Publicado 20/09/2020 - 09h00 - Atualizado 20/09/2020 - 10h42

Por Kátia Camargo

Jovens percorreram 24 mil quilômetros de Norte a Sul do Brasil

Arquivo pessoal

Jovens percorreram 24 mil quilômetros de Norte a Sul do Brasil

Onde estão nossas raízes? Já pararam para pensar nisso? Otávio Lino, biólogo e jornalista, e Marcio Sanches, publicitário e fotógrafo, ambos de 37 anos e radicados em São Carlos (SP), não só pararam para pensar como foram em busca das raízes culturais e das paisagens mais preservadas do Brasil. Foi assim que nasceu o projeto Expedição Raiz, idealizado a partir da proposta de percorrer 24 mil quilômetros por 240 dias, entre 2014 e 2015, a bordo de uma Chevrolet Caravan 1976 pela qual foram pagos R$ 5 mil reais. Mas, para adaptar o carro transformado numa casa sobre rodas foram gastos mais R$ 15 mil reais. “Construímos bagageiros e uma despensa de comida para passarmos dias isolados. Projetamos suportes, adaptamos uma cozinha, escritório e quarto para ser possível viver no carro. Uma casa, completa e acolhedora, mas nem sempre aconchegante”, lembra Otávio.
O sonho da Expedição Raiz retrata um Brasil que vai muito além do turismo e foi planejado durante três anos por meio de estudos bem detalhados, até se concretizar em 8 de outubro de 2014, dia em que deixaram a cidade de São Carlos rumo à Expedição Raiz. “Em oito meses rodamos as estradas de todas as regiões do País. Visitamos doze cenários de natureza impressionantes. Passamos por paisagens extremadas, de florestas tropicais a regiões quase desérticas. Rios de proporções imensas e dunas cinematográficas, montanhas e chapadas”, conta Marcio. Otávio completa: “Em cada lugar, fomos ao encontro das culturas tradicionais. Das histórias antigas, das perspectivas dos seus moradores, da verdadeira regionalidade. Percebemos a sabedoria de personagens que transformam o Brasil em um grande mosaico de valores, crenças e manifestações artísticas”, diz.
Os 12 destinos percorridos pela Expedição Raiz foram: Vale do Ribeira em São Paulo; Aparados da Serra no Rio Grande do Sul; Pantanal no Mato Grosso; Chapada dos Veadeiros em Goiás; Jalapão em Tocantins; Médio Tapajós no Pará; Mamirauá no Amazonas; Lençóis Maranhenses no Maranhão; Cariri na Paraíba; Chapada Diamantina na Bahia e Serra da Mantiqueira em Minas Gerais. O site www.expedicaoraiz.com.br traz detalhes de cada local por onde passaram, quanto gastaram e os desafios do percurso.
“Nosso sonho ainda é dar a volta ao mundo no mesmo formato da Expedição Raiz, mas dividimos esse nosso projeto de vida em várias etapas que vão se estender pela nossa jornada”, conta Marcio. O projeto independente foi realizado quase sem dinheiro e, muitas vezes, contando com a solidariedade das pessoas com as quais foram cruzando pelo caminho. Para percorrer os 12 destinos propostos, eles saíram de São Carlos com R$ 12 mil e também levaram 500 fotos impressas de trabalhos anteriores.
As fotos seriam vendidas no trajeto para ajudar a pagar as despesas, se fosse necessário, e claro que foi. “Alguns dias conseguíamos vender várias fotos e ganhar, por exemplo, R$ 300,00 e, em outros, não vendíamos nenhuma. Mas sabíamos que íamos conseguir terminar a nossa expedição e passar pelos nossos 12 destinos, mesmo não tendo a clareza de como faríamos diante dos desafios que foram surgindo. Foi incrível como fomos acolhidos por pessoas que cruzaram o nosso caminho. Lembrar delas nos emociona muito. São pessoas que deixaram um pouco delas em nós”, conta Marcio.
Faculdade de ‘resiliência
Quando entraram na região Norte do País o destino era chegar ao Jalapão, mas a estrada não ajudava muito. “No Jalapão nós batemos numa pedra na areia. Tudo foi para o chão. A porta do carro não abria mais e tivemos que descer pela janela. Quando abrimos a tampa, o motor estava tombado dentro do carro. Foi então que fomos acolhidos pelo mecânico que consertou o carro e ficamos morando na oficina mecânica dele por 30 dias”, conta Marcio.
Otávio completa: “Se não fosse a ajuda do Vando, o mecânico, que emprestou um quartinho, carinhosamente apelidado por nós de ‘cativeiro’, nós teríamos desistido da expedição. Ele nos garantiu que fome e sede não passaríamos e que conseguiria arrumar o carro para sair do Jalapão, só não garantia que terminaríamos a viagem. Foi então que essa experiência nos ofertou algo que apelidamos de faculdade da resiliência. Passamos 30 dias lá, esperando consertar o carro e já não sabíamos mais quanto tempo duraria a expedição”, diz Otávio.
Marcio e Otávio se emocionam ao falar da transformação que a Expedição Raiz trouxe para a vida deles. “Nos reconhecemos espalhados pelo Brasil nos caiçaras, nos quilombolas, nos gaúchos, nos pantaneiros, nos ribeirinhos. Expedição Raiz mudou nosso olhar de mundo, nos ensinou a enxergar a vida de forma mais leve e conseguir olhar para o que de fato é ou não um problema. Posso dizer que depois da viagem a nossa vida virou a ‘expedição raiz’”, conta Otávio.
No começo da viagem uma das grandes preocupações dos parceiros de aventura era como se manterem e tocarem o projeto com tão pouco dinheiro: os R$ 12 mil e o punhado de fotos que poderiam ser vendidas. “Quando ficamos sem dinheiro essa preocupação sumiu. Teve um dia que só tínhamos R$ 3,00 no bolso e conseguimos nos virar. E a partir daí começamos a levar a expedição com mais leveza. A viagem te traz a sensação de realmente estar presente na vida. E ficar nesse presente é revolucionário”, lembra Márcio. A Expedição Raiz ajuda a reforçar o olhar de que o extraordinário mora no ordinário. “Só deu certo porque as pessoas abraçaram o nosso sonho e nós estávamos abertos para tudo que a viagem proporcionaria. Foi preciso abandonar uma vida ‘normal’ e se jogar ao vento para descobrir nossas próprias raízes”, conta Otávio.
Aventura rendeu documentário, vídeo, série na TV e livro
 
O material acumulado em vídeos, fotos e em um diário de bordo escrito por Otávio se transformou em um projeto multiplataforma. Foi assim que nasceu o documentário Brasil Raiz, já selecionado em oito festivais internacionais de cinema. No ano passado, a Expedição Raiz virou uma série com 12 episódios “em cartaz” no canal Mais Globosat. E em junho passado, eles também lançaram o livro Expedição Raiz no qual revelam detalhes da aventura que ainda não haviam sido contados. As fotos do livro também retratam muito desse Brasil que muitas pessoas nem imaginam como seja. “Não se trata de um diário de bordo de uma viagem insana. Ele fala das pessoas que cruzaram o nosso caminho, fala de paisagens singulares e dos aprendizados que essa experiência nos trouxe”, conta Otávio.
Ao final de cada capítulo do livro o leitor pode acessar um QR Code e ser transportado para um vídeo gravado no local sobre o qual acabou de ler. Na verdade, quem experimenta a leitura e depois acessa o vídeo consegue se sentir parte dessa expedição que foi muito além de retratar o Brasil. Dá até para viajar no sonho desses dois jovens que mostram um Brasil que poucos têm acesso, pois geralmente não está na mídia, e muito menos nas rotas turísticas.
A Expedição Raiz acabou virando o projeto de vida para toda a vida. E, em 2022, os viajantes planejam partir para a segunda temporada da expedição. Mas, dessa vez, estão em busca de patrocínio para ajudar a viabilizar o projeto. O destino já está definido: eles vão passar por 12 comunidades indígenas da América Latina. “Já estamos estudando e estruturando essa nova expedição. Começamos a procurar outro carro que não fuja do estilo da nossa primeira escolha. A nossa Caravan 1976 não aguentaria uma nova viagem”, lembra Marcio.

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Kátia Camargo