Publicado 13/08/2019 - 12h08 - Atualizado 13/08/2019 - 12h08

Por Delma Medeiros

Obras de Doris Homann retratam as múltiplas facetas da artista sensível que defendeu ideais libertários e pintou as dores de seu tempo

Divulgação/Reprodução

Obras de Doris Homann retratam as múltiplas facetas da artista sensível que defendeu ideais libertários e pintou as dores de seu tempo

Artista que sobreviveu aos horrores das duas guerras mundiais, Doris Homann (1898-1974), pintora alemã que depois de fugir do nazismo, escolheu o Brasil para viver, pintou as dores, lutas e transformações de seu tempo. Uma revolucionária que conviveu com os maiores nomes da cultura europeia de sua época, deixou um importante legado, ainda pouco conhecido dos brasileiros. No Brasil, Doris morou no Rio de Janeiro e Niterói, locais onde teve suas obras apreciadas em exposições individuais e coletivas, tem seu trabalho apresentado pela primeira vez em Campinas, na exposição Doris Homann: A Pintura da Condição Humana, que abre hoje no Ligia Testa Espaço de Arte e permanece em cartaz até 13 de setembro.
“No Rio de Janeiro, minha mãe era bastante conhecida, participou de salões de belas artes, exposições individuais, vendeu obras, recebeu medalhas. Mas aqui sua obra é praticamente desconhecida. Amanhã (hoje) é o grande dia. Estarei sozinha nesta abertura, porque minha irmã Livia, que particpou do processo para a realização da mostra, morreu no mês passado. Mas, estou, não digo orgulhosa, mas muito feliz de poder, dessa forma, homenagear minha mãe e também minha irmã, que me acompanhou nesta caminhada e, infelizmente, não viu a ideia concretizada”, afirma Claudia Junger, filha de Doris, que mora em Campinas.
Segundo a produtora de arte e curadora, Ligia Testa, a exposição vai retratar as múltiplas facetas da vida e da obra de Doris Homann, pintora, ceramista, escultura e gravurista. “O objetivo é apresentar, de forma inédita para os apreciadores da arte e público em geral de Campinas e região, uma biografia de enorme riqueza e uma obra que reflete as angústias e também as esperanças de períodos tumultuados da história da humanidade”, diz.
Obras de Doris Homann retratam as múltiplas facetas da artista sensível que defendeu ideais libertários e pintou as dores de seu tempo
“Doris pinta a dor, a terra nos engolindo nas guerras, a lama nos tragando em tons terrosos; os olhos jovens de Doris veem a primeira guerra, quando queriam ver os romances da juventude. Ao amadurecer, eles veem a segunda guerra, quando queriam ver as filhas aninhadas a ela; mulher intensa, apaixonada, pinta também o belo, a paisagem, retrata muita gente, quem pede, quem ela quer, quem encontra pelo caminho”, afirma Ligia, no folder de apresentação da mostra. Cita ainda que Doris pinta paisagens, aquarelas, usa carvão, papel, madeira,“não desperdiça nenhum suporte, usa frente e verso.”
A mostra é resultado do desejo das duas filhas de Doris Homann, Claudia e Livia, que há anos escolheram Campinas como moradia. Livia, a primogênita, morreu no mês passado, mas participou ativamente de todo o processo de idealização, formulação e produção da exposição.
Sobre a artista
Doris Homann nasceu em Berlim, no dia 16 de maio de 1898. Nascida em família de classe média alta, a artista vivenciou infância e adolescência nos últimos momentos do Império Alemão, sob o domínio de Wilhelm II, até sua abdicação em 1918, ao final da Primeira Guerra Mundial. Talento precoce, estudou no Konigstaatlisches Lizeum (Liceu Real) e na Academia de Belas Artes, tendo integrado o círculo de artistas reunidos em torno do escultor e pintor Otto Freundlich. Ele foi um dos nomes com obras incluídas na famigerada exposição Arte Degenerada, assim designada por Adolf Hitler. Freundlich morreu no campo de Majdanek, na Polônia, em 1943.
Doris, como outros artistas viveu um período de efervescência na República de Weimar (1918-1933). Nesta época, atuou em jornais, ilustrou livros e protagonizou várias exposições, individuais e coletivas, convivendo com grandes expressões da cultura como Vladimir Mayakovsky (1893-1930), George Grosz (1893-1959), Wassily Kandinsky (1866-1944) e Kathe Kollwitz (1867-1945). As tonalidades expressionistas e surrealistas na obra de Doris são desse período de intervalo democrático e utópico entre as duas guerras mundiais que foi a República de Weimar.
O Café Leon, em Berlim, era um dos principais pontos de encontro da intelectualidade europeia e nele Doris passou bons momentos com o marido, o jornalista e dramaturgo Felix Gasbarra (1895-1985). Nascido em Roma, Gasbarra vivia desde os dois anos com a família na Alemanha. Foi colaborador de Erwin Piscator (1893-1966), um dos nomes que revolucionaram o teatro contemporâneo. Data de 1927 o primeiro “coletivo dramatúrgico” fundado por Piscator, em parceria com Gasbarra, e que teria Bertold Brecht (1898-1956) como um ativo participante.
Com a chegada de Hitler ao poder, em 1933, a situação política, econômica e social na Alemanha ficou cada vez mais insustentável e Doris transferiu-se com as filhas e marido para a Itália. Por suas atividades, Félix Gasbarra já era considerado persona non grata na Alemanha nazista. Longe do nazismo, mas bem perto da guerra, Doris presenciou em setembro de 1943 o bombardeio aliado à cidade de Frascati, onde residia com as filhas.
A primogênita, Livia, foi a primeira a mudar-se para o Brasil e em 1948 foi a vez de Doris vir para o país com Claudia. Elas passaram a viver no Rio de Janeiro, onde logo Doris foi reconhecida como artista. A primeira grande exposição aconteceu no final de 1950, na sede do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro. Inaugurado em 1943, o prédio é um marco da arquitetura moderna brasileira, tendo sido projetado por uma equipe composta por Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy, entre outros, sob consultoria do franco-suíço Le Corbusier. A galeria foi durante muito tempo a mais badalada na capital fluminense.
Muitas outras exposições e premiações ocorreriam e uma das últimas, em 1967, foi na Galeria Cristalpa, em Copacabana, como parte das homenagens a Herbert Moses (1884-1972), que encerrava seu longo mandato na presidência da Associação Brasileira de Imprensa. A apresentação da exposição teve a assinatura do presidente da ABI, jornalista e crítico de arte Celso Kelly, que resumiu sobre a artista: "A pintora Doris Homann Gasbarra já acumulou uma significativa obra plástica, exercitando a pintura nas mais variadas técnicas e revelando a segurança no métier, ao lado de sua vocação para o experimental e para o ilustrativo.
Em algumas realizações, ainda se sente a presença do naturalismo, ao largo de generosas interpretações. Em outras, está na vizinhança da abstração e da decoração. Numas e noutras, a composição é balanceada, as cores estranhas e harmoniosas, os ritmos bem desenhados. Não será demais reconhecer aqui e ali uma tendência surrealista. Em tudo, porém, a marca da artista se verifica na força inegável de seu talento."
AGENDE-SE
O quê: Exposição Doris Homann: A Pintura da Condição Humana
Quando: Hoje, às 19h. Até 13/9, de segunda a sexta, das 12h30 às 16h30, mediante agendamento
Onde: Ligia Testa Espaço de Arte – Arqtus (Av. Dr. Heitor Penteado, 1.611, Parque Taquaral, fone: 99792-7221)
Quanto: Entrada franca

Escrito por:

Delma Medeiros