Extremismo de direita é ameaça real
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Publicado 15/02/2018 - 07h59

Extremismo de direita é ameaça real

A presença de um candidato presidencial com posições extremadas à direita do espectro político e com apoio de segmentos da população (ruralistas, evangélicos conservadores, militares, policiais e jovens desiludidos entre outros) é uma novidade no panorama político brasileiro e recria uma situação vivida em muitos países na atualidade, particularmente na Europa, onde propostas radicais de direita tem recebido apoio popular.
No Brasil, o modelo político e social vigente está em crise e em consequência começam a ser consideradas algumas soluções extremistas aos problemas que afetam a cidadania. Um dos problemas centrais é, sem sombra de dúvida, a questão da segurança pública. O aumento da violência urbana e rural provoca diversas reações na população entre as quais a de que o indivíduo deve se defender por si mesmo diante da inação do Estado. Nesse contexto, o candidato Jair Bolsonaro defende que a população tenha o acesso facilitado a armas para defesa pessoal.
O candidato que atualmente é deputado federal é assumidamente homofóbico (contra gays e todo espectro LGBT), misógino (tem desprezo pelo gênero feminino), xenófobo ( não perde a oportunidade para criticar refugiados), a favor de um golpe militar, defende a execução sumária de criminosos ( mesmo sem julgamento), é contra a política de direitos humanos defendida pelas ONGs, é contra a política em relação aos indígenas (critica as reservas considerando-as zoológicos milionários) e não esconde ser favorável à tortura de qualquer tipo.
Diante da falta de iniciativa do Estado em enfrentar e solucionar os grandes problemas vividos pela população, a conjuntura política se mostra favorável ao candidato Bolsonaro que unifica seu discurso atentatório a valores democráticos duramente conquistados, a atitudes de intolerância à diferença. Político ultranacionalista e que do ponto de vista econômico se opõe a políticas sociais, tem seguidamente demonstrado que está disposto a estimular o ódio às minorias.
O candidato de extrema-direita tem sabido canalizar de forma fanática e radical o repúdio social à criminalidade e assim obter crédito eleitoral suficiente para tornar viável sua candidatura ao planalto assustando os partidos tradicionais. Acrescente-se a isso, a deterioração dos serviços públicos e a corrupção mostradas diariamente nos telejornais e está formado o caldo de cultura do qual se nutre Jair Bolsonaro.
A ascensão de um político de extrema-direita traz inúmeras consequências para a democracia brasileira. Os números obtidos pelo deputado nas pesquisas e a receptividade com a qual tem sido recebido em diversas partes do país evidenciam que não se trata de um fenômeno marginal, mas algo que veio para ficar. É a primeira vez, desde a volta da democracia ao país, que um político populista de extrema-direita consegue ter semelhante êxito.
No mundo as mudanças tecnológicas estão ocorrendo com incríveis velocidades, mudando valores sociais em termos globais e ampliando os direitos das minorias que veem aumentada sua capacidade de expressão. São significativos os movimentos de mulheres em todo o mundo contra o assédio sexual e a violência doméstica e por direitos iguais entre os sexos; as mudanças no conceito de família; a ampliação dos direitos dos grupos LGBT; a predominância de propostas de paz em todos os aspectos da vida; a luta contra a discriminação étnica e racial entre outros avanços dos últimos anos. Esses progressos são questionados por grupos conservadores que lutam para manter o status quo em seus respectivos países e são os que engrossam as fileiras dos grupos de extrema-direita que se tornam porta-vozes do reacionarismo mais radical.
O mesmo ocorre no Brasil onde esses grupos conseguiram criar bancadas reacionárias formadas por integrantes de vários partidos. Assim são conhecidas as bancadas evangélica, ruralista e a da bala, que se articulam organizadamente contra propostas favoráveis ao aborto, ao aumento dos direitos dos LGBT, dos indígenas, ao meio ambiente, e ao desarmamento. São esses grupos que estão engrossando as fileiras de apoiadores do candidato Jair Bolsonaro.
Um político que tem posições tão extremadas só pode chegar ao governo se as forças democráticas estiverem fragmentadas. A história tem inúmeros exemplos que mostram que não se pode desprezar a possibilidade de retrocesso. Embora Jair Bolsonaro esteja participando do jogo democrático respeitando as regras, o grande desafio no futuro é impedir a proliferação de grupos que atuam fora do sistema e que não estejam sujeitos a nenhum controle. A pregação da intolerância e da violência tende a fortalecer grupos marginais de extrema-direita que se sentirão cada vez mais à vontade para manifestarem suas posições antidemocráticas e de intolerância étnica e racial.