Publicado 10/12/2019 - 13h09 - Atualizado // - h

Por Estadão Conteúdo

A maravilhosa vista da Baía de Nápoles é um cartão-postal do País, que renova as experiências dos viajantes pela literatura contemporânea

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A maravilhosa vista da Baía de Nápoles é um cartão-postal do País, que renova as experiências dos viajantes pela literatura contemporânea

O ano era 2017, estava pedindo indicações do que ler nas férias e uma amiga decretou: "Você precisa ler Elena Ferrante". Acatei a sugestão, embarquei com o primeiro exemplar da tetralogia napolitana debaixo do braço e terminei A Amiga Genial em poucos dias. Fui atingida pela mundial febre Ferrante, que já vendeu milhões de livros, e fiquei absolutamente obcecada em ler o segundo. Como viver sem saber o que acontece em seguida a esse casamento?
Os romances relatam de forma crua e direta a amizade iniciada na infância de Elena Greco (Lenu), a narradora, e Raffaella Cerullo (Lila ou Lina), que atravessa 60 anos em meio a transformações e acontecimentos, delas e do mundo, como o feminismo, o machismo e a luta de classes. A relação eternamente dúbia entre as duas, de necessidade e repulsa, amor e ódio, briga e paz, inicia-se na periferia pobre e violenta de Nápoles, onde elas cresceram após a Segunda Guerra Mundial.
É esse o Rione Luzzatti, ou, simplesmente como é conhecido o Bairro, que deixa marcas nas personalidades das personagens por toda a vida, justamente um dos cenários que gera fascínio entre os leitores. A boa notícia é que ele é real, é possível visitá-lo de graça e, ali, a ficção se materializa diante dos olhos.
Está lá o túnel de três bocas que, quando crianças, Lila e Lenu atravessaram de mãos dadas para conhecer o mar, aonde nunca chegaram. Este episódio dá sinais dos rumos que cada uma seguiria: Lenu se delícia ao soltar as amarras daquela vida miserável, enquanto Lila quer voltar. A escola, onde a permanente competição e inveja entre as amigas foi ganhando forma e se acirrando ao longo do tempo, também está lá, ao lado da igreja do bairro, cenário de acontecimentos como (alerta de spoiler) o assassinato dos mafiosos irmãos Solara em sua escadaria.
Fora dos limites do bairro é possível explorar uma outra Nápoles retratada nos livros. No roteiro, a elegante área de Chiaia, onde os rapazes do bairro arrumaram briga com jovens ricos, o Lungomare, em que Lenu se deslumbrou ao ver o mar pela primeira vez, e a Via Toledo e o Rettifilo, sempre cheios de gente e lojas movimentadas.
Além do fascínio que a história exerce, há ainda o fato de que a verdadeira identidade da autora é conhecida apenas por seus editores italianos. Desde a década de 90 ela publica sob o mesmo pseudônimo na editora Edizioni E/O. Até hoje, Ferrante concedeu parcas entrevistas por e-mail e apenas uma pessoalmente, para seus editores, é claro, publicada na revista literária The Paris Review em 2015.
Nessa rara oportunidade, ela explica porque não aparecer é importante para seu trabalho: "O vazio criado pela minha ausência foi preenchido pela própria escrita.”
Não só pela escrita, mas pela possibilidade de se impressionar ainda mais ao conhecer cenários reais que ela descreve com tanto detalhismo, como você pode ver nesta reportagem. 
Identidade misteriosa instiga leitores
Para quem desconhece, Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana, cuja identidade é mantida em segredo. A autora concede poucas entrevistas, todas elas por escrito e intermediadas pelas suas editoras italianas. Nelas, explica que optou pelo anonimato para poder escrever com liberdade. Com base em suas obras, especula-se que ela tenha nascido em Nápoles, uma vez que livros, como os da tetralogia napolitana, trazem uma descrição detalhada da cidade e de seus costumes.
O escritor italiano Domenico Starnone, que já foi apontado como o autor das obras assinadas por Ferrante, nega as especulações.
No último mês, para romper um hiato de cinco anos, quando publicou o último livro da tetralogia, A História da Menina Perdida, a escritora misteriosa provou que ainda continua permeando o imaginário italiano. O lançamento de A Vida Mentirosa dos Adultos foi precedido de filas imensas de até três dias em várias cidades formadas por fãs interessados em colocar as mãos em um exemplar e saborear suas mais profundas reflexões.
A Tetralogia Napolitana vendeu cerca de 12 milhões em todo o mundo e deu origem à série A Amiga Genial, da HBO. Elena explora os conflitantes e perturbadores sentimentos que perpassam a maternidade, o casamento e as relações femininas. (Eunice Gomes/AAN)

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