Publicado 16/10/2020 - 01h45 - Atualizado 16/10/2020 - 01h45

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Há algum tempo, escolhi uma mesa que montei em minha garagem, como meu lugar de escrever. A garagem é ampla, arejada, aberta e dela tenho ótima visão da portaria do condomínio e da mata que compõe o cenário. Acabo vendo, ainda que sem querer, quem passa pela cancela e adentra o espaço.
Pois, contei tudo isso porque, quando me sentei para escrever esta crônica, nenhuma mísera ideia, nem um simples lampejo de ideia, povoava minha mente. Em tempos de pandemia, quando não se sai de casa e nada acontece, um tema para uma crônica é mais raro que chuva no deserto.
De repente, a salvação! Um automóvel branco, com as janelas abertas, passa pela cancela e adentra o condomínio. De dentro do carro, num volume respeitoso, chegam até mim os acordes de Parlame d'Amore Mariu, na voz extraordinária de Peppino di Capri!
Foi a conta! Como se sacudida por um terremoto, a memória expeliu um sem número de imagens da Itália! Uma em especial sobrepujava todas as outras. Em 2013, numa das vezes em que estive em Capri e viajava do Porto de Napoles para a Ilha, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que um dos passageiros do barco era, nada mais nada menos, que o nativo mais famoso de Capri, o próprio Peppino di Capri.
Tonto com a feliz coincidência, não parava de olhar o homem e, mentalmente, fazia a ele um agradecimento por nos ter colocado na vida maravilhas como Champagne, Roberta, Torna piccina mia, Volare e mais uma infinidade de outras.
Não tive coragem de me aproximar. Não achei justo atrapalhar o sossego e a paz que estavam estampados no rosto dele. Dei-me por feliz por estar indo a Capri em tão ilustre companhia. Violeta ao meu lado, nem piscava. Foi um momento único, inesquecível.
Como se adivinhando que estava falando dela na crônica, Violeta me serve um delicioso café e pergunta sobre o que estou escrevendo. Quando conto, abre um largo sorriso e começa a rememorar tudo junto comigo.
Era impossível ficarmos, na nossa conversa, exclusivamente em Capri. Fomos recordando Roma, Verona, Veneza, Florença, Milão, Assis, Pompeia, Rapallo, Ravena...
Refizemos na memória a viagem que, como tudo na vida, fizemos juntos! Trouxemos de volta cada detalhe. O que escapava a um, o outro recordava com nitidez. Fomos do Balcão de Julieta, em Verona às Pedras das arquibancadas do Coliseu. Ouvimos de novo as notas de La Donna e Mobile, da Opera Rigoletto, de Giuseppe Verdi, que ousei entoar no Anfiteatro de Pompeia! Nas ruínas, a acústica permanece perfeita.
Fomos, mais uma vez, da Capela Sistina, no Vaticano, ao David, de Miquelângelo, na Academia de Belas Artes de Florença, além do seu Moisés na Igreja de San Pietro in Vincoli. Quase chegamos a ouvir o ecoar da voz do gênio dizendo:_ PARLA !
Descemos contritos os degraus que levam à cripta onde estão os restos mortais de São Francisco de Assis. Emocionada, Violeta sentou-se e chorou. Confesso que me senti profundamente tocado na ocasião e o mesmo se repetiu quando lá voltei...
Caminhamos outra vez pela Rua Dante, em Milão, que leva do Castello Sforzesco à Praça do maravilhoso Domo, a Catedral de Milão e à Galeria Vittorio Emanuele, o primeiro shopping de que se tem notícia!
Palmilhamos por inteiro as calçadas do Gran Canale, em Veneza. Visitamos todas as portentosas salas do Palácio Ducale e mais uma vez quase desmaio de emoção ao ver a Armeria! Percorremos o Porto de Rapallo e revimos as marcas da tormenta que devastou o lugar. Fomos de barraca em barraca na Feira de Ravena, onde se acha tudo que sabe bem ao paladar.
Não conheço o vizinho que trouxe a inspiração, aliás, nem cheguei a vê-lo! De qualquer maneira ele, com seu bom gosto e sua sensibilidade, nos proporcionou, a mim e à Violeta, uma nova e deliciosa viagem à Italia.
Depois disso, só nos resta ligar o aparelho e colocar um CD do grande Peppino di Capri!
José Roberto Martins é professor, jornalista e membro da Academia Campinense de Letras (ACL).

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