Publicado 14/01/2020 - 07h49 - Atualizado 14/01/2020 - 07h49

Por Daniel de Camargo

Moradora do local há 20 anos, Elaine recorda que o último transtorno dessa magnitude ocorreu há 17 anos

Wagner Souza/AAN

Moradora do local há 20 anos, Elaine recorda que o último transtorno dessa magnitude ocorreu há 17 anos

As fortes chuvas que atingiram Campinas e região entre a tarde e a noite de domingo, provocaram inúmeros estragos em diversas cidades. Em Campinas, segundo balanço da Defesa Civil, o bairro mais impactado foi o Recanto dos Dourados, área de risco e de proteção ambiental, onde 22 famílias foram afetadas, sendo que sete foram notificadas a deixar seus imóveis. Vacas e cavalos morreram na enxurrada e, segundo os moradores, a água subiu na altura dos telhados. Ao todo, o órgão contabilizou alagamentos em 12 imóveis, a queda de sete muros, dois deslizamentos e uma queda de árvore, e informou ainda que a cidade se mantém em Estado de Atenção com 119,2 milímetros (mm) de chuvas acumuladas em 72 horas. 
No Recanto dos Dourados, região Leste de Campinas situada próximo ao Solar das Andorinhas, o cenário era de devastação pela manhã. O dia amanheceu com as famílias lamentando as perdas de móveis, eletrodomésticos e alimentos que estavam guardados em armários. Alguns imóveis ficaram destelhados. Elaine Nogueira Cavalcante, cozinheira da 33 anos, disse que a cunhada estava desolada. "A casa dela ficou debaixo d'água”, comentou. "Só deu para salvar a geladeira", acrescentou.
Elaine, que mora no mesmo terreno na Rua Jorge Bonfante, porém numa parte mais alta, relatou que a água subiu rapidamente inviabilizando qualquer ação. "Foi tudo muito rápido e assustador", recordou. A família só conseguiu dormir por volta das 4h de ontem. Na residência que ficou inundada, além da cunhada, detalhou, residem mais três pessoas, sendo duas crianças - um menino de 8 anos e uma menina de 4. "É triste. Minha cunhada tinha compra muitos móveis há pouco tempo. Na semana passada, comprou o material para os filhos começaram o ano letivo. E, perdeu tudo", falou. Residente do bairro há cerca de 20 anos, Elaine recordou que o último transtorno dessa magnitude em decorrência de fenômenos naturais aconteceu há 17 anos.
"Graças a Deus não tive problemas em minha casa", comentou Francisco Alves Teixeira, de 59 anos. Contudo, o pedreiro, que parou de trabalha depois de ter sofrido um acidente de trabalho, se solidarizou e ajudou a vizinhança. "Na minha casa, pousaram uns 20 desabrigados", enfatizou. Posteriormente, arrumaram uma chácara para abrigar melhor as pessoas. Também morador da Rua Jorge Bonfante, Teixeira enfatizou que poucas casas da via não ficaram inundadas. A chuva ficou mais intensa, rememorou, por volta das 20h30 de domingo. As vias ficaram, garantiu, completamente alagadas e intransitáveis até as 5h de ontem. "Foi cedo. Todos estavam acordados", destacou, celebrando que ninguém se feriu. "Muitos aqui só vão conseguir reaproveitar as roupas”, lamentou.
A Prefeitura de Campinas informou, em nota, que além da Defesa Civil, equipes das secretarias de Assistência Social, Serviços Públicos e do Verde, vistoriaram a área e avaliaram ações humanitárias a serem realizadas, fora os trabalhos de limpeza. Os atendimentos continuarão a ser feitos. Técnicos da Secretaria de Habitação também encaminharam 15 das famílias afetadas para o recebimento do auxílio moradia. Atualmente, o valor do benefício é de R$ 590. Já a Secretaria de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos entregou 50 colchões, 50 cobertores e 14 cartões Nutrir, no valor de R$ 91,68 cada. A Secretaria de Serviços Públicos enviou maquinários para ajudar no escoamento das águas.
Ocorrências
Os 12 alagamentos de imóveis ocorreram nos seguintes bairros: Jardim Lisa, Parque da Amizade, Núcleo Residencial Novo Ipaussurama, Jardim Florence, Jardim Chapadão, Recanto dos Dourados, Jardim São Francisco, Jardim Carlos Gomes, Cidade Satélite Iris I, Jardim Santo Antônio. As sete quedas de muros ocorreram no Jardim Lisa, Jardim Rossin, Jardim Chapadão, Bosque das Palmeiras, Jardim Adhemar de Barros, Parque Xangrilá. Ambos os deslizamentos foram no Distrito Industrial e a queda de árvore ocorreu no Taquaral.
A CPFL Paulista informou, em nota, que registrou apenas interrupções pontuais no fornecimento de energia na região de Campinas na noite domingo. “As equipes foram acionadas e restabeleceram o fornecimento para todos os clientes”, informou um trecho do texto. Ontem, a companhia realizou a troca de um poste que foi atingido por uma árvore na rua Dr. Mário Natividade, no Cambuí. Com relação ao bairro Recanto dos Dourados, uma equipe foi destinada para restabelecer a energia.
 
Cepagri prevê mais dias chuvosos na região
Segundo o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), hoje e amanhã, Campinas e região devem ter o céu parcialmente nublado, com alguns períodos de Sol entre nuvens entre o fim da manhã e início da tarde. Chuvas são esperadas entre a tarde e a noite, na forma de pancadas localmente fortes. Há chances de acumulados significativos de chuva e de raios. Já entre quinta e sexta-feira, a aproximação e passagem de uma frente fria deverá promover instabilidade e chuvas fortes e abundantes na região. Hoje, as temperaturas tendem a ficar entre 20 e 30°C. Amanhã, entre 20 e 31°C.
Monte Mor e Nova Odessa estão em estado de alerta
Em Monte Mor, moradores tiveram que usar caiaque para se locomover nas ruas alagadas do Município
O Centro de Especialidades Médicas localizado no bairro Green Park, em Hortolândia, precisou permanecer fechado ontem. A Prefeitura informou, em nota, que o telhado da unidade de saúde apresentou problemas de infiltração por causa do grande volume de chuva. Equipes da Secretaria de Serviços Urbanos trabalharam passaram o dia no locam providenciando a manutenção. Além disso, houve falta de energia. A previsão é que o atendimento seja normalizado hoje. Hortolândia registrou 142,4 milímetros de chuva no domingo.
Em Monte Mor, a precipitação somou cerca de 100 litros de chuva por metro quadrado num período de um dia. A grande quantidade colocou o órgão em estado de alerta, uma vez que as chuvas causavam, na manhã de ontem, pontos de alagamentos nos seguintes locais são eles: Ponte dos Tempranos, Jardim Progresso, Jardim Capuavinha, ponte do Rio Acima, rua Siqueira Campos, Vila Farid Calil, prédio dos Pontim. Secretário do órgão, Murilo Rinaldo que em um curto espaço de tempo subiu o nível do Rio Capivari. “Além disso tem a água que vem de Campinas, o que agrava a situação”, explicou. Na tarde de ontem, um morador utilizava um caiaque para conseguir se locomover em uma via alagada no Jardim Santa Isabel.
A Defesa Civil de Nova Odessa decretou estado de alerta no município. As precipitações elevaram o nível do Ribeirão Quilombo em aproximadamente 2,5 metros e causaram alagamentos em alguns pontos da cidade. Três bairros amanheceram com ruas alagadas ontem: jardins Flórida, Fadel e São Jorge. Contudo, nenhuma casa foi atingida. Foram verificados também acúmulos de água temporários em outros pontos da cidade na noite de domingo, como na Avenida Carlos Botelho, sem registro de prejuízos para motoristas e pedestres.
De acordo com dados aferidos pelo pluviômetro instalado na Companhia de Desenvolvimento de Nova Odessa (Coden), foram registrados 57,5 milímetros de chuva no município entre a tarde de domingo e amanhã de ontem. Foi o maior volume registrado este ano na cidade em um dia. Nos 13 primeiros dias de 2020, choveu 147,8 milímetros. O volume equivale a 75% dos 197,1 milímetros acumulados em janeiro de 2019.

Escrito por:

Daniel de Camargo