Governo fraco, Brasil vulnerável
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Publicado 31/05/2018 - 15h05

Governo fraco, Brasil vulnerável

Faltando sete meses para o fim do mandato e quatro meses para as eleições de outubro o governo está dando sinais de que não consegue enfrentar o fluxo dos acontecimentos e a pressão de grupos de interesse organizados. 
Na mobilização dos caminhoneiros com o indiscutível apoio dos empresários do setor, caracterizando um misto de greve com locaute patronal, o governo revelou-se mais frágil do que nunca e desorientado frente ao movimento que paralisou o país.
A debilidade do governo Temer ficou evidenciada nas repetidas vezes em que cedeu diante das diversas lideranças dos caminhoneiros. Mesmo possuindo um formidável aparato de inteligência foi incapaz de prever o impacto do movimento e de identificar suas reais lideranças, subestimando um movimento grevista que manteve refém o país por mais de uma semana, causando inúmeros problemas para a população.
Há algum tempo o governo Temer demonstra fragilidade no enfrentamento de grupos de pressão organizados, quer sejam eles ruralistas, mineradores, sindicalistas e caminhoneiros, e o movimento de agora revela um governo desorientado, um presidente que governa através de impulsos irrefletidos, limitado pela conjuntura e sem rumo. No momento, parece estar mais preocupado com a sua situação após deixar a cadeira presidencial do que com a solução dos problemas mais imediatos que afligem o país.
Há um evidente risco de que se acentue o vazio de poder pela debilidade da figura presidencial que aos poucos se vê diante do esvanecimento de sua autoridade. Um exemplo palpável desta perda ficou evidenciado durante a greve dos caminhoneiros, quando Temer reiteradamente surgiu diante das câmeras, apresentando acordos com os manifestantes que sucessivamente foram desmentidos pelos fatos, obrigando-o repetidas vezes a contradizer seus próprios pronunciamentos anteriores.
Mas, não é só o Poder Executivo que se demonstrou incapaz de lidar com a crise trazida pela paralização. O Legislativo, tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado em seu conjunto, se omitiu vergonhosamente. Os parlamentares evitaram se comprometer de qualquer modo, supondo que não correriam riscos desnecessários que poderiam prejudicar suas campanhas para a reeleição. Pensaram tão somente em salvar sua própria pele, representando a si mesmos e ignorando o sofrimento da população. Tanto que na sexta-feira, no pico do movimento, o Congresso estava esvaziado.
Nesse cenário, oportunistas de todos os matizes – da esquerda à direita – buscam tirar proveito da situação.
Os pedidos de golpe militar revelaram a penetração de grupos organizados de direita na paralisação dos caminhoneiros. Essas reivindicações políticas são absolutamente fantasiosas e descoladas da realidade atual. A comunidade internacional rejeita os golpes militares pois não produziram resultados positivos em nenhum país do mundo e, particularmente, nas Américas não há hoje nenhum regime militar, um tipo de intervenção repudiada veementemente nos diversos países da região, devido a seus desastrosos efeitos no passado.
No recente movimento grevista, contudo, deve ser destacada a serenidade de atuação das forças armadas brasileiras quando foram acionadas. Agiram rigorosamente de acordo com a constituição e respeito às autoridades constituídas. A mobilização das forças de militares e policiais formando comboios, protegendo os caminhoneiros que desejavam trabalhar e garantindo o fornecimento de combustível para áreas estratégicas mostraram que o governo federal tinha os instrumentos necessários para impedir o desabastecimento da população no começo da paralização. Não o fez naquele primeiro momento, portanto, por pura incompetência e fragilidade.
Na esquerda, a tentativa de politização do movimento dos caminhoneiros associando bandeiras partidárias de “Lula livre” revelam não só oportunismo, mas profunda ignorância do resultado de suas ações, pois tendem a reforçar as ações da direita que visam incrementar o caos no país. Não é só miopia política, mas falta de sensibilidade e solidariedade com a população, o que é confirmado pela deflagração da greve dos petroleiros com reivindicações de natureza política (redução do preço dos combustíveis, saída de Pedro Parente da direção da Petrobrás, contra a privatização da empresa, solidariedade aos caminhoneiros) no momento em que se encerra uma greve que penalizou a maioria do povo brasileiro e se tenta normalizar o abastecimento de combustíveis.
Ao não acatarem a decisão da justiça que declarou a greve ilegal, por tratar-se de ação de natureza política e não reivindicatória, os petroleiros e seus apoiadores demonstraram não respeitar as instituições que constituem o Estado. 
Democrático de Direito. Reiteram, desse modo, a prática já adotada de ignorar as decisões da justiça ao condenar atos criminosos contra o erário público cometidas por políticos condenados, como José Dirceu ou Lula, visando desgastar as instituições jurídicas.
A vulnerabilidade do país a grupos organizados que visam desacreditar as instituições democráticas deve durar pelo menos até as eleições, quando as urnas definirão os rumos que a nação tomará nos próximos anos. Essa é uma decisão que cabe aos eleitores, que estão vivenciando um processo difícil, mas dentro das regras democráticas. Difícil, mas bastante educativo, pois ilustra bem as práticas e comportamentos de diversos atores políticos nos momentos em que o país mais necessita. Esperamos que esse aprendizado resulte num país melhor, mais democrático e com lideranças que representam realmente a população e não seus interesses pessoais.