Votos perdidos não contribuem para mudanças
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Publicado 18/01/2018 - 07h21

Votos perdidos não contribuem para mudanças

Não há limites para o que possa vir a acontecer na política brasileira. Quando pensamos que chegamos ao fundo do poço e que nada mais nos surpreenderá, eis que surgem novos fatos escandalosos ligados a parlamentares.
A deputada federal escolhida para ministra do trabalho, Cristiane Brasil (PTB) foi indicada por um condenado do mensalão, Roberto Jeferson, que não por acaso é o seu pai. Foi citada na delação da Odebrecht por receber propina e teve 93% dos recursos gastos em sua campanha eleitoral para deputada federal financiada por empresas denunciadas por corrupção. Em seguida tornou-se público que foi condenada a pagar uma dívida trabalhista de R$ 60,4 mil a um motorista que prestava serviços para ela e sua família; o funcionário não teve a carteira de trabalho assinada e sua carga horária era de 15 horas diárias. Há ainda outro processo na justiça trabalhista contra a ministra pelo mesmo motivo.
Como se não bastasse ter uma deputada federal indicada para Ministra do Trabalho condenada na Justiça do Trabalho, outra noticia estarrecedora surge vinculada à sua substituição na Câmara dos Deputados. Deve ocupar sua vaga como deputado, o suplente Nelson Nahim (PSD-RJ), preso e condenado a 12 anos de prisão em 2016 por exploração sexual de crianças e adolescentes e estupro de vulnerável. Passou quatro meses preso, mas foi solto graças a uma liminar concedida pelo ministro Ricardo Lewandowski do Supremo Tribunal Federal (STF). Deste modo, neste ano, entre nossos representantes teremos um pedófilo condenado como deputado.
Ainda neste início de ano o Ministro do turismo Marx Beltrão(PMDB), ex-prefeito do município de Coruripe, em Alagoas, foi alvo de denúncias que o apontam como beneficiário do desvio de mais de R$ 40 milhões de recursos da educação em sua gestão na Prefeitura. A investigação vem sendo conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF) e os desvios envolvem verba destinada a ações no ensino público, merenda, transporte escolar e construção de escolas. O ministro é alvo de outras nove ações em que o MPF pede a sua condenação por improbidade administrativa. É um dos ministros que pretendem se candidatar para manter o foro privilegiado.
Os recentes casos de políticos investigados pelos mais diversos crimes, predominando os casos de corrupção, só confirmam que o atual Congresso está contaminado com parlamentares que somente visam tirar proveito próprio de seus mandatos. Levantamento realizado pela Revista Congresso em Foco em julho de 2017 mostrou que cerca de metade dos deputados e senadores da atual legislatura (2015-2018) responde a alguma investigação no Supremo Tribunal Federal (STF). Ao todo são 238 parlamentares às voltas com a justiça no âmbito do STF. Dos deputados federais, quatro estão condenados à prisão: Celso Jacob (PMDB-RJ), Paulo Maluf (PP-SP), Paulo Feijó (PR-RJ) e Roberto Góes (PDT-RR). E, quatro ex-deputados foram presos pela Operação Lava Jato e seus desdobramentos: André Vargas, Luiz Argôlo, Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves. Após perderem seus mandatos, eles foram condenados por juízes de primeira instância.
Dos senadores, seis em cada dez são alvo de inquéritos, de ações penais ou com recursos de condenação em tramitação no STF. Há estados como o Acre, Alagoas, Amazonas, Minas Geral e Rondônia em que todos os três senadores em exercício respondem a procedimentos criminais. Ao todo são 48 senadores com procedimentos abertos no STF dos quais 34 estão sob investigação na Operação Lava Jato. Entre os senadores está Ivo Cassol (PP-RO) o primeiro senador da história da República condenado à prisão em agosto de 2013. Em dezembro de 2017 o STF acolheu o recurso da defesa e converteu sua condenação de quatro anos em regime semiaberto para a prestação de serviços comunitários e pagamento de multa no valor de R$ 201 mil. Ele ainda acumula mais oito procedimentos investigatórios, sendo cinco inquéritos e três ações penais.
No topo do ranking de senadores que devem explicação à justiça estão Renan Calheiros (PMDB-AL) com 17 inquéritos e uma ação penal; Valdir Raupp (PMDB(-RO), com sete inquéritos e quatro ações penais e Aécio Neves (PSDB-MG) com nove inquéritos
Assim, temos no início deste ano político sinais evidentes da necessidade urgente de mudanças contudo para que estas se realizem há necessidade de ampla participação da população na disputa eleitoral. O problema é que a desilusão do eleitorado é muito grande. Nas pesquisas mais recentes, 50% dos entrevistados afirmam que vão votar em branco, nulo ou se abster. Nesse sentido é importante alertar sobre o equívoco que é votar em branco, nulo ou se abster. Não existe neutralidade ou omissão em política. Neste campo sempre se tem um lado, mesmo os que se recusam a votar, anulam ou votam em branco estão assumindo conscientemente ou não um lado.
É importante retirar o foro privilegiado de muitos políticos que se perpetuam no Congresso defendendo seus próprios interesses. Muitos candidatos desprezados pela maioria da população são eleitos pela omissão de uma parte do eleitorado. É nesse aspecto que a escolha não pode ser decidida pelos votos brancos ou nulos. Um exemplo recente é o de Alagoas, Estado onde o senador Renan Calheiros (PMDB), conta com sua reeleição para fugir da justiça, aliou-se a Lula e mesmo assim, segundo pesquisa do Ibrape de dezembro de 2017, está com 22% dos votos e seria reeleito. O percentual só perde para os votos brancos e nulos, que atingem 29%. Há no estado 18% de indecisos. É um claro exemplo de que aqueles que não votam em algum candidato estão na verdade, contribuindo para a eleição de alguém que repudiam. Casos como esse se repetem por todo o país. Esta é a situação que muitos políticos contam para obter o foro privilegiado.