Publicado 25/03/2019 - 15h36 - Atualizado 25/03/2019 - 15h36

Por Da Redação da Metrópole


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"Em casa, as conversas sempre eram sobre arte e arquitetura e, desde pequeno, meu pai já me levava para viajar e ver arquitetura", RODRIGO OHTAKE

Arte e arquitetura fazem parte da vida de Rodrigo Ohtake desde criança e ele decidiu dar continuidade à dinastia da família, construindo uma carreira com estilo próprio. Formado pela USP em 2009, ele cria mobiliários para compor seus projetos. Passou uma temporada de estudo no Politécnico de Milão, colaborou com projetos de Mario Biselli, de Alvaro Puntoni e do designer francês Patrick Jouin, além de trabalhar com seu pai, Ruy Ohtake. Rodrigo já teve suas peças expostas nas feiras MADE e SP/Arte, no Brasil, e na Design Miami e Art Basel, no exterior. Além das peças de mobiliário, cria estampas para tapeçaria e até para vestuário. Rodrigo diz que a influência do pai (a quem chama de farol) e da avó, a artista plástica falecida em 2015, Tomie Ohtake, não o amedronta. Mas ele acredita ter que exercitar uma pressão interna para ser inovador em relação aos dois importantes nomes. Amanhã, ele estará em Campinas para participar da abertura da Semana Design. “O Brasil tem um time de designers bastante interessante, com um futuro muito promissor”, diz ele, nesta conversa com a Metrópole.
Metrópole – Você cresceu rodeado pela família de arquitetos e artistas. Então, os assuntos estética, arquitetura e arte certamente estavam na sua rotina. Mas, de forma geral, o senhor acredita que a cultura do design está mais acessível à população?
Rodrigo Ohtake – Acho que tem melhorado. Porém, ainda está distante do grande público. Designer ainda é, sim, uma profissão ligada ao mercado de luxo e conserva essa imagem. Mas marcas conhecidas têm investido em design, como a Tramontina, por exemplo. E assim a gente vai tornando o design mais conhecido. Tenho uma referência no mercado, chamado Karim Rashid, um dos designers mais produtivos da atualidade, que faz desde obras e projetos milionários até produtos democráticos, como uma lixeira. Esse é o desafio: poder criar da peça única e autoral até aquela de enorme produção em escala que todo mundo quer ter.
Em que a convivência do dia a dia com uma família tão envolvida nessas áreas contribuiu para sua escolha profissional?
A convivência com o mundo das artes foi natural e onipresente desde que nasci. Em casa, as conversas sempre eram sobre arte e arquitetura e, desde pequeno, meu pai já me levava para viajar e ver arquitetura. E eu nunca tive dúvida que essa seria minha profissão. Desde os 5 anos já sabia. Justamente porque convivi rodeado por isso, não teve sofrimento. Eu nunca tive plano B. Foi muito natural e sem pressão.
Qual o panorama que você traça do design brasileiro?
A história do design brasileiro é recente. Nomes como Joaquim Tenreiro e Sergio Rodrigues, ajudaram a desbravar esse caminho, lá pela década de 1950. São extremamente valorizados. Outra dupla brasileira de enorme projeção – os Irmãos Campana – também fazem um trabalho muito reconhecido internacionalmente. Outro, mais perto da minha geração, Zanini de Zanine, também filho de arquiteto renomado, com trabalhos autorais usando madeira, abriu caminhos para mais jovens de muito talento. E esses jovens são muito unidos, trocam experiências e isso é muito bom para a classe dos designers. O Brasil está com um time bastante interessante. Então, acredito que o futuro é muito promissor.
A ideia de criar mobiliários nasceu quando? E o senhor continua criando projetos na arquitetura?
Sim. Na arquitetura e no design. E sempre fiz mobiliário. Aprendi com meu pai! Interessante é que quando a gente se forma, os projetos geralmente são reformas, em que a estrutura já está estabelecida. Mas eu sempre quis mais. Desde o início queria espaços mais únicos e autorais. E, estudando as obras do pai, via que ele desenhava vários móveis. Mais recentemente, há uns quatro anos, viajando com o amigo Bruno Simões, sócio e curador da Feira MADE (Mercado. Arte. Design), fui questionado se queria expor na feira. Foi a primeira ocasião sem usar a arquitetura como pano de fundo. Foi muito enriquecedor e pude perceber como o design é mais veloz em relação à arquitetura. E gostei!
Como você define a escolha das formas e a estética de suas peças?
Procuro criar peças que tenham um lado autoral só meu. O desenho vai surgindo e ainda não me preocupo. A partir da forma, eu vislumbro uma poltrona, uma cadeira ou uma mesa. Mas o desenho começa ainda sem função e vou sentindo onde se encaixa. É muito intuitivo. Mas não é tão abstrato. Conforme nasce a forma, visualizo o resultado. Em fração de segundo vem a forma.
Qual é a principal marca de seu portfólio de trabalho?
Acho que busco ser autoral e com liberdade de traço. Não me imponho limitações, a princípio. Depois, sei que questões técnicas terão de ser adaptadas pela indústria. Mas a criação é livre e sempre lúdica.
Em 2017, o senhor lançou sua primeira coleção de tapetes. Porque decidiu criar esses desenhos? Pretende continuar investindo nessa área?
Sim. Tenho uma parceria constante há dois anos com a Punto e Filo que me permite criar as estampas. É um trabalho muito gostoso e desafiador porque na arquitetura e no design eu trabalho com três dimensões. O tapete, a princípio, tem duas. Nunca fiz pintura. Então pensei em trabalhar com a altura dos pelos, para evidenciar a profundidade das estampas. E o resultado é muito bom.
Suas estampas também estão em eventos de moda, como o Fashion Week. Como isso começou?
O estilista da marca Modem, André Boffano, viu os tapetes e achava que tinha a ver com as pesquisas dele para a nova coleção. Então, ele me convidou para fazer uma intervenção. Riscava na roupa com giz e aquilo foi costurado. No desfile, compôs o resultado com os tapetes.
Artistas e profissionais que carregam um sobrenome de tamanha importância têm opiniões distintas sobre o “peso” que significa trilhar o mesmo caminho que uma pessoa da família já iniciou. Como o senhor considera esse fato?
A gente tem que fazer pressão em nós mesmos. A pressão externa existe. Mas a interna minha já é suficiente. Não me apego nas comparações. Mas se me compararam a meu pai é ótimo. Ele é meu farol e minha arquitetura é baseada na dele. E não quero perder isso. É preciso apenas me cobrar de forma sadia para ser inovador em relação ao trabalho dele. Na mesma proporção, cito os trabalhos da minha avó. Tenho elementos dos dois no meu trabalho. Não posso ter medo.
Já esteve em Campinas? Acredita que um evento anual focado no tema design ajuda a disseminar os conceitos do tema?
Sim, já estive em Campinas, uma cidade muito importante em termos de economia e, na arquitetura, muito atuante. Semanas focadas em design têm se popularizado no país. Estive recentemente em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, e me impressionou a qualidade dos trabalhos por lá. Assim, eventos fora das grandes capitais podem ser muito positivos para o segmento.
ONDE?
A segunda edição da Semana Design Campinas será realizada de 25 de março a 3 de abril, com a presença de arquitetos, designers de interiores e estudantes desses segmentos. O evento destaca a região como um dos polos da indústria criativa nacional. Local: Vitória Hotel Concept Campinas.

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