Nicarágua: do sonho ao pesadelo
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Publicado 27/07/2018 - 08h40

Nicarágua: do sonho ao pesadelo

A mais nova vítima da violência na Nicarágua é uma estudante brasileira de 31 anos, Raynéia Gabrielle Lima, assassinada na segunda-feira, dia 23, por paramilitares a serviço do presidente Daniel Ortega e da vice-presidente, sua esposa, Raquel Murillo. A repressão desencadeada a mando do casal já deixou mais de 350 mortos, de acordo com organizações humanitárias.
O governo brasileiro condenou a morte da estudante e exortou as autoridades nicaraguenses a identificar e punir os responsáveis. A nota do Ministério das Relações Exteriores manifestou repúdio ao aprofundamento da repressão, o uso desproporcional e letal da força e o emprego de grupos paramilitares. O governo brasileiro condenou a perseguição de manifestantes, estudantes e defensores de direitos humano.
O que acontece na Nicarágua guarda alguma semelhança com o que ocorre na Venezuela. Ambos os países estabeleceram, a partir do Estado, mecanismos de controle social inaceitáveis em regimes democráticos. Transformaram o Poder Judiciário em meros agentes do Poder Executivo. O Judiciário transformou-se em apêndice do Executivo, sem nenhuma independência. O governo age através de um partido hegemônico que goza de amplos favores do Estado, e que cumpre a função de marginalizar ou eliminar a oposição e repudiar qualquer dissidência. As autoridades encarregadas do processo eleitoral em cada país estão submetidas à vontade exclusiva do partido governante, que as transformam em instrumentos utilizados para a perpetuarem no poder.
Embora a Venezuela seja o país do mundo com as maiores reservas de petróleo, a ineficácia e a malversação dos recursos obtidos com a venda do produto afundaram o país na pobreza, no desabastecimento de alimentos e remédios, na hiperinflação e o aprofundamento da corrupção endêmica. Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional a inflação do país caribenho deverá atingir 1 milhão por cento (1.000.000%) até o fim do ano.
A Nicarágua que depende do petróleo venezuelano, hoje está envolvida num caos crescente, em meio a protestos que exigem a saída de Daniel Ortega e sua esposa. Para enfrentar a revolta popular os dois governos recorreram a grupos paramilitares fortemente armados que se encarregam da repressão mais dura e que utilizam a violência sem limites para barrar a oposição. São estes civis armados os responsáveis pela maioria das mortes nos enfrentamentos na Nicarágua.
O que ocorre no país da América Central é uma matança indiscriminada que atinge principalmente os jovens, estudantes como a brasileira, que não aceitam os desmandos do casal no poder e seus familiares e amigos que ocupam os principais postos na administração pública. Os estudantes nas universidades resistem aos ataques de paramilitares e policiais do regime. No ataque à Universidade Nacional Autônoma de Nicarágua ( UNAM-Managua) foram utilizadas armas de guerra, além de terem sido incendiados edifícios dentro do campus para desalojar os estudantes.
Os protestos contra Ortega e sua esposa tiveram início com manifestações contra a reforma na previdência do país e logo se converteram em revolta contra o governo e exigência da renúncia do mandatário que ocupa o poder há onze anos e acumula acusações de corrupção, abuso de poder e nepotismo.
O ex-presidente Uruguai e respeitada liderança da esquerda latino-americana, José Mujica descreveu com precisão o caminho percorrido pelos Ortega que promovem o transito de um sonho ao pesadelo. Assim se manifestou sobre a crise na Nicarágua numa sessão do Senado: “Eu sinto que algo que foi um sonho, se desvia, caindo na autocracia. E entendo que aqueles que foram revolucionários ontem, perderam o sentido de que na vida há momentos em que você tem que dizer que se vai”
Enquanto isso, a maioria da esquerda brasileira permanece em um silencio cúmplice e vergonhoso parecendo aceitar que a defesa dos direitos humanos é relativa e depende do regime a que está submetido o país. Que a estudante brasileira assassinada pelos capangas de Ortega contribua para melhorar a obtusa visão daqueles que defendem regimes opressivos e que agridem a mais simples noção de civilidade.