Publicado 24/01/2020 - 18h37 - Atualizado 24/01/2020 - 18h39

Por Kátia Camargo


Wagner Souza/AAN

Nas últimas décadas, as mulheres assumiram de vez seu papel no mercado de trabalho, sejam casadas ou solteiras convictas. Aquele modelo de família em que o homem era o provedor absoluto ficou no passado. Hoje, elas priorizam uma formação profissional com o objetivo de desenvolver uma carreira sólida que possa fazer frente aos gastos cada vez maiores com a sobrevivência, seja dividindo os custos com o marido ou vivendo sozinhas. Essa mudança, claramente visível na sociedade atual, acabou por adiar a maternidade para quando a vida financeira esteja estabilizada e consolidada.
Se antes, tornar-se mãe era uma consequência natural do casamento ou de uma união estável, atualmente, o primeiro filho tem chegado mais tarde, quando a mulher já se aproxima dos 40 anos. Para se ter uma ideia, nas últimas duas décadas, o número de mulheres que deram à luz entre os 35 e 39 anos aumentou 71%, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Caso as gerações seguintes sigam o mesmo comportamento, a tendência é a escassez dos bisavôs, por uma questão meramente aritmética, sem deixar de frisar que nem todas as mulheres terão no futuro filhos após os 35 anos, mas os dados comprovam esse movimento.
Com isso, núcleos familiares com quatro ou até cinco gerações vem se tornando cada vez mais raros. Mas, claro, eles existem. Se ter avó e avô já é bom demais, imagina o privilégio de ter bisavós e bisavôs. Ainda mais se for como a bisa Dalva da Silva Curado, que aos 93 anos goza de saúde plena e adora estar rodeada pelos filhos, netos e seus sete bisnetos (Kayan, 23 anos; Giovanna, 16 anos; Beatriz, 7 anos; Pietro, 7 anos; Maria Julia, 3 anos; Theo, 10 meses; e o caçulinha Maurício, 2 meses).
Eles se reúnem constantemente numa chácara e ela aproveita para compartilhar suas vivências, experiências e histórias colecionadas ao longo de sua jornada. “Chega numa idade que a gente não tem mais tempo a perder. Temos que aproveitar a vida
da melhor forma, se divertir bastante e estar perto da família é uma delas. Me sinto privilegiada de conviver com filhos, netos e bisnetos”, conta Dalva. E esqueça essa história de que a bisa fica em casa tricotando sentada na cadeira de balanço, esperando as visitas chegarem. Nada disso. Dalva ainda dirige, tem celular e adora botar o pé na estrada. Tanto que acaba de voltar de mais uma viagem que fez com a família para a praia.“Eu tive um filho e ver a família aumentando, as crianças crescendo é muito bom, faz a gente se sentir viva. Na verdade, com a chegada dos bisnetos parece que o amor ficou ainda maior. Acredito que esse relacionamento de gerações tão distantes é muito bom para mim e para eles. Estou sempre por perto para saber como estão, gosto de brincar com eles, dar e receber carinho. E quem não gosta?”, diz Dalva, que acompanhou o crescimento dos três netos e agora participa da vidados sete bisnetos.
Dalva conta que o convívio com as crianças a faz lembrar das brincadeiras que fazia na sua infância, que adulta fez questão de ensinar aos filhos e netos. “Ser bisavó para mim é continuar multiplicando amor que sinto pelo meu filho que foi estendido aos netos e agora continua ainda mais forte pelos bisnetos. Me sinto muito privilegiada de conviver com todos eles. No fundo, aprendemos muito juntos”, conta.
Bisa precoce
Maria Lucia Lombardoso, 73 anos, concorda com Dalva quando o assunto são os bisnetos. “É muito bom ter a presença deles em casa. Alegra a vida, dá colorido e muita beleza”, diz. Ela se enquadra no modelo de anos atrás pelo qual as avós ganhavam netos mais jovens. Recente na viuvez, ela conta que se tornou avó aos 53 anos e acompanhou bem de perto a educação dos netos. “Minha filha fazia faculdade
e teve filho com 20 anos. Eles geralmente ficavam em casa comigo e com o meu marido”, lembra. Maria e a filha Ana Cristina foram mães bem jovens, aos 20 anos.
Mas com os bisnetos a rotina é um pouco diferente. “Eu não tenho a obrigação de educar as crianças, o pique também é diferente. Mas, por outro lado, minha parte é mais divertida. Gosto de brincar, de agradar, de fazer comida que eles gostam.
Cozinhar para eles é sempre um momento de amor, pois consigo juntar a família toda. Tenho três bisnetas e mais duas que estão a caminho na barriga da minha neta. Por enquanto serão cinco menininhas”, conta orgulhosa a bisa.
Mas e os bisos?
Sim, eles também existem e alguns são bem famosos como Mick Jagger, vocalista do The Rolling Stones. Pai de oito, um deles o brasileiro Lucas Jagger, e avô de cinco, o roqueiro de 74 anos já é bisavô. Em 2014, nasceu Ezra Key, sua primeira bisneta,
filha da neta Assisi Jackson. Gilberto Gil, 77 anos, tem uma bisneta, Sol de Maria, que é neta de Preta Gil. A menina é fruto do relacionamento de Francisco Gil com a modelo Laura Fernandez. O ator Lima Duarte, 89 anos, pai de quatro filhos, tem cinco netos e cinco bisnetos.
Pesquisa capta tendência
A escassez de bisavôs num futuro próximo, em razão da maternidade tardia, pode ser captada nos dados mais recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além do aumento citado acima referente
às mulheres entre 35 e 39 anos, de 1998 a 2017 a quantidade de partos de
mães entre os 40 e 44 anos subiu 50%. Segundo a pesquisa de Estatísticas do
Registro Civil 2015, do IBGE, em 2005, 30,9% dos nascimentos se referiam
às mães de 20 a 24 anos. Já em 2015, o percentual nessa faixa etária caiu para
25,1%. Segundo o estudo, os dados evidenciam o aumento da representatividade
de mães entre 30 e 39 anos (de 22,5%, em 2005, chegando a 30,8%, em 2015) e a redução dos registros de filhos de mães mais jovens – no grupo de mães de 15 a 19 anos, o percentual de nascimentos caiu de 20,3%, em 2005, para 17%, em 2015. 

Escrito por:

Kátia Camargo