Publicado 04/11/2019 - 15h52 - Atualizado // - h

Por Kátia Camargo

Silvia Brandalise expôs em palestra os resultados de estudos sobre o impacto de poluentes nas crianças

Divulgação

Silvia Brandalise expôs em palestra os resultados de estudos sobre o impacto de poluentes nas crianças

A médica Silvia Regina Brandalise completou 52 anos de carreira e 76 anos de idade, dos quais, 41 dedicados ao Centro Infantil Boldrini, maior hospital especializado no cuidado a crianças e adolescentes com câncer e doenças do sangue da América Latina. Periodicamente, a Escola Salesiana São José traz um profissional de destaque para contribuir com o conhecimento dos estudantes, pais e também de toda a comunidade. Recentemente, a oncologista foi conversar sobre o tema Meio Ambiente e Doenças em Crianças.

A médica abordou na palestra as doenças próprias dos adultos, agora ocorrendo em crianças, como por exemplo, as mielodisplasias, que favorecem o desenvolvimento de insuficiência medular e de leucemias. Essas constatações devidamente registradas ao longo das últimas décadas levaram os pesquisadores a investigar a influência de poluentes ambientais, uso de medicamentos e drogas durante a gestação, condições de trabalho dos pais, peso ao nascimento, papel das infecções e outros agentes agressores aos genes. A especialista conversou com a Metrópole sobre esse assunto.

Revista Metrópole - A senhora sempre fala dos malefícios dos inseticidas, repelentes, como isso afeta as crianças?
Silvia Brandalise - As pessoas que têm filhos, netos, precisam refletir o que está acontecendo e o que estamos fazendo conosco e com o planeta. E isso é urgente e necessário. Dentro da ganância, o homem contamina o meio ambiente. Mesmo estando dentro do útero da mãe a criança já sofre o impacto ambiental. Dentre eles, os inseticidas e repelentes afetam a todos nós, mas as crianças estão em fase de desenvolvimento e acabam sendo as mais prejudicadas. Sou contra o uso de inseticidas de qualquer tipo e também sou contra o uso de repelentes. Outro ponto importante é que já pararam para pensar que quando a gente usa carrapaticida em nossos animais domésticos estamos tendo um contato muito próximo com o veneno? E que criança adora ficar pertinho dos seus bichinhos? Precisamos repensar nossas atitudes urgentemente.

Por que a senhora fala que fica preocupada quando alguém diz que a casa em que mora não tem barata ou formiga?
Porque a casa sem barata e sem formiga é, na maioria das vezes, uma casa envenenada. Temos que entender que ao dedetizar a casa aumentamos o risco da família adquirir uma série de doenças. Penso que se todo mundo tivesse rede de esgoto, estaríamos mais protegidos e seriam menos afetados por muitas doenças.

Quais doenças graves a senhora destaca que estão ocorrendo com as crianças?
Dentre estas doenças, destacam-se as imunodeficiências congênitas, as malformações, o câncer, distúrbios endócrinos e distúrbios neurológicos como o déficit da atenção e o autismo. Outra coisa interessante é que estamos vendo que doenças próprias dos adultos, agora ocorrendo em crianças, como, por exemplo, as mielodisplasias, condições estas que favorecem o desenvolvimento de insuficiência medular e de leucemias. Essas constatações devidamente registradas, ao longo das últimas décadas, levaram os pesquisadores a investigar a influência de poluentes ambientais, uso de medicamentos e drogas durante a gestação, condições de trabalho dos pais, peso ao nascimento, papel das infecções e outros agentes agressores aos genes.


O Centro Infantil Boldrini participa de estudos internacionais que relacionam o câncer e o agrotóxico?
Sim, fazemos parte de um grupo internacional chamado Consórcio Internacional do Câncer da Criança, com parceria da Organização Mundial da Saúde, da Agência Internacional de Câncer, da França, e é coordenado por um grupo da Austrália. Esse estudo vai avaliar 1 milhão de gestantes e um milhão de nenéns. Nesse estudo, o Brasil é representado por Campinas. A avaliação será feita por um período de 18 anos para ver quantos desenvolvem malformação, câncer e outras doenças. Já estamos nesse estudo há pelo menos 6 anos.

As contaminações podem vir da alimentação?
Sim, não podemos esquecer nunca que somos o que comemos, bebemos e respiramos. Portanto todos os poluentes estão afetando diretamente a todos nós. Para se ter uma ideia a União Européia já proibiu o uso da atrazina (que influencia na malformação congênita que já foi relatada também em estudos brasileiros).

Fale sobre o Núcleo de Proteção da Saúde da Criança que será lançado em breve?
Peguei no coração três elementos essenciais para a vida: a água, a alimentação e o ar, e estamos constituindo o Núcleo de Proteção da Saúde da Criança. Nesse núcleo teremos estudiosos que envolvem a parte da química e da biologia da Unicamp e outros pesquisadores que vão fazer a dosagem, análises da alimentação, da água e do ar. Vamos atrás do credenciamento da União Europeia para mergulhar na qualidade do que é essencial para a vida.

Escrito por:

Kátia Camargo