Publicado 26/07/2020 - 10h41 - Atualizado // - h

Por Daniela Nucci

As crianças exigem mais observação durante a quarentena

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As crianças exigem mais observação durante a quarentena

Desde o início da pandemia devido ao novo coronavírus, muitos pais têm encontrado dificuldades de acompanhar as atividades escolares dos filhos em casa até o retorno das aulas presenciais. No caso das crianças menores, a atenção dos pais deve ser redobrada com relação aos sinais para as manifestações de atraso de linguagem e aprendizagem. Segundo a Base Nacional Curricular Comum (BNCC), documento do Ministério da Educação que norteia o ensino no País, nos anos da Educação Infantil o principal é promover convivência, brincadeiras, participação, exploração, expressão e autoconhecimento, por meio das quais a criança se desenvolve emocional e cognitivamente.
“O ambiente escolar real é bem diferente do virtual. Para a criança ter uma boa compreensão não só acadêmica ou mesmo de uma linguagem, o apoio do toque e do visual faz muita diferença. A velocidade do processamento auditivo de uma criança normal, sem atraso de linguagem, é menor do que a de um adulto. Quando você está no presencial, a professora terá o toque, vai ver pela carinha se a criança entendeu a proposta, diferente quando está no ambiente virtual”, diz a otorrinolaringologista Juliana Cardoso Bertoncello. “Se a criança já tem uma dificuldade de linguagem, ela pode não estar entendendo nada porque a velocidade auditiva dela está muito ruim e isso vai dificultar mais”, diz a médica.
Embora cada criança se desenvolva em seu próprio ritmo, existe uma espécie de cronograma geral que pode servir como guia. O atraso de linguagem e fala das crianças é um dos problemas mais comuns em pré-escolares e já pode ser detectado a partir dos 2 anos de idade. Quando a criança apresenta o atraso de linguagem, ela pode se tornar agressiva, arredia e desenvolver comportamentos inadequados pela incapacidade de comunicação.
“Nesta época de pandemia, ela começará a dar pistas durante as aulas on-line tais como ficar irritada, ter pouca concentração, principalmente as menores. Por isso, as atividades devem ser muito lúdicas e a intervenção precoce é fundamental para o diagnóstico do atraso de linguagem. Se for um atraso simples devido a um estímulo simples vamos conversar com os pais e orientar como corrigir isso na criança, ou um problema auditivo, quanto mais precoce for o atendimento melhor para evitar distúrbios maiores desde síndromes ou autismo”, explica a médica. “Muitas mães acham normal o filho não falar até os 3 anos de idade. Isso não é normal porque a criança tem que ter uma linguagem completa e desenvolvida nesta fase, formando frase”, completa.
Desafio imposto aos pais
A pandemia trouxe um desafio para os pais que da noite para o dia tiveram de assumir a função de “professores” dos filhos. Segundo a pedagoga Marissol Prezotto, o ensino e a aprendizagem passam por uma relação que envolve afeto, amorosidade e responsabilidade.
“Os pais não são os professores, mas têm de assumir o papel de mediador e precisam estar atentos ao que podem proporcionar ao seu filho. Pensar que esse pai e mãe tem que ter um olhar muito cuidadoso pensando o que almeja, de fato, para o seu filho. É importante que haja flexibilização do conteúdo, olhar como as crianças vêm reagindo a tudo que estamos vivendo. Não existe uma regra de ser flexível ou rígido, no entanto, há um cuidado grande desse equilíbrio que precisa acontecer. As famílias precisam perceber quais os seus valores e o da escola que precisam ser valorizados”, diz Marissol. Outro ponto relevante é dar assistência às crianças que possuem algum tipo de distúrbio na linguagem. “As famílias devem procurar orientações, principalmente as que têm crianças com algum tipo de dificuldade, que não devem parar de fazer os acompanhamentos”, diz.
Na visão da pedagoga, a crise trouxe uma lente de aumento para o bem e para o mal. “Temos que saber lidar com aquilo que temos de fato e criar pequenas metas para serem alcançadas, isso é um processo fundamental neste momento”, pontua. De acordo com ela, a família precisa estar presente na educação dos filhos, principalmente os menores, organizando horários, colocando lembretes, estando juntos em algum momento, manuseando ferramentas que nem sempre dominam. “Ninguém vai dar conta de tudo: nem a escola, a família e a sociedade. Todos terão perdas, mas dentro do que é possível, com leveza, tranquilidade e responsabilidade, para que todos possam chegar lá na frente e olhar pra trás e ver quais aprendizados tivemos e o que podemos resignificar e redirecionar”, acrescenta a pedagoga.
A especialista aponta que na educação virtual os pais devem ficar ainda mais atentos a qualquer situação emocional do filho. “As crianças tiveram muitas perdas, a começar do espaço para brincar com os amigos. Quando vemos uma criança de 2 anos, ela já é capaz de formar frase, correr, saltar, comer sozinha, participa de momentos de leitura dos pais e irmãos mais velhos. Os pais devem estar atentos a estes sinais e procurar estimular estes momentos para que a criança comunique o que está sendo vivido. Minha sugestão é que veja filmes adequados à faixa etária, estimule diálogos entre as pessoas ou ao pedir as coisas em vez de apontar para elas”, completa. Ao concluir, ela ressalta que a palavra de ordem é estimular e interagir com os filhos, ler histórias em voz alta, fazer perguntas sobre o cotidiano, gostos e tudo que envolve um apoio afetivo, presença e estrutura das dinâmicas familiares para realizar as atividades propostas pela escola, já que elas se somam ao novo normal.

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Daniela Nucci