Reflexos da tragédia venezuelana no Brasil
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Publicado 19/04/2018 - 07h14

Reflexos da tragédia venezuelana no Brasil

Os problemas na Venezuela não dão sinais de que serão solucionados no curto prazo e a falta de uma solução política para a crise mantém em suspense e tensão não somente o país vizinho, mas a toda região, incluindo o Brasil. Enquanto a oposição e o governo venezuelano buscam resolver suas diferenças no âmbito político, a economia se encontra em colapso geral e o país está à beira da bancarrota. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB para 2018 deve ter uma queda de 15% confirmando a forte recessão que vive o país.
De acordo com a Assembleia Nacional, liderada pela oposição, a inflação da Venezuela no primeiro trimestre de 2018 foi de 454%. A estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI) é de que em 2018 deve atingir 13.000%. Esse descontrole inflacionário significa uma perda permanente do poder aquisitivo da população venezuelana que encontra dificuldades para a compra de produtos básicos, como alimentos e remédios, cada vez mais escassos no mercado.
Há uma crise social e humanitária de grandes proporções como mostra estudo divulgado neste ano pela Universidade Católica Andrés Bello (UCAB) da Venezuela ao informar que 87% dos venezuelanos sobrevivem com renda abaixo da linha de pobreza e 68% se encontram em pobreza extrema.
Para aplacar manifestações e protestos em função do agravamento da crise, o regime liderado por Nicolas Madura intensificou a repressão, aumentando o nível da violência, assim como o número de detidos por razões políticas e repetidas violações de direitos humanos e restrição à liberdade de imprensa.
Diante da situação no país vizinho, o Brasil se manteve distante durante anos, mas agora com os venezuelanos chegando aqui com bastante intensidade não pode mais postergar uma tomada de posição. O país tem recebido um número crescente de imigrantes. Mais de 800 entram diariamente em território nacional através da fronteira com o Estado de Roraima. Esse fluxo crescente tem causado colapso nos serviços públicos da cidade de Pacaraima, próxima à fronteira, e em Boa Vista, destino de 40.000 venezuelanos, o equivalente a mais de 10% do total de 330.000 habitantes da capital.
O colapso nos serviços de saúde pública em Roraima é dos mais graves. O número de atendimentos médios a imigrantes no Estado, num período de três anos saltou de 760 em 2015 para mais de 15 mil em 2017, um aumento de 1880%.
O Estado de Roraima e as cidades como Paracaima e Boa Vista estão encontrando dificuldades para atender as necessidades dos imigrantes. Ocorre que não havendo resposta satisfatória das autoridades públicas ao problema, a repulsa aos venezuelanos tende a crescer em função da incerteza e do medo crescentes que dão base à discriminação. Esse quadro tende a favorecer o aumento do vínculo entre nacionalidade e criminalidade quando são destacadas em excesso a participação de alguns venezuelanos em atos criminosos. Daí decorre uma generalização reforçada por agentes políticos que procuram se aproveitar da situação visando beneficio eleitoral. Essa é a centelha que pode dar origem a manifestações xenofóbicas.
Navegando nessa onda, a governadora de Roraima, Suely Campos, que busca a reeleição, alegando sobrecarga do sistema de saúde de Boa Vista e o aumento da criminalidade ingressou com pedido no STF para fechar temporariamente a fronteira. Medida que vem suscitando repúdio de amplos setores da sociedade brasileira.
É bom lembrar que os venezuelanos que chegam ao Brasil estão aqui porque não tiveram opção de caminho a seguir. São pessoas que foram destituídas de seus direitos e que necessitam de proteção internacional. Muitas mulheres, por exemplo, fogem da Venezuela para dar a luz no Brasil, pensando no futuro de seus filhos. Em todo o ano de 2017 foram feitos 572 partos em venezuelanas, somente no estado de Roraima. No mês de janeiro de 2018 foram registrados 150 partos com média de 5 por dia. E esse número tende a aumentar.
A xenofobia é uma das consequências indesejáveis da imigração venezuelana. Grupos fortemente hostis surgiram em redes sociais com discurso de ódio contra imigrantes. Manifestações xenofóbicas e racistas tem ocorrido nas ruas, incentivadas por grupos políticos que se aproveitam da situação para angariar vantagens políticas com vistas às próximas eleições. Neste ano eleitoral devemos atentar para ações repulsivas de grupos que buscam instrumentalizar a crise humanitária que ocorre em Roraima para radicalizar posições anti-imigração e reforçando posturas xenofóbicas que em nada se identificam com o que somos: um país de imigrantes.