresa brasileira Odebrecht afetarão as campanhas eleitorais, que também devem ser afetadas pela tendência de queda no apoio à democracia, como apontou a pesquisa Latinobarômetro realizada anualmente em 18 países da região, que caiu de 54% em 2016 para 53% em 2017, a quinta queda consecutiva desde 2010, quando atingiu um pico de 61%. Esta diminuição reflete a insatisfação com o processo democrático, um baixo nível de confiança nas eleições e nas principais instituições da democracia representativa, em particular com os partidos políticos.
Os resultados das eleições realizadas em 2017 no Chile, em Honduras e no Equador reforçam a mudança de tendência política regional da centro esquerda para a centro direita, movimento iniciado em 2015 e 2016 com as vitórias de Maurício Macri na Argentina e Pedro Pablo Kuczynski no Peru, respectivamente. No Chile foi eleito Sebastián Piñera e em Honduras reeleito Juan Orlando Hernández, ambos de centro-direita; no Equador embora Lenin Moreno tenha sido eleito com apoio de seu antecessor Rafael Correa, de esquerda, rompeu com este e vem adotando posições contrárias ao seu padrinho eleitoral.
Das eleições previstas para 2018, deve-se colocar sob suspeição a venezuelana devido a crise política, econômica e humanitária pela qual tem passado aquele país onde se acentua o caráter autoritário de seu governo. A disputa entre a aliança oposicionista MUD (Mesa da Unidade Democrática) e o governo de Nicolas Maduro resultou no fortalecimento do presidente que vem utilizando de todos os meios para manter-se no poder: reprimindo com brutalidade as manifestações da oposição e prendendo seus principais dirigentes. Maduro fraudou as eleições e forçou, ilegalmente, a eleição de uma Assembleia Constituinte que esvaziou o poder da Assembleia Nacional de maioria contrária ao seu governo. Se ocorrerem as eleições presidenciais, previstas na Constituição do país, serão realizadas num ambiente em que a oposição se encontra encurralada, com suas lideranças e partidos inabilitados para concorrer, muitos dos quais encarcerados ou forçados para o exílio.
A maratona eleitoral que vive a América Latina tem outra característica importante que é o papel a ser exercido pelas classes médias. Esta camada social tem assumido cada vez mais importância em termos globais com papel decisivo nas eleições. Fortalecida com a melhora no seu nível de consumo e cada vez mais conectada às redes sociais tornou-se mais exigente nas suas demandas e expectativas. A nova agenda da classe média e o temor de perder o que já alcançou ou não poder continuar consumindo e progredindo no mesmo ritmo dos últimos anos, aliado à insatisfação pela baixa qualidade dos serviços públicos, às altas taxas de insegurança pública e os graves escândalos de corrupção está gerando um estado de insatisfação generalizado e uma falta de confiança nas elites (políticas, empresariais, sindicais) que impactarão os resultados da maioria dos processos eleitorais latino-americanos.
A tendência que pode ser generalizada para todas as eleições que serão realizadas neste ano, inclusive no Brasil, é que as classes médias, menos motivadas por ideologia, mais pragmáticas e localizadas majoritariamente no centro do espectro político terão um papel chave. E embora seu comportamento eleitoral seja imprevisível, revelam claramente um distanciamento da política tradicional, das velhas práticas, da corrupção, do clientelismo o que poderá tornar possível o surgimento de novos arranjos políticos que poderão surpreender os melhores analistas em construção de cenários futuros.