A estranha aliança para a formação do governo italiano
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Publicado 06/06/2018 - 15h04

A estranha aliança para a formação do governo italiano

Há em todo mundo um evidente cansaço da população diante do sistema político. A situação de desgaste dos partidos políticos tem provocado o surgimento de situações inesperadas e surpreendentes como a vitória de candidaturas antissistema, reviravoltas em processos eleitorais e a formação de estranhas alianças de governo.
Vem da Itália o exemplo mais recente de aliança inesperada. Nessa república parlamentar são eleitos deputados e senadores que dão sustentação a um governo encabeçado por um Primeiro Ministro. Este e sua proposta de governo devem ser aprovados pelo Presidente da República, que tem a função de garantir o respeito à Constituição e à unidade nacional. Após três meses de negociações os dois partidos mais votados nas eleições do último dia 4 de março fecharam um acordo para a formação do governo. Nada mais natural se não fosse o fato de que os dois partidos representam extremos opostos de populismo – um de tendência à esquerda e outro de extrema direita, de corte fascista.
A Coligação é formada pelo Movimento Cinco Estrelas-M5S e a Liga Norte. O M5s se apresenta como um partido ecologista, antissistema e eurocético. Defende a democracia direta, o livre acesso à internet e o financiamento político através de pequenas doações privadas e não através de fundos públicos; o partido também condena abertamente a corrupção. Já a Liga Norte é um partido de extrema direita com acentuado discurso xenófobo, anti-imigração, altamente hierarquizado e bastante hostil ao projeto europeu.
A coalizão entre esses dois partidos, que embora apresentem sérias discrepâncias entre si, foi possível pela existência de elementos comuns. Entre eles estão o repúdio ao sistema político e propostas demagógicas e insustentáveis de política econômica e social, oposição aos imigrantes e acentuada crítica às instituições da União Europeia (UE).
As lideranças dos dois partidos, Luigi Di Maio, do M5S e Matteo Salvini da Liga afirmaram que não tem intenção de abandonar o euro ou enfrentar a UE. Observando-se as posições anteriores destas lideranças encontram-se justificadas dúvidas da sinceridade de seu novo posicionamento. Mas, mesmo que cumpram a promessa de manter-se na zona do euro, algumas de suas propostas e manifestações de seus principais dirigentes trazem inquietação tais como a tendência ao nacionalismo de exclusão, a intolerância, a irresponsabilidade econômica e a incerteza fiscal. De comum acordo, os dois partidos deixaram de indicar seus líderes para o cargo de Primeiro-Ministro apresentando um terceiro elemento – Giuseppe Conte- que certamente ficará nas mãos dessas lideranças.
A coalizão que representa uma experiencia sem precedentes na Europa dirigirá a Itália durante os próximos cincos anos e terá como Primeiro Ministro, Giuseppe Conte, um advogado sem vivência política que será o chefe do Executivo; como vice-primeiros-ministros Luigi Di Maio, líder do M5E, para o Desenvolvimento Econômico e Matteo Salvini, chefe da Liga, para o Interior.
A incerteza gerada por esta experiencia política é grande como indica a heterogênea abordagem das questões sociais. A primeira manifestação de Matteo Salvini como ministro foi de que haverá corte na ajuda aos imigrantes sob o argumento de que eles devem receber ajuda, mas no seu lugar de origem. De outra parte, o ministro da Família, Lorenzo Fontana, é conhecido por defender que o movimento gay e a imigração são o verdadeiro mal da Itália. Por outro lado, o primeiro ministro Giuseppe Conte afirmou que estimulará o crescimento econômico por meio de gastos sociais e cortes de impostos, ao mesmo tempo defendeu a implementação de uma renda básica universal.
A eleição italiana sinaliza que em tempos de alta conectividade e do ceticismo com a política os padrões de análise estão perdendo a validade. O inesperado está cada vez mais presente, emergindo forças políticas que no passado recente não teriam condições de prevalecer. São outros exemplos os fenômenos Trump, Macron e o Brexit.
A descrença na política tradicional aliada à facilidade de comunicação propicia a ascensão de movimentos alternativos com propostas inusitadas, mas que atendem as demandas dos eleitores que estão cansados de ouvir mais do mesmo. São apostas arriscadas, sem dúvida. Mas, nós brasileiros não estamos imunes a estas experiências, ao contrário, a grande incerteza prevalente ainda em relação às eleições e o desgaste dos políticos de modo geral, e dos grandes partidos em particular, levam a crer que podemos passar por situações semelhantes às vividas em outras paragens.
Nesse contexto não há como desprezar o papel exercido pelo Deputado Jair Bolsonaro no pleito até o momento e sua surpreendente liderança nas pesquisas, com preferência de 20% dos eleitores, apesar de suas propostas serem identificadas com uma extrema-direita intolerante, homofóbica, preconceituosa e racista. Sua receptividade em diversos segmentos da sociedade brasileira apontam a existência de muitos eleitores que não manifestam ostensivamente seu voto no candidato como o fizeram muitos eleitores de Donald Trump. O pior que pode acontecer para os candidatos que defendem propostas democráticas e progressistas nesse momento é descartar suas possibilidades eleitorais numa eleição altamente fragmentada como a nossa atual.