Publicado 24/01/2020 - 19h27 - Atualizado 24/01/2020 - 19h41

Por Adriana Menezes

Juliana Damante:

Luciano Avanço

Juliana Damante: "A escuta é essencial e se faz necessária"

Que a leitura nos expande a mente e pode nos proporcionar emoções e experiências inimagináveis, já é consenso. Mas para torná-la um hábito espontâneo, inseri-la na rotina da vida moderna e impedir que seja sufocada pelos atrativos tecnológicos (cada vez mais irresistíveis) existem ainda muitas dúvidas sobre a melhor forma. Os clubes ou grupos de leitura renascem na região e despontam como uma prática que faz aumentar o amor aos livros. Ler ou discutir obras literárias em grupo, garantem os adeptos, dá mais prazer e traz mais resultados, além de promover o crescimento pessoal e social. Em espaços públicos ou privados, há diversas opções em Campinas.
Tanto os aficionados pelo hábito quanto aqueles que desejam se iniciar na prática da leitura têm adotado as iniciativas dos grupos, que partem de escritores, gerentes de livrarias, funcionários de editoras, lojistas, diretores de órgãos públicos, jovens profissionais das Letras ou do leitor comum. As motivações são diversas e o lugar do encontro é o que menos importa: shoppings, museus, entidades ou residências. O mais importante é reunir pessoas em torno de um tema, de um autor ou de uma obra, como fez a escritora Helena Andrade, que tem sete livros publicados.
Funcionária pública de Campinas nascida em Mogi Mirim, Helena propôs em 2019, à Livraria Leitura no Shopping Parque Dom Pedro, a criação do grupo Mulheres na Literatura, e teve as portas abertas. Desde agosto começou a reunir no local um público com o mesmo interesse. “Qualquer um pode organizar o seu clube. Como minhas histórias são sobre o universo feminino, da resiliência, da superação e dos relacionamentos, pensei neste foco. Nos encontros, fiz uma cronologia das mulheres na literatura e falei de autoras como Jane Austen, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Mary Shelley e outras”, diz Helena, que já havia criado outro grupo em uma residência, batizado de Espaço Camerata En Provence, onde cerca de 15 mulheres se reúnem mensalmente. Helena já tem uma proposta para organizar um grupo de leitura em São Paulo. “O compartilhamento da obra contribui para o fortalecimento da literatura”, defende a escritora.
Motivação
Na dinâmica dos seus grupos, as obras são escolhidas conjuntamente, todos leem e se encontram para debater. “O compromisso estimula a leitura”, acredita Helena. “Temos muitos estímulos hoje que nos desviam dos livros, desde uma série até as redes sociais. E também temos pouco hábito de leitura no País. Então os grupos nos motivam, promovem discussões muito ricas que alimentam as pessoas. É uma tempestade de ideias.” Leitora desde a infância e gestora pública há 30 anos, Helena se afastou da literatura por conta do trabalho e da rotina familiar.
Em 2011, “com a vida mais calma”, publicou um romance que se passa na Amazônia. “Daí mergulhei no universo literário e fiz praticamente um livro por ano”, recorda Helena que concorreu ao prêmio Jabuti em 2016.
Segundo o supervisor da Livraria Leitura, Raul Henrique Ferreira, existem dois grupos em atividade na loja (Mulheres na Literatura e Encontro com a Leitura) e um terceiro deve ser criado ainda este ano sobre livros de vestibular. A participação é gratuita e não há restrição de idade. “Os grupos são ecléticos, com pessoas de todas as idades”, diz o supervisor. No Encontro com a Leitura, organizado por Raul, cerca de 30 pessoas se reúnem toda última terça-feira de cada mês. “Neste grupo, não precisa ler o livro antes, como é comum em outros grupos.
Cada um traz a sua experiência do que já leu e nós discutimos”, explica Raul, que já tem agendado para o dia 28 de janeiro, às 19h30, um encontro para falar sobre os lançamentos e as novidades de 2020 no mercado de livros. Em seus encontros, já foram abordados temas como romances de época, livros que viram filmes, policiais e suspenses, autoajuda, fantasia, hot books e outros.
Literal
“É uma oportunidade para entrar em contato com vários autores da literatura, conhecer um pouco do estilo de cada um e retomar o hábito da leitura”, descreve a jornalista Fabiana Pacola que em agosto de 2017 criou o grupo Literal. “Em tempos de rotina intensa e tantas conexões simultâneas, reservar um tempinho para uma leitura e reflexão é um benefício para o cérebro, para a criatividade e para o senso crítico”, pontua.
O Literal é um projeto do MIX Estúdio Criativo com Eduardo Barbosa, professor de Literatura que conduz os encontros. Teve início na loja e espaço cultural The Mix Bazar das irmãs Pacola, Fabiana e Marcela, e hoje acontece em lugares diferentes, entre eles na Biblioteca Pública Municipal de Campinas. Nos “encontrinhos”, como nomeia Fabiana, acontecem discussões de textos literários em grupos de oito a 12 pessoas. “Não é um curso, não é uma aula. São encontrinhos únicos, que acontecem mais ou menos a cada dois meses de maneira itinerante em espaços como cafés, ateliê de arte, biblioteca ou até na casa das pessoas.” Já foram 18 edições desde que o projeto começou. “Buscamos parcerias com lugares aconchegantes e intimistas. Sempre acompanhados de um bom café”, descreve. O Literal cobra uma taxa de participação de R$ 50,00. A próxima edição deve acontecer em fevereiro.
O mediador Eduardo Barbosa já levou para o Literal autores como Julio Cortázar, Thomas Mann, Gabriel García Márquez, Fernando Pessoa, Adelia Prado, Jorge Luis Borges, Machado de Assis, Cecília Meireles, Drummond, Ítalo Calvino e outros. O autor mais procurado foi Fernando Pessoa. “Abrimos duas turmas para acomodar todo mundo. E Orígenes Lessa foi um dos encontros mais emocionantes”, lembra Fabiana.
Para todos
“O texto literário é feito para todos”, defende Eduardo Barbosa, que acredita na eficácia dos grupos de leitura para estimular o interesse na literatura. “Uma pessoa motiva a outra. Funciona para todo tipo de público.” Depois de atuar por dez anos na Educação, Eduardo trabalha há quatro anos na mediação de grupos de leitura. Quando professor, já promovia atividades extraclasse, “era o jeito que eu encontrava de apresentar a leitura como algo agradável, sem a obrigação, mas de uma forma mais espontânea, com prazer.” Eduardo acredita que ter a oportunidade de falar o que sentiu em relação ao que leu faz com que o leitor tenha mais satisfação com a leitura. Além do trabalho coletivo que ele faz no Literal, ele tem também o projeto Tertúlia Literária. “Tertúlia significa encontro de pessoas para discutir determinado tema. Faço isso em residências, empresas, instituições, escolas, onde for preciso. Já fiz um aniversário com discussão literária no lugar da música”, conta o mediador. “Quando sentamos para discutir, não é uma análise, mas uma conversa. Essa experiência faz com que as pessoas leiam mais, além disso, desmistifica a literatura, que para muitos é algo inacessível, que ler alguns autores é difícil, ou outros mitos”, diz Eduardo. “O ato de ler é transformador, uma prática que proporciona o autoconhecimento e a reflexão, e torna as pessoas mais empáticas”, defende.
Literatura no MIS
“Em tempos de mídia digital e redes sociais, quando você tem pessoas que se encontram para discutir literatura, é uma enorme satisfação. Como gestor, eu recebo de bom grado”, afirma Alexandre Sônego, gestor do MIS (Museu da Imagem e do Som) de Campinas há cinco anos. O museu é público e as atividades são abertas. Em 2019, o grupo Mulheres que Leem Mulheres realizou uma série de encontros no espaço do museu, além do grupo Cinema e Literatura, que há muitos anos promove debates, sob o comando de Ricardo Pereira. De acordo com Alexandre, o museu está aberto a propostas. “O MIS tem as especificidades dele, mas ele é também polimorfo, questão inclusive que pesquisei na minha tese de doutorado. Ou seja, os museus, se quiserem resistir, precisam ser polimorfos. Ele precisa abrigar outras atividades, porque isso o torna vivo. Considero isso rico”, diz Alexandre Sônego, que já foi professor de Literatura. Para o gestor, o grupo atrai inclusive outros públicos. “Há uma grande potência nestas atividades que trazem protagonismo para o museu.”
Mágico
O Sesc Campinas também abriga encontros literários. A jornalista especializada em jornalismo literário Juliana Damante promoveu durante três meses uma roda literária com batepapo dentro da biblioteca do Sesc. “A proposta era ler e comentar trechos e aspectos curiosos e, principalmente, abrir espaço para o debate livre ouvindo contribuições”, conta Juliana. Foram quatro sábados, no horário das 11h às 13h. O primeiro autor foi proposto pelo próprio Sesc, Dostoiévski, depois Juliana propôs Eliane Brum e Svetlana Aleksiévitch. “Era aberto ao público e chegamos a montar um grupo de 20 pessoas. Construímos um laço muito forte de amizade movida pela paixão à leitura: adolescentes, jovens e idosos”, recorda Juliana, mestra pela Unicamp. Entusiasta da literatura e apaixonada por histórias, principalmente da realidade, Juliana diz que tomou como missão falar ali das duas autoras que trabalham com relatos reais e escrevem histórias pessoais. “A amplitude do debate foi intensa. Muitos ali não conheciam esse tipo de escrita dos relatos de pessoas comuns, heróis das próprias vidas, assim como nós.” Juliana Damante ainda trabalha como intermediadora de rodas literárias, atividade que ela diz ser “um pacotinho de surpresas”. “Eu diria que é mágico!”, completa. “Quando você percebe, as pessoas estão em silêncio, ouvindo umas às outras, colocando suas opiniões diferentes e com respeito. A escuta é um sentido essencial para nós e se faz tão necessária. Sinto-me privilegiada em ser uma coletora de histórias de vida.” 
SERVIÇO
- Mulheres na Literatura (Livraria Leitura) e Camerata En Provence com Helena Andrade: Site/blog www.helenaandrade.com.br – www.mulheresnaliteratura.
com; Instagram @helenaandrade.oficial;Facebook https://www.facebook.com/sandra.regolin.
- Literal com Fabiana Pacola e Eduardo Barbosa: Email mixestudiocriativo@gmail.com; Whatsapp (19) 99111-3632.
- Tertúlia Literária com Eduardo Barbosa: Wjatsapp (19) 98134-3412.
- Encontro com a Leitura com Raul Ferreira (Livraria Leitura): Tel. (19) 99229-4098; Whatsapp (19) 99450-0690.
- Cinema e Literatura com Ricardo Pereira (no MIS Campinas): Tel. (19) 3733-8800.
- Juliana Damante: Email judamante@gmail.com; Tel. (19) 98440-5070.
- Sesc Campinas: Tel. (19) 3737-1500.
- Livraria Pontes: Tel. (19) 3236-0943.
- Livraria Cultura: Tel. (19) 3751-4033.

Escrito por:

Adriana Menezes