As revoltas da fome na Venezuela
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Publicado 24/01/2018 - 08h42

As revoltas da fome na Venezuela

Na Venezuela neste início de 2018 ocorreram várias manifestações populares motivadas pela fome e pela hiperinflação que em 2017, foi de 2.616%, de acordo com a Assembleia Nacional, de maioria oposicionista. O país vinha se recuperando de um ciclo de protestos que deixou 165 mortos entre abril e agosto de 2017, mas a relativa calma foi rompida com novas manifestações completamente diferente das anteriores.
A fome está levando milhares de venezuelanos a sair às ruas para saquear o comércio e caminhões que transportam alimentos em uma escalada de violência que obriga os comerciantes que ainda tem produtos a fechar suas portas. As manifestações são espontâneas e envolvem os setores mais humildes do país. Segundo o Observatório Venezuelano de Conflito Social (OVCS), entre o dia primeiro e o dia 11 de janeiro foram registrados 386 protestos em todo o país.
A principal preocupação da população é sem dúvida a inflação descontrolada que junto com a escassez de alimentos e medicamentos, reavivou protestos contra o governo do presidente Nicolás Maduro e deixou varios mortos e feridos. Multidões procuram saquear caminhões de alimentos, invadem comércio de produtos comestíveis e assaltam fazendas para levar o gado
A situação está tão crítica que a ONG Programa Venezuelano de Educação-Ação em Direitos Humanos (PROVEA) denunciou que as pessoas estão consumindo alimentos destinados a animais como forma de sobrevivência. Salsichas para cachorro, elaboradas com ossos de galinha triturados, misturados a outras partes não comestíveis do frango e vendidas congeladas, estão entre os produtos consumidos pela população. O Provea constatou que as pessoas misturam a salsicha com ovos mexidos ou as fritam para misturar com arroz. O jornal diário El Universal também registrou denúncias de pessoas e constatou que; “comprar e ingerir alimentos para animais se converteu em uma prática “normal” para muitos venezuelanos no país, já que a escassez e os altos custos dos produtos afetam o estilo de vida e os hábitos de alimentação das pessoas”.
A coordenadora da Organização Caritas, Suzana Raffalli, indicou na Assembleia da Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) que a má nutrição atinge a dois terços das crianças e a desnutrição severa, a 15%, o que corresponde a cifras de crise humanitária. Na mesma Conferência Diego Padrón Sánchez, Presidente da Conferência Episcopal da Venezuela, afirmou que a fome de um povo não se consegue resolver com sacolas de comida, nem com bolsas mensais, pois “estas são medidas de emergência aplicadas em populações que sofreram grandes inundações, terremotos e tsunamis” e que as bolsas de comida dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP) “se, por uma parte são um paliativo, por outra criam hábitos de mendicância”.
O ex-ministro de planejamento venezuelano e atual diretor do Centro Internacional para o Desenvolvimento de Harvard, Ricardo Hausmann, em artigo publicado em vários jornais sob o título “A fome que assola a Venezuela” afirma que: “A crise da Venezuela está passando, inexoravelmente, de ser catastrófica a ser inimaginável. O nível de miséria, sofrimento humano e destruição chegou a um ponto em que a comunidade internacional deve repensar como pode ajudar”. Segundo ele, a crise se baseia no colapso da produção, da renda e dos níveis de vida e saúde e cita como exemplo dessa realidade que o salário mínimo, medido em caloria, havia caído de 52.854 calorias diárias em maio de 2012 a somente 2740 calorias diárias em novembro de 2017 completamente insuficiente para alimentar uma família de cinco pessoas.
A Assembleia Nacional da Venezuela alertou recentemente aos países vizinhos como o Brasil e a Colômbia e aos organismos internacionais como a ONU e a OEA sobre o possível incremento de deslocados pela fome, diante do agravamento do desabastecimento de alimentos pelas medidas adotadas no governo Maduro.
O atual quadro venezuelano não permite vislumbrar uma solução a curto prazo, pois a política econômica desastrosa do regime chavista, aliada a má gestão do principal recurso do país, o petróleo, levou a Venezuela a uma das piores crises da história, somente comparável a países que enfrentaram grandes catástrofes como guerras, terremotos, furacões ou outros eventos semelhantes.
A Venezuela tem as maiores reservas de óleo cru do mundo, que poderiam ser a base de sustentação para alavancar a economia do país. Contudo há uma tendência global de diminuição gradativa da importância dos combustíveis fósseis no mundo em virtude dos problemas provocados pelo efeito estufa. A consequência é que a janela de oportunidades para a Venezuela está se fechando ao não conseguir converter, em tempo, seu petróleo em base para o desenvolvimento.
Para o Brasil, num ano eleitoral, é importante a compreensão do que ocorre no país vizinho, pois certamente será pautado nos debates que ocorrerão. Ser favorável ao regime venezuelano dirá muito do candidato e o que pretende para o país.
Certamente não é uma opção para a maioria dos brasileiros.