Publicado 23/12/2019 - 15h21 - Atualizado // - h

Por Adriana Menezes


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"Sofri muito no começo porque era difícil. Vim de uma cidade pequena onde eu era muito boa aluna. Daí na Unicamp comecei a tirar 5,6...Aos poucos, fui me encontrando em algumas áreas", revela Miriam Dupas Hubinger

Ela está entre os 15 cientistas brasileiros mais citados em publicações acadêmicas do mundo inteiro. Pelo segundo ano seguido, a engenheira de alimentos, professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Miriam Dupas Hubinger, está na lista dos cientistas mais influentes do planeta. Para uma mulher brasileira nascida no final da década de 1950, que viveu os seis primeiros anos de vida em uma fazenda de Araraquara e estudou em escola pública ao longo de toda a sua formação escolar, a trajetória brilhante da pesquisadora poderia parecer improvável diante dos obstáculos que encontrou. Mas Miriam não se intimidou e, desde que saiu de casa aos 18 anos para estudar em Campinas, não parou mais de se dedicar aos seus objetivos. Seus estudos e artigos mais destacados são sobre o açaí em pó, encapsulação para proteção do bioativo de interesse, ômegas 3 e 6 do óleo de linhaça, e embalagens comestíveis.
Filha caçula com mais de dez anos de diferença entre ela e os dois irmãos e a irmã mais velhos, Miriam lembra que era uma criança muito pensativa. “Sempre fui mais introspectiva, que pensava muito e falava pouco. Era sensível, sofria de ver a miséria e a pobreza. Eram coisas que já me impressionavam na época”, diz a pesquisadora, cujo pai trabalhava em usina cana-de-açúcar e a mãe era dona de casa. “Como escolhi fazer engenharia de alimentos eu não sei te dizer”, fala sorrindo. “Eu tinha várias dúvidas. Gostava de química e era boa em matemática.”
Na década de 1980, quando ingressou na Unicamp em Engenharia de Alimentos, o curso era uma novidade, mas o pouco que sabia, por amigos, já lhe despertou interesse. “Sofri muito no começo, porque era difícil. Vim de uma cidade pequena onde eu era muito boa aluna. Daí na Unicamp comecei a tirar 5, 6… Aos poucos, fui me encontrando em algumas áreas”, lembra.
Depois de morar em pensionato, morou em república e adaptou-se à cidade e à vida universitária. Após a graduação, fez mestrado, doutorado e toda a carreira de docente e de pesquisadora na universidade. “Cheguei a procurar emprego em empresa. Fiquei em dúvida. Então surgiu uma oportunidade de ser contratada como instrutora e eu aceitei.” Miriam, no entanto, fala que só após defender seu doutorado ela começou a fazer pesquisa na área que de fato lhe interessava, sobre os processos que afetam a qualidade do alimento in natura e como melhorar estas condições. “Daí fui gostando. As coisas foram se encaminhando.”
Preocupante
Aos 62 anos, a engenheira comemora o reconhecimento internacional por seu trabalho de pesquisa, e fala da sua preocupação com a atual política voltada para a ciência no Brasil. “É uma situação de muita insegurança para os alunos. A incerteza do mercado de trabalho é aterrorizante. Eles não sabem o que vai ser da vida deles no futuro. Eu também fui afetada. Tive projeto aprovado em 2018 e recebi só cerca de 5% do valor. Isso é muito angustiante”, relata a cientista. “Talvez o reflexo não apareça agora, mas daqui a dois a três anos se nada for feito você vai ver o sucateamento da pesquisa, uma situação preocupante. Meus alunos estão desanimados e procurando outras atividades.”
O artigo mais citado de Miriam refere-se a um trabalho publicado em 2008, no qual ela, junto com a pesquisadora Catherine Brabet e a então orientanda Renata Tonon - que também está na lista dos 15 brasileiros mais citados e que hoje é pesquisadora na Embrapa -, fala do processamento do açaí em pó. Esta pesquisa teve início em 2006, quando Miriam orientava Renata Tonon no doutorado sobre o açaí. O projeto teve grande repercussão internacional. “Começamos a pesquisar como produzir o açaí em pó e como acontecia a secagem, depois a etapa de estocagem. Renata publicou vários artigos. Depois trabalhamos com ômega 3, que é o processo de encapsulação, que consiste em proteger o bioativo de interesse, para que este bioativo sofra menos degradação do que sofreria se não estivesse protegido. E trabalhamos também com ômega 3 e ômega 6 do óleo de linhaça. São os trabalhos mais citados.”
Segundo Miriam, houve um boom no mercado internacional do açaí. “O trabalho do açaí na época foi bastante pioneiro. As pessoas tinham muito açaí congelado, e nós queríamos estudar um outro processo que tivesse um diferente produto final. Fizemos um estudo muito completo de como este produto se comportava durante a vida de prateleira.” A pesquisa teve apoio de órgãos de fomento à pesquisa como Fapesp, CNPq e Capes.
Quando começou a fazer pesquisa na Unicamp, na década de 1980, Miriam lembra que existia estrutura e incentivo muito grande dos governos federal e estadual para o desenvolvimento da pós-graduação. “Faço parte de um programa que é nota sete, nota máxima da Capes. Mas agora a situação começa a complicar. Isso para o Brasil é uma pena. É muita gente competente saindo do país.“
Mais difícil para a mulher
Miriam destaca que as condições para as mulheres brasileiras cientistas no passado eram muito mais difíceis que hoje. “Tem o problema de conciliar filhos, trabalho, casa, a dupla ou tripla jornada de trabalho. Tenho um filho, precisei conciliar. Havia muito machismo, muita barreira”, diz a professora, que resolveu enfrentar os obstáculos. “Fui vítima de machismo algumas vezes. É difícil. Até que alguém preste atenção no que você diz precisa fazer muita coisa. Os homens faziam isso muito mais facilmente, porque tinham mais segurança. Se eles falam besteira, não são criticados como criticam as mulheres.”
A pesquisadora acha que as coisas melhoraram, mas o machismo no mundo científico e acadêmico ainda existe. “Hoje as meninas estão muito mais arretadas. Mas eu tive de enfrentar muitos preconceitos e muitas colegas minhas também.” Miriam acha que valeu a pena enfrentar os obstáculos. “Mas houve épocas sofridas.”
Ela escreve uma média de 10 a 15 artigos por ano na área de engenharia de alimentos, e procura alcançar mais visibilidade nas publicações internacionais. A pesquisadora possui também duas patentes. Uma da obtenção de extrato de própolis aquoso concentrado por membranas; e outra de um processo de obtenção de hidrolisado protéico de carne de frango em pó. Um terceiro pedido de patente está em andamento com grande potencial de ser aproveitada pela indústria. Ela não pode revelar a pesquisa enquanto o processo não for concluído.
“Embora não tenhamos patente do açaí em pó, eu acredito que muitas empresas fizeram uso disso e foram beneficiadas”, diz a pesquisadora, que comenta ser demorado e complexo o processo para obtenção de patente, mas que vale a pena do ponto de vista acadêmico e do ponto de vista do benefício ao desenvolvimento científico, além de gerar royalties para a Unicamp.
A classificação de Miriam e mais 14 pesquisadores brasileiros como os mais citados no meio acadêmico mundial foi divulgada na lista Highly Cited Researchers, da empresa de consultoria britânica Clarivate Analytics. “Estar pela segunda vez na lista é um reconhecimento pela dedicação à pesquisa e à formação de alunos. É importante como cientista, nunca imaginei estar ali”, afirma Miriam, que já recebeu prêmios como o Prêmio Samuel Benchimol para o desenvolvimento da Amazônia 2008 e 2009, prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia de Alimentos em 2009, Prêmio de Reconhecimento Acadêmico Zeferino Vaz da Unicamp em 2014 e Prêmio Inventores INOVA 2017.

Escrito por:

Adriana Menezes