Publicado 26/07/2020 - 10h06 - Atualizado // - h

Por Kátia Camargo

Piorou o estado emocional dos jovens durante a quarentena

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Piorou o estado emocional dos jovens durante a quarentena

Uma recente pesquisa realizada pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), que contou com 33.688 entrevistados, entre 15 a 29 anos, constatou que o estado emocional de 70% dos jovens brasileiros piorou durante a pandemia. Dentre os relatos estão sentimentos de ansiedade, tédio e impaciência. Outras questões afetadas pelo distanciamento social relatadas foram a prática de atividades de lazer e cultura, condicionamento físico e qualidade do sono. Mas, muitos jovens têm procurado alternativas para driblar a saudade, procurando fazer cursos novos e tentando buscar alternativas de estudo.
Nos consultórios, especialistas contam que têm recebido queixas de tristeza, depressão, angústia, estresse e insônia por parte do público mais jovem. A distância socioafetiva de amigos, namorados e familiares tem sido fonte de reclamação constante também. Além disso, muitos temem ser afetados pela Covid-19. A herbiatra Mai?ra Pieri Ribeiro destaca que uma das queixas frequentes entre os jovens é a troca do dia pela noite. “Tem sido muito comum eles relatarem que estão mais irritados, cansados, com dificuldade de concentrac?a?o, falta de energia, dor de cabec?a, fadiga, falta de memo?ria. Muitos até com predisposic?a?o a? obesidade já que ficam acordados até tarde e priorizam as guloseimas”, conta Maíra.

Segundo ela, em muitos casos, quando se começa a investigar como anda a rotina do sono, descobre-se que eles trocaram o dia pela noite e isso pode levar a muitos problemas de saúde e bem-estar. “Sempre oriento sobre a importância de tentar manter uma rotina mínima, fazer exercício, comer adequadamente e estabelecer um limite de hora?rio para ir dormir”, diz.
Já a psicóloga Denize Ribeiro diz que as queixas dos pacientes, entre 13 a 18 anos, aumentaram bastante em seus atendimentos on-line, principalmente pela falta de convívio social em grupos com os amigos. “Em alguns casos eles se sentem bem deprimidos, pois pertencer a um grupo e é muito importante estar com outros adolescentes. Tento incentivar que eles mantenham contato com os amigos virtualmente, buscamos juntos achar estratégias para que eles tenham atividades em grupos, mesmo que virtualmente", diz.
 
 
Vida social faz falta

A estudante de Ensino Médio Sarah Nascimento, 17 anos, tem achado bem complicado o período de distanciamento social. “Ir pra escola não diz respeito só a aprender os conteúdos. Para mim fazia parte de ter uma vida social, poder encontrar os amigos e conversar sobre coisas totalmente aleatórias. Era um dos momentos mais felizes do meu dia. Claro que eu gosto de ficar em casa, assistindo televisão. Só que já se passaram quatro meses e, pra mim, é algo muito difícil só poder conversar por um celular, sem ter contato físico. Não só eu como todos os meus amigos sentimos muita falta um do outro”, diz.
O maior desejo de Sarah quando a pandemia acabar é de abraçar cada um de seus amigos. “Quero conviver o máximo que conseguir com eles. Nesse período, aprendi a valorizar pessoas do meu dia a dia que eu nem imaginava que faziam tanta falta na minha vida. Enquanto não podemos voltar para a escola tenho tentado estudar bastante e me preparar para o vestibular de artes cênicas. Também trabalho a distância com aulas de balé”, conta a estudante.

 
 
Teletrabalho e cursos

Adler Felipe Correia Leite, 19 anos, trabalha na Fundação Educar DPaschoal e conta que desde o dia 13 de março está em home office. “Sinto falta do trabalho presencial, das trocas de informações. Mas, estamos conseguindo levar bem os projetos, as atividades”, conta.
Ele destaca que uma parte que tem pesado bastante neste período é o sedentarismo. “Acabamos ficando mais limitados. Antes eu tinha que pegar dois ônibus para ir ao trabalho e muitas vezes optava por caminhar em um dos trajetos para me exercitar. Isso tem feito muita falta”, diz o jovem. Mas, por outro lado, ele conta que tem aproveitado o tempo que sobra para estudar bastante. “Me atualizado com cursos on-line, gratuitos e pagos. Também aproveitei para fazer um curso de sabonete artesanal com a minha mãe para ela ter uma renda extra quando pudermos voltar a sair de casa com mais segurança”, diz.

Adler conta que como a namorada mora na mesma rua que ele, praticamente são vizinhos, acabam se encontrando. “Mas claro estamos tomando todo cuidado conosco e buscando proteger a todos da nossa família”, ressalta.

Longe de avós e amigos
A jovem Mickaelly Thamires Cesar Silva, 16 anos, conta que o distanciamento social foi um baque para ela por conta da perda presencial com o contato com os amigos. “Adorava sair com eles para conversar, comer, abraçar. Agora estou tentando novas formas de contato, mesmo distante, reuniões virtuais, mensagens, videochamadas. Fizemos até uma festa junina virtual. Essas relações, mesmo a distância, têm me ajudado a ficar bem”, diz Mickaelly.

Ela destaca que a escola é uma preocupação muito grande desde o começo da pandemia. “Estou no segundo ano, mas me preocupo com o vestibular, o Enem. Nas aulas presenciais eu fui aquela aluna que sempre que tinha dúvidas, levantava a mão e perguntava para os professores, sempre tive contato muito próximo com eles. Com a pandemia fizemos um documento para a escola mostrando nossas dificuldades. Vimos de uma forma recíproca as dificuldades dos alunos e professores e conseguimos equilibrar”, diz.

A pandemia também distanciou Mickaelly de suas duas avós, das quais sente muita falta. “Sempre fui muito próxima da minha avó e ligo para ela sempre e fazemos muitos planos do que vamos fazer depois da quarentena”, diz. Ela ainda complementa: “Penso que agora estou num momento de olhar pra dentro da gente. Estou aproveitando para me autoconhecer, vendo minhas dificuldades, reconhecendo meus valores. Penso que temos que ser bem resilientes e cuidar da saúde mental. Também tenho tentado passar mais tempo próxima dos meus pais”, conta a estudante.

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Kátia Camargo