Candidato antissistema, de esquerda, é eleito no México
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Publicado 12/07/2018 - 11h46

Candidato antissistema, de esquerda, é eleito no México

A vitória de Andrés Manuel López Obrador nas eleições presidenciais do México representa mais um movimento no avanço global do populismo, desta vez de esquerda, e uma clara manifestação contra o sistema político-partidário do país. 
Na sua terceira tentativa de chegar à Presidência da República, AMLO, como é conhecido entre os mexicanos, conseguiu um triunfo histórico, por alçar ao poder um representante assumidamente de esquerda e obter uma votação expressiva de mais de 53% dos votos, equivalendo a mais que o dobro de votos do segundo colocado.
O partido de López Obrador criado por ele para concorrer às eleições, o Movimento de Regeneração Nacional – MORENA, obteve um resultado próximo da maioria absoluta no Congresso Mexicano, com 44% dos votos e conseguiu eleger 31 dos 32 governadores dos estados. Uma vitória arrasadora que certamente modificará o panorama político do México nos próximos anos.
O voto em AMLO foi impulsionado pelo amplo repúdio à corrupção que enriqueceu a elite política deixando metade da população na pobreza e a violência extrema ligada ao narcotráfico que corrói as instituições e se espalha por todo o país.
O programa econômico de López Obrador está baseado no fortalecimento da demanda interna através da elevação dos salários, um papel mais ativo do Estado na gestão econômica e a autossuficiência na produção de alimentos básicos. Em seu discurso após a vitória reiterou que respeitará o investimento privado e o livre mercado.
Na campanha adotou um discurso diferente das anteriores ocasiões em que destacava “primeiro os pobres”. No atual processo eleitoral utilizou o bordão mais amplo de “um governo para todos”; diminuiu o ataque aos adversários, uma característica que tinha nas eleições anteriores, adotando a postura de “paz e amor”. Assumiu a bandeira de candidato contra a corrupção identificado como um dos principais males do país.
AMLO é personalista, firme na defesa de suas posições e talvez por isso seja considerado autoritário. Começou sua carreira política no Partido Revolucionário Institucional (PRI) que governou o México ininterruptamente entre 1929 e 2000. Mais tarde se uniu ao Partido Revolucionário Democrático (PRD) e recentemente formou seu próprio partido, o MORENA. Apesar de seu vasto currículo político, muitos o consideram um estranho ao sistema devido a sua postura contra o establishment.
Foi prefeito da cidade do México entre dezembro de 2000 e julho de 2005, quando deixou o cargo para ser candidato presidencial na eleição de 2006, na qual foi derrotado. Fato que se repetiu na eleição de 2012.
A expressiva vitória de López Obrador por um partido que participou pela primeira vez de eleições representa uma mudança radical no sistema político vigente no México. Um sistema estruturado nos últimos 90 anos em torno do PRI que no final do período aliou-se com o Partido de Ação Nacional – PAN, de direita e em 2012 atraiu para um acordo em torno de reformas o progressista PRD. A estratégia que manteria o predomínio do PRI por mais tempo não deu resultado. O povo cansado do poder exercido pelo PRI alijou do poder esse partido identificado com a corrupção, conservadorismo e o clientelismo. Esse sistema foi fragorosamente derrotado por uma coligação formada pelo MORENA aliado a um partido de origem evangélica - o Encontro Social, com uma proposta ideológica oposta à da esquerda.
Após a vitória, AMLO tem destacado a necessidade de reconciliação de todos os mexicanos para promover mudanças no país, que afirma serem possíveis pela derrota dos partidos tradicionais que permitirão o surgimento de um cenário político renovado. Tem reiterado que a missão principal de seu governo será erradicar a corrupção no país. Em discurso a seus partidários na capital mexicana, logo após a confirmação de sua vitória, afirmou que “a corrupção não é um fenômeno cultural, mas o resultado de um regime político em decadência. Estamos absolutamente seguros de que este mal é a causa principal da desigualdade social e econômica”. Destacou que devido a corrupção, a violência explodiu no país e que para combate-la convocará, logo após a posse que ocorrerá em 01 de dezembro, representantes das Nações Unidas, organizações de direitos humanos e religiosas para criar um plano de paz para o México.
A eleição de López Obrador pode ser inserida no contexto de crescimento global do populismo. Desde a eleição de Donald Trump, em 2016 nos Estados Unidos, até a ascensão de lideranças dessa tendência na Hungria, Itália entre outras, o populismo tem colocado novos desafios à democracia moderna. Uma ideologia que se nutre do medo e da esperança, o populismo pode oferecer expectativas pouco realistas, e ao mesmo tempo critica uma elite tradicional mal definida, retratada como distante das preocupações dos cidadãos comuns. O líder populista clássico se rebela contra a democracia liberal, desconfia das instituições e tende a simplificar em demasia os problemas e se apresenta geralmente com um ego muito elevado. De modo geral, exageram seu papel na história e são ágeis em atacar quem se mostra como ameaça, incluindo os meios de comunicação, os intelectuais e as lideranças empresariais.
Como muitos populistas, López Obrador se auto refere como representante do povo. No entanto, é um populista pragmático. Na época em que foi prefeito da capital mexicana associou-se com o multimilionário Carlos Slim para construir o centro histórico da cidade. Pela sua história de vida, espera-se que o governo de AMLO será socialmente inclusivo e de firme combate à corrupção e à violência do narcotráfico. Para isso tem apoio político e popular para encaminhar as reformas que tanto o povo mexicano almeja.