Publicado 10/02/2020 - 15h27 - Atualizado 10/02/2020 - 15h40

Por Adriana Menezes

As profissões do futuro demandam desde já um novo profissional e uma nova relação de trabalho

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As profissões do futuro demandam desde já um novo profissional e uma nova relação de trabalho

As mudanças sociais decorrentes das novas tecnologias já são parte do cotidiano de tal forma que as novas gerações as incorporam ao comportamento sem traumas. O impacto do avanço tecnológico no mercado de trabalho, no entanto, não acontece de forma tão natural. As profissões do futuro demandam desde já um novo profissional e uma nova relação de trabalho, que se por um aspecto traz o benefício da flexibilização e da valorização das habilidades humanas, por outro lado precariza as condições de trabalho. As palavras de ordem para absorver as mudanças e garantir um lugar neste cenário são: adaptabilidade e aprendizado permanente. Mas, afinal, como se preparar para o futuro das profissões?
“Para se preparar para as profissões do futuro, além do conhecimento técnico e especializado, será preciso a construção de habilidades exclusivamente humanas, como inteligência emocional, criatividade e pensamento crítico, competências apontadas neste ano pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) no relatório O Futuro dos Empregos, como indispensáveis”, afirma Richard Vasconcelos, CEO da LEO Learning Brasil e mestre em Tecnologias Educacionais pela University of Oxford.
Especializar-se, diz ele, continua sendo importante, mas as habilidades humanas serão obrigatórias como a capacidade de relacionamento interpessoal, empatia, inteligência emocional, agilidade mental e adaptabilidade a novos cenários. “Isso traz um leque de oportunidades oferecidas àqueles que souberem analisar as informações e situações de forma crítica, imaginando diferentes caminhos para resolver os problemas, aos que souberem também inovar e assumir riscos, ser criativo, saber gerir o tempo, ter consciência sobre os seus pontos fortes e fracos e, acima de tudo, conseguir estabelecer e manter relações com facilidade”, descreve Vasconcelos.
Manter-se atualizado também deve ser um hábito incorporado, “na mesma velocidade em que as coisas mudam”. Isso implica em informar-se sobre os acontecimentos, ler, reciclar e fazer treinamentos, em constante formação. A vantagem que existe hoje, destaca, é que o avanço tecnológico também criou inovação nos processos de treinamento. “Hoje em dia, atualizar-se é algo que pode acontecer assistindo a uma websérie, exatamente como fazemos com as séries do Netflix.”
A publicitária Paula Cardoso resolveu, aos 49 anos, investir numa especialização em Economia Criativa “para entender esse momento novo”, diz Paula, que percebia mudança no comportamento das pessoas por conta da economia 4.0. “Eu precisava reaprender, porque nada é fixo, o conhecimento é líquido. Mas a primeira coisa que eu tive de fazer foi aceitar as mudanças, por isso consegui acompanhar”, avalia.
Empatia e contatos
Não há idade para a renovação, diz Vasconcelos. “É preciso saber aprender, desaprender e reaprender.” De acordo com o relatório PNUD, as novas profissões sugerem um trabalho mais humanizado, “valorizando mais a sua rede de contatos e a sua empatia”. Entre as profissões previstas pelos especialistas como as do futuro estão Gerente de Ecorrelações, Coordenador de Identidade Virtual, Tutor de Educação à Distância e Gestor de Qualidade de Vida. Mas como o cenário muda em velocidade acelerada, muita coisa nova ainda pode surgir.
De acordo com Eliane El Badouy Cecchettini, Consultora de Marketing e Comunicação e professora da Esamc no curso de pós-graduação em Economia Criativa, é preciso acompanhar as tendências que vão remodelar a sociedade, que consequentemente mudam o trabalho. “Quando falamos de profissões do futuro, deve-se considerar, neste cenário, as empresas e o trabalhador do futuro”, pontua Eliane.
As mudanças econômicas que estão redistribuindo o poder, os novos modelos de negócios, a escassez de recursos que afetam todos os setores e as inovações disruptivas formam um novo cenário no mercado de trabalho que hoje, mais do que no passado, leva muito em conta a habilidade individual, a vivência do profissional e a sua rede de relacionamentos. “A curiosidade combinada à habilidade e ao raciocínio crítico e analítico serão as molas propulsoras”, diz Eliane.
Curiosidade
Mas este mesmo mercado cada vez mais impõe o conceito da GIG Economy, uma economia baseada no trabalho temporário, ou seja, sem vínculo empregatício. “Isso é uma tendência. O vínculo não é relevante daqui pra frente e você não se restringe a uma só empresa nem a uma área apenas”, explica a consultora, que acredita ser importante que aconteça esta flexibilização.
Para se preparar para essa realidade, Eliane acredita que o profissional tem que ter em mente que a gestão da sua carreira fica por sua conta, e não mais por conta da empresa, como já foi no passado. “É preciso ter consciência que o conceito de carreira mudou. O profissional constrói o seu conhecimento, ele é mais independente e deve buscar oportunidades. Ou seja, o profissional do futuro precisa ter capacidade de adaptação, ser curioso, se automatizar e ter talento.”
Para o professor Ricardo Antunes, sociólogo do trabalho e professor da Unicamp, que estuda há 40 anos a Metamorfose do Mundo do Trabalho – nome de grupo de estudos criado por ele no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp – é preciso estar atento para a consequente precarização do trabalho que acontece à medida que ocorre a financeirização da economia e a alta impulsão tecnológica, fenômeno iniciado na década de 1970 no Brasil. “O mundo digital e as grandes corporações impulsionam esta flexibilização das relações de trabalho que supõe sempre a precarização e o desmonte do trabalho e os seus direitos”, explica Antunes.
Dotado de sentido
A automatização, do ponto de vista empresarial, significa redução de custos e de força de trabalho. A expansão das plataformas digitais levam ao que ele chama de escravidão digital, criando a figura do infoproletário, que tem jornada intensa de trabalho, de tal forma que os trabalhadores e trabalhadoras perderam a muralha que existia entre o tempo de trabalho e o tempo de não trabalho. “Hoje não temos barreira, levamos o celular pra casa e continuamos trabalhando”.
Segundo o professor, autor do livro Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil (Editora Boitempo Editorial), estas relações crescem exponencialmente. A precarização acontece no topo e na base da estrutura de trabalho. “Precisamos estar atentos a isso, porque é um cenário grotesco, uma sociedade adoecida. Queremos trabalhadores enriquecendo grandes corporações ou uma sociedade onde o trabalho seja dotado de sentido, dando sentido à vida?”, questiona Antunes.
HABILIDADES DESUMANAS INDISPENSÁVEIS NO TRABALHO NOS PRÓXIMOS 30 ANOS
- Inteligência emocional
- Criatividade
- Pensamento crítico
- Capacidade de relacionamento interpessoal
- Empatia
- Agilidade mental
- Adaptabilidade a novos cenários
- Capacidade de inovar e assumir riscos
- Gerência do tempo
- Consciência sobre os seus pontos fortes e fracos
Fonte: Relatório “O Futuro dos Empregos” do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento); Richard Vasconcelos (CEO da LEO Learning Brasil); e Eliane El Badouy Cecchettini, Consultora de Marketing e Comunicação e professora da Esamc no curso de pós-graduação em Economia Criativa.
NOVAS FUNÇÕES PREVISTAS
- Gerente de Ecorrelações
- Coordenador de Identidade Virtual
- Tutor de Educação à Distância
- Gestor de Qualidade de Vida
Fonte: Relatório “O Futuro dos Empregos” do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), Richard Vasconcelos (CEO da LEO Learning Brasil).e Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais).
ÁREAS PROFISSIONAIS COM MAIOR EMPREGABILIDADE
- Construção civil
- Agronegócio
- Tecnologia
- Finanças
- Jurídica
- Vendas
Fonte: Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) que cobre 97% dos trabalhadores formais do Brasil. Dados de 1986 a 2017.
PROFISSÕES QUE MAIS CRESCEM NO BRASIL
(Formação correspondente)
1 - Engenharia (Civil, Telecomunicações, Energia, Petróleo)
2 – Tecnologia da Informação (Engenharia da Computação, Ciência da Computação, Gestão de TI, Sistemas de Informação)
3 – Finanças e Contabilidade (Ciências Contábeis, Administração de Empresas, Gestão Financeira)
4 – Direito
5 – Marketing e Vendas (Marketing, Tecnologia de Marketing)
6 – Agronegócio (Agronomia, Biotecnologia, Engenharia de Agrimensura, Engenharia Agrícola, Tecnólogo em Agronegócios)
7 – Educação (Pedagogia)
8 – Meio Ambiente (Engenharia Florestal, Gestão Ambiental, Engenharia Ambiental).
Fonte: Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) que cobre 97% dos trabalhadores formais do Brasil. Dados de 1986 a 2017.

Escrito por:

Adriana Menezes