Publicado 16/10/2020 - 06h27 - Atualizado 16/10/2020 - 06h28

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O prefeito que vier a ser eleito em qualquer município brasileiro tem um compromisso histórico na gestão que terá início em 2021: a educação de qualidade. A pandemia escancarou as diferenças entre os brasileiros. Há milhões de invisíveis, de excluídos, de hipossuficientes. Eles dependem dessa ideia que voltou fortalecida: a de que o Estado deve assumir a sua função de provedor. Equalizar as diferenças. Imprimir um esquema de governo que reduza as desigualdades. E isso só se faz com educação.
Educação é direito de todos — em qualquer idade e não é apenas educação formal. O processo educacional é o contínuo e perene movimento de aprendizado de todas as letras, de todas as ciências, de todas as artes e de todas as técnicas, para fazer de cada pessoa um ser humano em plenitude. Afinal, é isso o que o constituinte preceituou em 1988 e que não foi objeto de atenta observância trinta e dois anos depois. Uma educação direito de todos, é dever do Estado, da família e da sociedade. E seus objetivos são capacitar para o exercício da cidadania, formar para o trabalho e propiciar a cada educando a oportunidade de crescer como pessoa. Exatamente na vocação de perfectibilidade que deveria ser a meta de toda pessoa consciente.
É difícil propiciar educação de qualidade? Não necessariamente. O primeiro requisito é o amor. Todos falam sobre educação nos discursos. Palavra tão presente na retórica política, assim como é rotineira a invocação à ética. Ambas deficitárias neste solo abençoado de Santa Cruz. Um prefeito deve ser o maior interessado em fazer de sua cidade um espaço educado. Para isso, basta conhecer a realidade escolar de seu município. Uma visita por semana a uma escola é algo mágico. Os alunos ficam reconhecidos quando a autoridade os fita nos olhos, ouve seus reclamos, tenta responder às indagações e, mais ainda, resolver os problemas crônicos existentes em todas as unidades de ensino. Essas visitas não devem se restringir às escolas municipais. O aluno não é municipal, estadual ou particular. É um ser aprendiz que precisa de atenção, estímulo e, principalmente, carinho. Depois, o prefeito tem de ouvir os profissionais da educação. Não ter medo dos professores e de suas representações sindicais ou associativas. Eles estão na trincheira. Sei de exemplos edificantes de educadores que se sacrificam para manter o nível de aprendizado, a despeito da falta de estrutura, da insuficiência de recursos e, pior ainda, da negligência com que as questões da escola são tratadas. Em seguida, o prefeito tem de se aproximar das famílias. A família é parceira e é responsável pela educação. Quando os pais participam da vida da escola de seus filhos, opera-se o milagre. Lembrar que seus filhos permanecem horas a fio naquele ambiente e que é dever materno/paterno verificar como é que as coisas andam ali dentro.
O município tem de incentivar o orgulho de seus estudantes por residirem nele. Promover concursos. Conferir prêmios. Reconhecer os méritos. Auxiliar para que a sadia emulação também tenha lugar. Afinal, a vida é uma competição, queira-se ou não. Educação ambiental é algo essencial e cada vez mais urgente, diante do descaso com que a natureza é tratada. É na cidade que as pessoas vivem e elas têm o direito à sadia qualidade existencial, que é garantida por um ambiente saudável. Repor as árvores mortas, multiplicar o verde em terra ociosa, devolver o prestígio das profissões que cuidam de recuperar a degradação generalizada. Hortas escolares fazem parte de uma educação integral. Assim como restaurar matas ciliares. Intensificar a criação de florestas particulares, o orgulho pelos jardins residenciais e adoção de praças públicas das quais a zeladoria municipal não dá conta.
O turismo regional é algo que os estudantes podem alavancar. Descobrir atrações ainda ignoradas, ressuscitar vultos históricos, fazer com que todos leiam, escrevam, pintem, representem, atuem. Sejam protagonistas. Parece utopia? Não é. Basta querer. E já há quem faça. Descubra quem são os prefeitos que descobriram essa fórmula maravilhosa de serem não só respeitados, mas amados por seus munícipes.
José Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove, palestrante e conferencista.

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