Brasil e a guerra comercial China-EUA
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Publicado 05/04/2018 - 07h26

Brasil e a guerra comercial China-EUA

O presidente norte-americano deixa cada vez mais claro que o foco de sua guerra comercial é com a China e, em função disso, lançou várias medidas restritivas à importação de produtos chineses, impondo tarifas elevadas de até 25% sobre produtos de alta tecnologia, entre outras ações recentes que miram o gigante asiático.
A China, por outro lado, anunciou que poderá diminuir a importação de soja, de carne suína e de vinhos dos Estados Unidos, entre outras medidas.
Esse cenário de disputa comercial entre as duas superpotências pode ser benéfico para o Brasil e países da América Latina pois a China tem como alternativa se abastecer desses mercados em substituição às importações americanas.
Com a política de isolamento protecionista de Donald Trump a China vem ocupando o vácuo deixado pelos Estados Unidos. O país asiático está assumindo o papel de protagonista no cenário global, defendendo a globalização, o livre comércio e a sustentabilidade.
A estratégia chinesa está baseada no projeto One Belt, One Road (OBOR), também conhecida como nova Rota da Seda, que foi apresentada em maio de 2017 com o objetivo de realizar uma rede de obras de infraestrutura e conectar a China por terra e mar com os países do Oriente Médio, Ásia Central, África e Europa. Ao projeto original de construção de uma rede de infraestruturas ao redor do mundo, os chineses acabam de anunciar a inclusão da América Latina.
O plano chinês é ambicioso e está em execução em várias partes do globo. No Brasil os chineses estão envolvidos nos setores de energia, construção civil, estradas, portos, ferrovias, entre outros investimentos. No ano de 2017 a China investiu US$ 20,9 bilhões no país, nos mais diversos segmentos, desde infraestrutura até comércio e serviços. Isso posiciona o Brasil como o segundo maior destino de investimentos chineses, somente superado pelos Estados Unidos.
Nas exportações de grãos, dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) mostram que no ano passado, quase 79% das exportações nacionais de soja tiveram como destino a China. Os asiáticos pretendem aumentar a compra desse produto, principalmente devido à política adotada por Trump. Os norte-americanos fornecem um terço das necessidades de soja dos chineses.
Neste ano a China adquiriu 51% das ações do Porto São Luís no Maranhão, terminal privado de multicargas que será importante meio de escoamento da soja produzida no cerrado do Brasil Central. Pretende, ainda, adquirir participação em ferrovias que contribuam para o escoamento da produção agrícola. O objetivo explícito dos investimentos chineses é garantir a segurança alimentar de sua população de 1,3 bilhão de habitantes.
Vários estados têm recebido investimentos chineses e o mais recente é Mato Grosso. Este Estado receberá investimentos no setor de energia renovável nos próximos cincos anos, principalmente nas áreas de biocombustível e usinas fotovoltaicas. Por meio do incentivo governamental da Rota da Seda, os chineses pretendem investir mais de R$ 1 bilhão só para a construção da usina fotovoltaica.
O grupo chinês China Communications Construction Company (CCCC), um dos maiores conglomerados de construção do mundo que já adquiriu a construtora Concremat, declarou ter interesse em ampliar sua atuação no Brasil, especificamente em infraestrutura, parques industriais, imóveis entre outros projetos. Além disso, no final do ano passado o governo chinês e o grupo Huayang disponibilizaram US$ 3 bilhões através de um fundo voltado para empreendimentos no Brasil. Entre as prioridades elencadas estão infraestrutura e construção civil.
Os investimentos chineses no Brasil têm tido um crescimento significativo nos últimos anos. Foram 93 projetos confirmados no período entre 2003 e 2017 totalizando US$ 53,5 bilhões. Essa é só uma fração dos 250 projetos anunciados, pois muitos estão ainda em fase de negociação que totalizarão US$123,9 bilhões.
A guerra comercial iniciada por Donald Trump pode se tornar uma oportunidade para o Brasil. Além de aumentar a exportação de produtos agrícolas, abre-se a oportunidade para captação de investimentos para melhorar a infraestrutura do país.
Com a intensificação das relações com a União Europeia e o fechamento do acordo com o Mercosul, o Brasil poderá estabelecer relações comerciais privilegiadas com as três maiores economias do planeta: Estados Unidos, União Europeia e China.
A necessidade agora é aumentar a estabilidade política com a eleição de governo aberto ao comércio exterior e voltado para maior inserção do país no mundo. Uma maior abertura comercial, sob controle de um governo respeitado internacionalmente é fundamental para nosso desenvolvimento. A existência de várias alternativas para a comercialização de nossos produtos estabelece uma vantagem competitiva para o Brasil, desde que haja uma administração pública responsável e eficiente na gestão dos recursos públicos.