Publicado 21/06/2020 - 10h17 - Atualizado 21/06/2020 - 10h18

Por Adriana Menezes

Ilcéi Miriam é sambista e historiadora

Arquivo pessoal

Ilcéi Miriam é sambista e historiadora

“Não vejo a hora que isso acabe” é o apelo de bilhões de pessoas no mundo inteiro. A pandemia de Covid-19 nos pegou de assalto e mobiliza hoje praticamente todas as nações na busca de uma cura, uma saída, uma maneira de salvar vidas e diminuir as perdas. Enquanto a comunidade científica se empenha na criação de uma vacina e a população se esforça na preservação do meio ambiente e da sobrevivência nos espaços urbanos, novos pequenos rituais se inserem em nosso cotidiano, como deixar os calçados na porta, lavar as mãos com mais frequência, usar máscaras de proteção, desinfetar as embalagens e outros que vão surgindo e muito provavelmente vão permanecer. Quando a pandemia acabar, o que fica, afinal?
Na história da humanidade, normalmente os hábitos são assimilados gradualmente. “Dessa vez, estamos passando por um processo de mudança de hábitos de forma muito brusca”, diz o antropólogo e jornalista Cauê Fernandes Nunes, professor da PUC-Campinas. “Essa mudança de hábito gera estresse, com grande possibilidade de as pessoas reagirem mal, com ansiedade ou depressão”, acrescenta Cauê.
Há cerca de 30 anos, ele lembra, não era proibido fumar em locais fechados. Com a criação de leis de proibição, os hábitos tiveram que mudar. Houve muita polêmica, num primeiro momento, em torno da questão da liberdade. Assim como não-fumantes reivindicavam o direito de não aspirar a fumaça, os tabagistas consideravam que a lei tolhia a liberdade de fumar onde quisessem. “Hoje, esse hábito está naturalizado. É difícil você ver um fumante reclamar sobre isso. Foi um hábito criado pela força da lei, assim como o cinto de segurança”, lembra Cauê.
“A diferença com os novos hábitos trazidos pelo coronavírus é que não aconteceu um debate anterior, como naqueles casos. Por mais que todos soubessem que deviam lavar as mãos quando chegassem em casa, ou em alguns lugares deixassem o sapato pra fora, não era uma necessidade emergente nem uma regra generalizada. Isso torna a situação que vivemos agora atípica e diferente”, conclui.
Rituais simbólicos
Para o professor, diante da perspectiva de que a Covid-19 é uma mutação do coronavírus e que não sabemos se haverá outras mutações, a sociedade vai ter de rever diversos costumes, como as aglomerações em shows e estádios de futebol lotados, por exemplo. “Não acho que vão acabar os shows e os jogos, mas certamente haverá novas regras, onde haja um distanciamento mínimo entre as pessoas.”
Os novos hábitos que estamos adquirindo abruptamente são considerados rituais simbólicos, sob a perspectiva da antropologia, no sentido de que eles organizam a vida. “Você para pra tomar um café no meio do dia, isso é um pequeno ritual simbólico. Você faz uma pausa que te traz uma saúde mental pra você continuar o dia e ficar bem”, explica o professor. Com o isolamento, o ritual do cafezinho no ambiente de trabalho – “pra você jogar conversa fora por cinco minutos, não falar de trabalho, e falar de qualquer outra coisa” - está sendo modificado. A pausa agora é em casa, sem os colegas para conversar, “mas é um ritual”. Os rituais que existem, portanto, vão se modificando, assim como outros também são incorporados. Cauê arrisca um palpite: “Eu acho que lavar as mãos constantemente e deixar os sapatos na entrada de casa tendem a ser incorporados.”
Porque é necessário
A sambista e historiadora campineira Ilcéi Miriam cumpre à risca o isolamento e já incorporou os novos hábitos à sua rotina. “Dá trabalho e leva tempo, mas é necessário”, defende Ilcéi, que procura não descuidar de nenhum item de higienização. “Já deixo na garagem um chinelo que uso dentro de casa. O sapato da rua fica fora, junto com o balde com cândida, o desinfetante, o álcool e tudo que eu uso pra limpar as compras”, descreve.
As sacolas que chegam com os legumes entregues em casa também não entram. “Deixo de molho no balde com cândida, de um dia pro outro, depois esguicho com água e seco”, diz Ilcéi, que faz seu ritual antes de entrar em casa, ainda vestida. “Mas quando vou entrar, tiro a roupa e já coloco na máquina.” Com o frio e o uso de casacos, o ritual mudou um pouquinho, ela conta. “Não dá pra ficar lavando casaco toda hora, então coloco no sol e deixo três dias sem uso.”
Como profissional da música, Ilcéi não tinha uma rotina diária de horários fixos. Saía para gravar, ensaiar ou fazer shows de acordo com a demanda de trabalho. Agora, além de não fazer mais apresentações e dedicar mais tempo às lives ou vídeos que faz sem sair de casa, ela se organizou para ir à rua apenas uma vez por semana, quando vai ao supermercado ou resolve qualquer outra questão obrigatoriamente presencial. “Isso é necessário no momento, depois alguns hábitos vão ficar. Eu só lamento que agora, pelo fato de só uns se sacrificarem em casa, a quarentena esteja se estendendo”, critica Ilcéi. Para a cantora, lavar as mãos o tempo todo às vezes cansa, mas ela acredita que este será um hábito que vai ficar.
Fácil de adotar
A bancária aposentada Carmen Dilza Rossetti também segue as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), junto com a filha publicitária Beatriz Rossetti Migliari. Quando saem de casa usam máscaras e lavam as mãos com mais frequência. Ambas também tiram os sapatos quando chegam em casa. “Vamos direto para a área de serviço, tiramos a roupa e vamos para o banho. No começo colocávamos a roupa na máquina, mas agora nós deixamos penduradas por dois a três dias, e depois usamos a mesma roupa.”
Deixar os sapatos na entrada da casa é um hábito que Carmen acredita que vai permanecer. “Como todo mundo está passando por isso, não vai ser difícil quando um amigo chegar em casa e você pedir para tirar o sapato. É diferente de pedir isso pra quem nunca teve essa experiência, poderia ser visto como grosseria. Mas como todos estão vivendo isso, fica mais fácil. Acho que devemos adotar”, afirma Carmen, que colocou um tapetinho pequeno na entrada de casa.
Ela lembra que este é um hábito comum em vários países, como Canadá e Itália, onde ela vivenciou a experiência. “Acho muito saudável”, defende. Em 2012, quando Beatriz fez intercâmbio no Canadá durante seis meses, Carmen ficou um mês com ela em Vancouver (British Columbia). “Você tira o sapato quando visita alguém. Não tem de ter vergonha de pedir pra quem chega à sua casa”, defende. Também quando esteve por quatro meses na Itália, em 2019, na região de Vêneto (próximo a Veneza), ela observou o mesmo hábito de deixar o sapato fora de casa.
“A pandemia não vai acabar mês que vem nem no outro. Vamos ter de viver com isso. Então, chegar na casa de alguém, devia ser prática: tirar o sapato e lavar as mãos, além de levar álcool gel na bolsa, que é muito fácil de adotar”, defende a ex-bancária.
Hábitos são incorporados gradualmente
Há hábitos que cultivamos e não sabemos ao certo a origem. “Ninguém nasce com nenhum hábito. Nós vamos adquirindo aqueles que a sociedade em que vivemos possui. Podemos questionar e mudar hábitos, por isso eles vão se transformando”, afirma o antropólogo e jornalista Cauê Fernandes Nunes, professor da PUC-Campinas. Os hábitos de higiene, por exemplo, muitas vezes são herdados sem sabermos como começaram. “A própria concepção de higiene vai mudando ao longo do tempo”, lembra o professor.
O costume brasileiro de tomar banho todos os dias é uma herança dos povos indígenas originais do Brasil. Quando os integrantes da Corte portuguesa aportaram no Rio de Janeiro, em 1808, não havia esse costume. “A limpeza corporal não era tão usual na Europa, até por conta dos tabus culturais e das roupas que escondiam o corpo. Usavam luvas e roupas quentes até no calor do Rio de Janeiro. Com o passar do tempo foi mudando, mas demorou. E foi se incorporando a ideia indígena de cuidados com o corpo, como o banho”, diz Cauê.
Até os hábitos incorporados em função nas novas tecnologias se inserem gradativamente na sociedade. Por isso, os encontros virtuais, que já existiam, não são tão impactantes quanto os rituais de higiene. “Era comum as pessoas se comunicaram em redes sociais, por mecanismos à distância, porque a tecnologia já permitia. É claro que agora a tendência é que se intensifique com as restrições aos encontros, cada vez com mais aulas, shows em lives e reuniões de amigos cada um em sua casa. Mas esse é o lado bom da tecnologia, que permite que o isolamento não seja completo, as pessoas se vejam pela tela do computador ou do celular”, comemora Cauê.
Curiosidade
O hábito de limpar ou tirar os sapatos ao entrar em casa pode reduzir em até 85% a quantidade de toxinas, vírus e bactérias que entram em um ambiente limpo e fechado. De acordo com pesquisa realizada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (encarregada de proteger a saúde humana e o meio ambiente, criada em 1970), 96% dos sapatos carregam a sujeira da rua, isso inclui desde bactérias como a Escherichia Coli (presente em fezes) até resíduos de produtos químicos como chumbo e mercúrio.
Em outros países
A higiene não é a única razão para que em países orientais e árabes seja preservado o ritual de tirar os sapatos ao entrar na própria casa ou na casa de outra pessoa. No Japão, acredita-se que más energias das ruas podem quebrar a harmonia do lar. Tirar os sapatos, além de ser um sinal de respeito e um ato de higiene, é também o reconhecimento de que a casa é um lugar sagrado. Na cultura árabe existe este mesmo conceito de que o ambiente doméstico e familiar deve ser tratado de forma diferente.
A cultura oriental faz uma clara distinção entre o espaço privado e o espaço público. Os problemas externos devem ficar fora de casa. O conceito secular “kekkai” faz a divisão entre estes dois mundos. Além disso, o Japão, que é uma ilha, tem muita umidade.
Em muitos países onde também existe este hábito, via de regra os próprios moradores fazem a limpeza da casa. Tirar os sapatos, portanto, facilita bastante a limpeza, que é uma das principais motivações para o ritual no Canadá e em alguns países europeus, como a Itália

Escrito por:

Adriana Menezes