Publicado 14/04/2019 - 13h21 - Atualizado 14/04/2019 - 13h21

Por Delma Medeiros/AAN

Álbum tem participações especias do sambista Nelson Sargente e do trombonista Raul de Souza

Divulgação

Álbum tem participações especias do sambista Nelson Sargente e do trombonista Raul de Souza

O sambista Geraldo Pereira (1918-1955) faria um século em 2018 se não tivesse morrido precocemente na década de 1950, aos 37 anos. Mas o pouco tempo de vida foi suficiente para deixar sua marca na história da música brasileira e tornar-se o principal expoente do samba sincopado, um estilo diferente do gênero enraizado nos morros, que se caracteriza por melodias complexas e ritmo quebrado, também conhecido como “samba do telecoteco”. Celebrando a efeméride, o Selo Sesc lançou o disco Anaí Rosa atraca Geraldo Pereira, que chegou em dezembro às plataformas digitais e hoje está disponível nas lojas da rede Sesc e nas livrarias parceiras de todo o Brasil.
Anaí Rosa firmou sua carreira interpretando grandes compositores da MPB. Neste CD, a cantora destaca o compositor que com frequência aparecia em suas apresentações de samba, com músicas bem conhecidas do público, como Escurinha, Acertei no Milhar e Falsa Baiana, entre outras. “Sempre cantei músicas do Geraldo Pereira. No ano passado, sabendo que seria seu centenário, mandei um projeto para o Sesc, que foi aprovado. Só que o selo não queria a versão convencional, mas uma releitura de sua obra, atualizada para uma sonoridade mais moderna, para atrair novos públicos. Me indicaram dois músicos, Cacá Machado e Gilberto Monte, que eu não conhecia. Juntos pesquisamos a sonoridade ideal para o repertório que eu havia escolhido. Foi um mês de pesquisas e experimentações em estúdio para buscar uma nova leitura sem descaracterizar a obra de Geraldo Pereira”, conta Anai, que na segunda-feira viaja para a Itália para quatro shows em Palermo.
“Muitos já gravaram Geraldo Pereira, mas numa leitura mais convencional. O Sesc me apresentou o desafio de fazer diferente e foi muito interessante. Sai da minha zona de conforto, que é o samba mais tradicional, e descobri novas formas, junto com os dois músicos”, comenta. “Outra coisa especial neste trabalho é a participação do Nelson Sargento e do Raul de Souza, uma grande honra para mim”, afirma. “O álbum foi uma experiência inovadora.”
Sob a direção musical de Cacá Machado e artística de Vadim Nikitin, o álbum retrata o legado do sambista com todas as particularidades da voz de Anaí Rosa, cantora paulista de sólida formação erudita e grande entusiasta do samba. Ao contrário do que se poderia imaginar, esse não é um disco de samba tradicional. Quando convidado para organizar o projeto do CD, Cacá Machado imaginou sacudir e tirar a obra de Geraldo Pereira do lugar comum do sambista, mas sem lhe roubar a ginga. Chamou então Gilberto Monte, parceiro de tantos outros trabalhos, para subirem e descerem inusitados morros musicais.
A dupla teve como propósito radicalizar nos arranjos a poesia e a musicalidade de Geraldo. Sobre o processo de construção do projeto, Cacá Machado comenta: “Depois de ouvir as canções de Geraldo, Gilberto Monte e eu começamos a desconstruir certos caminhos harmônicos e melódicos já um tanto batidos em seu legado e nos sambas de sua época, trazendo outros climas e procurando entender profundamente o que estava sendo “atracado” em cada canção. Às vezes o que está sendo cantado é algo muito melancólico, mas que no samba ganha uma roupagem solar. E vice-versa. O carnaval depende sempre da morte de um “cabrito” para fazer tambor, ou seja, o coração da festa. Mas outras vezes o “cabrito” é o próprio sambista, que dá a sua pele à roda para que ela continue sambando. Que o diga, por exemplo, a música Polícia no morro. Com esse imaginário é que Anaí, a banda, Gilberto, eu e a equipe toda nos aventuramos a revisitar os vários Geraldos.”
Gravado ao vivo em estúdio, o projeto também teve uma banda pensada para desconstruir as gravações originais, mas sem descaracterizá-las, ao som de instrumentos pouco afeitos ao samba tradicional. A banda é composta por músicos de uma geração vigorosa: Leonardo Mendes (guitarra), Meno Del Picchia (baixo), Antonio Loureiro (bateria), Douglas Alonso (percussão), Zé Ruivo (teclado), Ildo Silva (cavaco), Allan Abadia (sopros), Gian Correa (violão 7 cordas) e as vozes de Juliana Amaral, Paula Sanches, Renata Pizi e Tereza Gama. Além da guitarra de Gilberto Monte e do violão de Cacá Machado.
O álbum tem ainda as participações especiais do sambista Nelson Sargento e do trombonista Raul de Souza. Raul participa nas faixas Chegou a bonitona e Falta de sorte, dando balanço, peso e uma certa malandragem diferente ao samba sincopado, que contracena com o reggae e o dub, na primeira, e com o tom de brejeira lamentação, na segunda. Já o cantor e compositor Nelson Sargento, lenda viva do samba e uma das figuras mais importantes da escola Estação Primeira de Mangueira, participa das faixas Que samba bom, Falsa Baiana e Polícia no morro.
Remetendo a um Rio de Janeiro antigo, com seus prosaicos roubos de cabrito, intrigas, confusões e rodas de samba até o sol raiar, o CD de Anaí Rosa dialoga com o mundo de Geraldo Pereira, que flagrou personagens típicos do morro carioca dos anos 1940-1950 por meio de um modo inequívoco de compor e de cantar.
Para Danilo Santos de Miranda, Diretor Regional do Sesc São Paulo, “a obra, produzida pelo Sesc, busca difundir a carreira de um artista fundamental para o patrimônio musical brasileiro e amplia o acesso do público às manifestações de nossa cultura popular. A voz de Anaí e a interpretação não convencional dos músicos convidados nos levam para um Rio de Janeiro antigo, que ainda hoje tem ressonância em nosso repertório musical afetivo”.

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Delma Medeiros/AAN