Publicado 09/05/2020 - 09h30 - Atualizado 08/05/2020 - 18h36

Por Daniela Nucci e Kátia Camargo

Mães médicas vão passar o próximo domingo (10) longe dos seus filhos em meio a pandemia do novo coronavírus

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Mães médicas vão passar o próximo domingo (10) longe dos seus filhos em meio a pandemia do novo coronavírus

O Dia das Mães a ser festejado amanhã deverá ser bem diferente para a grande maioria das pessoas que, em muitos casos, estarão por força das circunstâncias longe dos filhos ou da mãe. O distanciamento deve ocorrer com profissionais de vários setores, mas os da saúde têm uma rotina mais arriscada e tiveram a vida mudada radicalmente pela pandemia do novo coronavírus não só no trabalho, mas também na vida particular.
Muitos médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros tantos profissionais que atuam em unidades de saúde e hospitais estão afastados de suas famílias há pelo menos 40 dias. Outros terão que ficar reclusos somente com os membros da família que habitam o mesmo lar, mas mantendo o distanciamento social e há ainda quem fez quarentena após um plantão para finalmente conseguir chegar mais perto da família amanhã.
O fato é que para todos, sem exceção, têm sido tempos bem difíceis tanto para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus quanto para a ausência e saudade de seus entes queridos. Mas, mesmo com tantos desafios, a questão humanitária, o amor pela profissão e pelos seres humanos, a empatia em cada tomada de decisão os mantêm firmes e com a esperança de dias melhores. A revista Metrópole conversou com alguns desses 'heróis' para saber como estão lidando com tantos desafios e aproveitou para saber como será este Dia das Mães para eles.
Isolada há 40 dias
“Mamãe vou ser médica e inventar a cura do coronavírus para poder ficar logo pertinho de você”, disse Manuela, de 3 anos, durante uma das chamada de vídeo para o celular da mãe Gisele Figueiredo, 37 anos, que é clínica médica do Vera Cruz Hospital e atua na linha de frente do combate ao novo coronavírus. Ela que também é mãe do Pedro, de 4 anos, está longe dos filhos e do marido, advogado, há pelo menos 40 dias. “Tomamos a decisão das crianças irem com meu marido para a casa da minha sogra para protegê-los. Nunca imaginámos que iríamos ficar tanto tempo sem nos ver fisicamente. Falo com eles todos os dias, explico por que neste momento preciso ficar distante deles, tento mostrar que mesmo longe fisicamente estou perto, mas não é fácil nem para mim e nem para eles. Nunca imaginámos que ficaríamos tanto tempo sem nos ver”, diz.
Ela lembra que a decisão de levar as crianças para a casa da sogra foi tomada rapidamente, porque a babá deles também corria mais riscos e poderia estar mais exposta. “A gente volta para casa depois de um dia de trabalho e nunca sabe se foi contaminada ou não. De um dia para o outro a nossa casa que tinha crianças correndo, brincando, cantando, pulando ficou tão silenciosa”, relata. Amanhã, Gisele estará trabalhando no plantão do hospital, sem a presença dos seus amores. “Estarei longe dos meus filhos, da minha mãe, do meu marido, sogra. Será a primeira vez que não estaremos juntos. Será um dia difícil, muito diferente. Mas quando me perguntam se eu gostaria de ter outra profissão eu vejo que não consigo me ver fazendo outra coisa que não seja a medicina”, comenta.
Separação doída
A médica Raisa Gusso Ulaf, de 30 anos, teve a rotina mudada da noite para o dia. Prestes a concluir a residência em imunologia e alergia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela enxerga o Dia das Mães de amanhã como um grande desafio de puro amor ao decidir se distanciar da filha Clara, de 3 anos, para protegê-la do novo coronavírus.
“A minha rotina hoje se resume no trabalho de contingência do Covid-19. Na linha de frente da emergência da Unicamp, às vezes faço plantão na tenda que atende a pacientes com o coronavírus, e também fico na enfermaria do hospital. Tenho uma filha e decidi me afastar dela porque estava expondo a Clara sempre quando voltava para casa todos os dias. Isso estava me perturbando muito”, diz Raisa.
Deixar a pequena trancada no apartamento também pesou na hora da escolha. “Pensei nela o dia inteiro no apartamento, e isso me fez também mandá-la para a casa dos avós, que fica em Santa Catarina. Eles moram em uma chácara e será um tempo mais vivido para uma criança de 3 anos do que ficar num apartamento”, explica a médica, que apesar das novas alternativas, a que envolve o coração é a mais difícil de aceitar.
“É mais sofrível temer do que beijar um filho? Ter que dizer que não pode brincar, sair na rua, explicar por que o parquinho está com grade em volta. Foram todos os desafios que tive que encarar além dos que encaro como médica”, desabafa Raisa. Além da filha, a profissional da saúde não verá outra pessoa marcante nesta data: a própria mãe.
“É um dia difícil ficar longe da minha mãe também. Nos damos muito bem. Vou passar o Dia das Mães longe delas, mas com a certeza que estou cumprindo minha missão como médica e em nenhum momento deixando de acreditar que isso vai passar. O amor não é egoísta querendo as pessoas que amamos ao nosso lado a qualquer custo. Com muita fé e esperança isso vai passar”, diz a curitibana.
Atualmente, Raisa mora com o marido, que também é médico, em sua residência, mas já sabe o que fazer caso algo aconteça. “Fico mais na linha de frente do que meu marido. Se eu ficar doente ou com sintomas tenho que me isolar e ficarei em outro lugar”, adianta Raisa, que se prende em duas palavras para se fortificar. “Esperança e fé que tudo vai melhorar.
Cada pessoa tem sua missão e só assume porque tem condição de enfrentá-la e lidar com ela, como eu”, finaliza Raisa. Na sua conta do Instagram, a médica fez uma linda homenagem à filha. “Sofro e morro todo dia, vivendo essa agonia que me tira a paz... Um dia te trago comigo e de saudades tuas eu não choro mais... Quem tem amor assim distante não tem o bastante pra sobreviver, pra todo o mal da minha vida, pra curar qualquer ferida o meu remédio é você”.
Isolamento reverso
Após passar 40 dias longe da filha Sofia e do marido Sival, a técnica de enfermagem Lourdes Carolina dos Santos que trabalha no Vera Cruz Hospital voltou para casa, na última semana. A saudade da família e a possiblidade de fazer o distanciamento social mesmo dentro de casa motivaram o retorno. Ela está fazendo o isolamento reverso e sem beijos e abraços na família, por enquanto. Mas a volta para casa tem ajudado a acalentar seu coração.
Ela e outras duas profissionais da saúde ficaram por 40 dias na casa de um colega de trabalho para que elas pudessem proteger suas famílias. “Minha preocupação e das outras colegas era de não expor nossa família, já que meu marido tem asma, tenho uma filha adolescente e meu pai de 84 anos mora ao lado da nossa casa. Temos que pensar que o vírus não diz respeito somente a nós, mas sobre o outro. A saudade apertou muito e resolvemos voltar para nossas casas. Estamos seguimos todos os protocolos de segurança para evitar expô-los. E também estou fazendo o isolamento reverso, ficando num quarto separado em casa, com banheiro separado e procuro ficar de máscara dentro de casa. Está bem difícil, mas menos difícil que fora de casa”, conta.
Amanhã, Lourdes saíra do plantão de manhã e vai para casa. “Mesmo com o distanciamento será um dia mais feliz, por saber que estarei mais próxima da minha filha. Não dá para passar por essa experiência e sair indiferente. Vejo que a empatia, a preocupação com a dor do outro e amor tem ajudado a superar os desafios. Nessa pandemia fica claro que nem tudo é sobre mim, mas é sobre o outro, sobre o próximo e como vamos nos comportar em relação a isso”, diz.
Distante da mãe
A médica intensivista pediátrica Adriana Soave Teixeira, 38 anos, do Vera Cruz Hospital, é casada com o cirurgião-cardíaco Eduardo Watanuki. O dois são pais do Felipe, de 3 anos, e do André, de 9 meses. Na família do casal de médicos não é possível ficar longe das crianças, mas eles intensificaram ainda mais os cuidados com si próprios e com os filhos.
“Não teria como ficar longe deles, eu ainda amamento meu caçula, mas claro tomamos todos os cuidados possíveis. Mas estamos isolados da nossa família, sem ver minha mãe, minha avó e a família do meu marido”, diz.
Para ela, este será um Dia das Mães bem diferente pois vai passar só com os filhos e o marido. “Minha mãe sempre foi muito próxima das crianças, acompanhava o dia a dia do desenvolvimento das crianças. Mas, neste momento estamos distantes por amor e proteção. Por mais que a gente converse por telefone, por chamada de vídeo, não é a mesma coisa, mas esse distanciamento é necessário”, diz.
Encontro mais que esperado
O estudante do sexto ano de medicina da Unicamp Lucas Yunes Cominatto Barbosa, 24 anos, está na fase de estágios práticos com a supervisão dos professores. Nessa etapa eles já começam a dar plantão no pronto-socorro, nos consultórios do hospital.
“Os alunos não estão atendendo pacientes com a Covid-19 , eles ficam na área de outras urgências e emergências”, conta. Mas, mesmo assim, após os plantões Lucas e a namorada Luiza Maretti Scomparin fizeram questão de ficar longe da família por pelo menos 14 dias. Neste período nada de voltar para casa.
“Passamos esse período juntos, mas distante do resto da família. Mesmo não estando no atendimento dos casos da Covid-19 estamos no ambiente hospitalar, por isso evitamos expor nossas famílias. A experiência da medicina, principalmente neste momento da pandemia tem mostrando quanto amor pela humanidade precisamos ter, quanto é importante escutar o outro, ter empatia” considera Lucas. Como já se passaram 14 dias após o plantão, Luiza já foi para casa dos pais e Lucas vai encontrar a mãe, Simone Cominatto, 46 anos. “Vou passar o Dia das Mães com ela e ficar mais alguns dias lá”, comemora.

Escrito por:

Daniela Nucci e Kátia Camargo