Publicado 17/05/2020 - 10h22 - Atualizado // - h

Por Adriana Menezes

Os produtos orgânicos estão ganhando ainda mais espaço durante a quarentena

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Os produtos orgânicos estão ganhando ainda mais espaço durante a quarentena

A demanda por produtos orgânicos que saem direto do produtor para o consumidor e são entregues em casa aumentou no período da pandemia, garantem os personagens desta cadeia. O trabalho dos produtores e distribuidores da agricultura de base agroecológica se multiplicou em até dez vezes, em alguns casos com jornada diária de até 14 horas, para conseguir atender à demanda pelos produtos. Sem sair de casa, o cliente se alimenta sem risco e sem veneno, respeitando o isolamento e mantendo os hábitos alimentares. Com a entrega domiciliar mais regular, as distâncias foram encurtadas.

A cena já faz parte do novo cotidiano urbano: os hortifrutigranjeiros chegam à porta da casa (ou apartamento) pelas mãos do entregador. A região é abastecida principalmente pelo trabalho de 107 produtores certificados pela Associação de Agricultura Natural de Campinas e Região (ANC), criada há 29 anos e que hoje é responsável pela organização das principais feiras de produtos orgânicos de Campinas, além de emitir a certificação dos produtores, distribuídos em 40 cidades diferentes. Enquanto as feiras estão suspensas (no Ceasa, aos sábados; no CIS Guanabara, às sextas) ou operando de forma controlada (no Centro de Convivência Cultural, às sextas; no Parque Ecológico, aos domingos; no Bosque dos Jequitibás, às quartas), a entrega não para durante a semana.
Fábio Santos abriu em 2019 uma quitanda de produtos orgânicos, e agora, durante a pandemia, tem trabalhado sem descanso para conseguir fazer as entregas aos clientes, que aumentaram numericamente. Ele compra a produção e faz as entregas. “Para evitar contato, fazem o depósito na conta, e ninguém dá calote, porque há uma relação de confiança”, afirma Fábio, que é secretário-executivo da ANC.

Segundo ele, produtores que forneciam para as merendas escolares estão hoje com excedente, “se esforçando para não jogar no lixo”. O custo dos serviços de ‘delivery’ por aplicativos, diz Fábio, não compensa para os produtores (“é também muita exploração do entregador, sou contra esta ‘escravidão’”), portanto a entrega sem custo tem sido fundamental para fazer com que a produção chegue ao consumidor. “É uma questão de responsabilidade social. Não dá para só querer ganhar. Mais pra frente, esta relação de fidelização vai contribuir para a cadeia”, acredita Fábio, que trabalha hoje de 12 a 14 horas por dia. “Não cobro a entrega. Meu retorno tem sido no volume que aumentou, é assim que estou me mantendo.”

Consciência
Assim como Fábio, a produtora Adriana de Oliveira Cabral está saindo do modelo convencional de comercialização e passou a fazer as entregas aos clientes que antes eram atendidos nas feiras. O plantio que sua família faz em um hectare de terra no Assentamento Milton Santos, onde vivem 69 famílias, em Americana, Adriana vende principalmente em Campinas. “Antes eu fazia apenas feiras, todos os dias, mas agora durante a pandemia eu entrego cerca de 30 cestas por dia, o que antes não chegava a 15 pedidos por semana”, contabiliza. O número de cestas diárias, portanto, se multiplicou por dez, saltando de três para 30 por dia. “Eu acho que quem consome orgânicos é mais consciente, são pessoas que não estão saindo de casa”, acredita Adriana, que atende principalmente os frequentadores de feiras orgânicas que não abrem mão dos hortifrutigranjeiros frescos e sem agrotóxicos em sua casa, ao mesmo tempo em que respeitam o isolamento.

O Sítio Santa Lourdes, da família de Adriana, é certificado há cinco anos. Para atender ao gosto dos clientes e aumentar a variedade de suas cestas, ela também compra de outros produtores e na Ceagesp de São Paulo. “O cliente quer tudo na cesta: hortaliças, frutas e mais variedades.” Adriana aumentou em cerca de 50% o aproveitamento de sua produção desde o início do isolamento e o consequente aumento das entregas. Ela trabalha das 8h às 18h fazendo entrega e à noite faz Faculdade de Agronomia na Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo), agora com aulas on-line.

Adriana conta que trabalhava antes no comércio, mas há seis anos, quando foi morar com a mãe no sítio, percebeu que era disso que gostava. Apesar do aumento nas vendas, ela diz que deseja que esta fase acabe: “Está fazendo mal a muita gente. E muitos estão sem dinheiro para comer. Nosso cliente de orgânico vai continuar conosco quando isso acabar.” Na hora da entrega, muitos ficam atrás do vidro ou pedem que deixem na porta. “Está todo mundo com medo e tem muita gente de idade. Eu monto a cesta com os pedidos deles na noite anterior, e no dia seguinte eu levo. Não cobro a taxa de entrega. Eu acho que é um trabalho importante neste momento.”

Retirada segura
Há quase quatro décadas a horta orgânica da família Vidotti, localizada entre os bairros Nova Campinas e Jardim Planalto, fornece diversos tipos de folhas – como alface, almeirão, chicória, espinafre, couve, rúcula, entre outros – produzidas em uma área de 5 mil metros. Aos 78 anos, Pedro Dorival Vidotti – Seu Pedro, como é conhecido – cumpre o isolamento, mas a produção e a venda não pararam. O sócio e um funcionário mantêm o atendimento. “A produção é isolada e não entra ninguém lá. O atendimento agora é com distância ainda maior; alguns nem descem do carro. São clientes fiéis”, diz Seu Pedro, que trabalha há cerca de 25 anos na horta criada por seu pai.

Segundo ele, houve pouca mudança no volume de vendas. A média diária de 50 clientes por dia continua praticamente a mesma, além da própria rotina de produção. “Nós colhemos pela manhã, colocamos tudo na banca após uma pré-lavagem, e não há contato com a verdura depois disso.” Adepto da alimentação orgânica, Seu Pedro atribui a isso a sua longevidade e saúde. “Pode ser que as pessoas despertem mais para isso agora. Mas tem que ficar em casa”, defende.

Majoritariamente, os produtores de orgânicos são agricultores familiares, como Adriana. A fatia desse nicho de mercado já era crescente e apresentava potencial de expansão, mas ainda se mantinha restrita a poucos locais de venda e, muito lentamente, ampliava a sua diversidade e enfrentava barreiras logísticas, como analisou Mônica Helena Firens Hergert em sua conclusão do curso da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp. Hoje, apesar das restrições para realização de feiras, espaços também de construção social, os orgânicos disparam nas vendas e podem ganhar uma nova vida após a pandemia.
SERVIÇO
CESTAS DE PRODUTOS ORGÂNICOS

- Fábio Santos – WhatsApp (19) 99238-9933.

- Adriana de Oliveira Cabral (Sítio Santa Lourdes) – WhatsApp (19) 99240-7656.

- Pedro Dorival Vidotti – Telefone (19) 99742-3944.

- Grupo de Consumo Responsável (com João Luis Abreu) – WhatsApp (11) 97013-9409.

FEIRAS ORGÂNICAS DE CAMPINAS

- Quarta-feira das 7hs às 11hs – ACONTECE NO ESTACIONAMENTO

Bosque dos Jequitibás

Rua Coronel Quirino, 02. Centro – Campinas

https://www.facebook.com/FeiraOrganicaJequitibaCampinas

- Sexta Feira das 7hs às 11hs – ACONTECE EM ÁREA ABERTA

Centro de Convivência Cultural Carlos Gomes

Praça Imprensa Fluminense. Cambuí – Campinas

- Sexta das 15hs às 19hs - SUSPENSA

CIS Guanabara – Sexta na estação

Rua Mário Siqueira – Botafogo, Campinas – SP

http://www.cisguanabara.unicamp.br/redeagroecologia/sexta.htm

- Sábado das 8h às 13h - SUSPENSA

Ceasa Campinas

- Domingo das 7hs às 11hs – ACONTECE AGORA NA ÁREA EXTERNA DO PARQUE

Parque Ecológico Emílio José Salim

Rodovia Heitor Penteado, altura do km 3,2. Vila Brandina – Campinas

https://www.facebook.com/FeiraOrganicaCampinas

Proposta de uma nova relação de consumo

Com a proposta de uma nova relação de consumo, onde o consumidor deve ser responsável e participativo, além de consciente sobre a cadeia da qual faz parte o produto, o Grupo de Consumo Responsável foi criado no final de 2018, em Barão Geraldo, para vender a produção agroecológica de um coletivo de mulheres. As cestas de frutas, grãos, hortaliças e temperos (entre eles, muitos não convencionais, como alho japonês e feijão andu, ou guandu) são produzidas no Acampamento Elizabeth Teixeira, em Limeira. Para dar continuidade ao trabalho com segurança neste momento de pandemia, as cestas são retiradas no local pelo cliente, já montadas.

Como o próprio nome do grupo já diz, o objetivo é tornar o consumidor mais consciente e responsável. “A ideia da responsabilidade não está só em articular, retirar a cesta ou pagar antes como forma de compromisso com a encomenda, mas está também numa questão importante que é pensar a quem estamos fortalecendo ao comprar, e de quem estamos consumindo”, explica João Luis Abreu, estudante de Ciências Econômicas da Unicamp e um dos criadores do grupo, junto com Letícia Alaniz Garcia, estudante de Biologia, também da Unicamp. A iniciativa nasceu de um projeto da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP/Unicamp), quando ambos participavam do programa de extensão da universidade. Após o término do projeto, eles decidiram continuar a atividade.

O coletivo de agricultoras é formado por sete mulheres, todas do acampamento em Limeira, que existe há 13 anos, onde vivem cerca de cem famílias. A produção é feita sem o uso de veneno ou produtos químicos. “Além do respeito à natureza, há o respeito à vida e à forma de trabalho sem exploração”, afirma João.

Com as restrições de contato para conter a disseminação do coronavírus, as cestas passaram a ser montadas e o consumidor vai ao local somente para retirar. Antes o cliente fazia suas escolhas no local, com a presença das próprias agricultoras, que eventualmente também recebiam visitas em suas terras. “O objetivo é mudar a relação do consumidor”, diz o organizador, que cumpre isolamento em São Paulo, mas continua cuidando do grupo pelo aplicativo WhatsApp (número 11-97013-9409), onde é possível fazer o pedido, enviar o comprovante de pagamento fixo mensal que dá direito a duas cestas, para depois fazer a retirada no local determinado.

Escrito por:

Adriana Menezes