Publicado 12/06/2019 - 09h00 - Atualizado 12/06/2019 - 09h00

Por AFP


Quase 100 manifestantes, entre eles o líder opositor Alexei Navalny, foram detidos nesta quarta-feira em Moscou durante uma manifestação de apoio ao jornalista Ivan Golunov, acusado de tráfico de drogas e, posteriormente, liberado.As autoridades não tardaram em acabar com a manifestação, que não recebeu autorização da prefeitura. O protesto foi convocado no âmbito de uma mobilização quase sem precedentes da sociedade civil para obter a libertação do jornalista investigativo.A organização OVD-Info, que monitora as detenções, afirmou que pelo menos 94 pessoas foram levadas pela polícia durante a passeata não autorizada contra a suposta impunidade e corrupção das instituições responsáveis pelo cumprimento da lei."Alexei Navalny acaba de ser detido", escreveu no Twitter Kira Yarmysh, a porta-voz do opositor tantas vezes detido nos últimos anos."O poder tem medo da demonstração de solidariedade fantástica e unânime no caso Golunov. É, portanto, importante para eles destruir primeiro a solidariedade geral, para depois intimidar e prender aqueles que insistem", declarou Navalny no Twitter.Um colaborador da revista alemã Der Spiegel também foi preso, segundo o veículo.Quase mil pessoas se reuniram no centro de Moscou e outras 100 em São Petersburgo, a segunda maior cidade do país, em resposta a um caso que provocou uma grande mobilização da sociedade civil."O que aconteceu com Ivan Golunov ocorre todos os dias em todo o país. Há várias histórias de drogas (falsas) como esta. Tivemos a sorte de que o soltaram, mas foi apenas uma pequena vitória. A guerra não foi vencida", disse à AFP Egor, de 15 anos e que usava uma camisa com a frase "Eu sou Ivan Golunov"."Vim porque ainda temos muitas pessoas detidas injustamente. Há muitos casos injustos", afirmou Liudmila, uma engenheira aposentada de 83 anos.O Kremlin havia dito na terça-feira que temia que a passeata "atrapalhasse a atmosfera festiva" desta quarta-feira, feriado que celebra a independência da Rússia da URSS.Preso em 6 de junho em Moscou por policiais que afirmaram ter encontrado grandes quantidades de drogas em sua mochila e depois em seu apartamento, Ivan Golunov foi colocado em prisão domiciliar no sábado. Na terça-feira, as autoridades russas retiraram as acusações de tráfico de drogas e o deixaram em liberdade.Desde quinta-feira da semana passada existiam muitas dúvidas sobre as circunstâncias da detenção e a veracidade das acusações contra o jornalista do site independente Meduza, conhecido por reportagens sobre casos de corrupção que envolvem autoridades e matérias sobre fraudes em setores como o microcrédito.O jornalista de 36 anos saiu da delegacia e, sem conter as lágrimas, agradeceu a solidariedade nacional e internacional. Ele prometeu prosseguir com o trabalho de investigação.Uma investigação foi aberta sobre os policiais que prenderam o jornalista - os agentes permanecerão afastados das funções durante o inquérito. Além disso, dois comandantes da polícia moscovita foram demitidos.Esta é uma decisão quase sem precedentes na Rússia, onde as forças de segurança e a polícia geralmente são acusadas de inventar casos de drogas para atingir vozes críticas e as absolvições são incomuns.A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), apesar de comemorar o "nível histórico de pressão da sociedade civil russa" pela libertação de Ivan Golunov, lembrou que seis outros jornalistas permanecem detidos por várias acusações na Rússia."A prisão de Ivan Golunov destaca a completa impunidade de policiais corruptos", disse a RSF em um comunicado. "Se o comportamento deles chocou Moscou, é bastante comum no resto da Rússia".O caso do jornalista provocou uma rara onda de solidariedade, com o apoio da parte de cidadãos comuns, de jornais independentes, da mídia estatal, além de artistas e até alguns políticos de alto escalão.tm-pop/al/zm/fp/mr

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