Publicado 17/10/2020 - 08h16 - Atualizado 17/10/2020 - 08h25

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“Jovem de uma pequena cidade provinciana – homem sem fortuna, sem amigos poderosos e sem formação universitária – muda-se para Londres no fim da década de 1580 e, logo, se torna o maior dramaturgo não somente de sua época, mas de todos os tempos. Suas obras atraem eruditos e iletrados, refinadas plateias urbanas e provincianas que vão ao teatro pela primeira vez”. Assim começa Stephen Greenblatt no prefácio do seu livro sobre Shakespeare (1). É, realmente, admirável, como um jovem e desconhecido provinciano, cujo verdadeiro rosto não se conhece a não ser por um retrato feito, possivelmente de memória, seis anos após a sua morte, (2) e que nos primeiros anos em Londres era conhecido simplesmente por William, como conseguiu, aos poucos e com muito trabalho, ir se tornando Shakespeare até ficar, para sempre, inconfundível. Falar sobre as mulheres de suas 37 peças teatrais e as que viveram em sua vida real, não é fácil pela escassez de documentos. Quais foram as mulheres reais e as personagens de seus dramas, comédias e tragédias ? Podemos tentar saber um pouco fazendo uma distinção, as que fizeram parte de sua vida em algum momento e as que ele criou com maestria. E indagar, mulheres da vida real, ou algumas delas, inspiraram personagens? A primeira mulher e a mais importante na vida de Shakespeare foi sua mãe, Mary Arden. Filha do segundo casamento de Robert Arden, rico proprietário de terras nas vizinhanças de Stratford, e filha caçula, Mary conheceu o pai de William, John Shakespeare, quando ele era glover, fabricante de luvas, bolsas e peças de couro, e comerciante com produtos agrícolas vindos da terra arrendada pelo pai Richard Shakespeare, avô que Shakespeare provavelmente não conheceu. Sua avó paterna chamava-se Abigail Webb, era da região, teve quatro filhos, foi sepultada em Stratford, é quase tudo o que se sabe. Mary Arden deve ter conhecido John porque este arrendava terras de seu pai, e ao se casar, com 20 anos, deixou sua família por uma vida diferente e mais modesta do que a que tinha no seio do seu clã, de posição privilegiada na sociedade. Mary era gentry, classe alta de proprietários e de descendência ilustre. John Shakespeare era yoeman, classe de pequenos agricultores, sem terras próprias. Robert Arden dizia que seus antepassados lutaram ao lado de Guilherme o Conquistador. Mary herdou terras em Snitterfield e Wilmcote de seu pai como dotes e, com o casamento, John Shakespeare ascendeu economicamente e na escala social ganhando prestígio e funções administrativas em Stratford, chegando a ser prefeito. Mary foi mãe de oito filhos, todos nascendo com pouca diferença de tempo. Joan, primogênita, nasceu em 1558 e morreu antes de completar um ano; Margaret, em 1562, morreu em 1563; Anne, em 1571, morreu em 1579. A peste negra teria sido a causa dessas perdas prematuras. Além de suportar esses dramas, inclusive a morte prematura do neto Hamnet, com onze anos, Mary criou cinco filhos, William, Gilbert, Richard, Edmund e Joan, esta batizada com o nome da primeira Joan que não sobreviveu, como era o costume. Mary foi companheira de John durante toda sua vida, na sua ascensão econômica e social e no seu declínio e empobrecimento. Mary ainda ajudou a cuidar dos três filhos de William enquanto pequenos e durante sua longa permanência em Londres. Mary Shakespeare morreu em 1608, oito anos antes da morte de Shakespeare, mas pôde durante grande parte de sua vida, acompanhar a fama e a fortuna de seu primogênito. A única irmã de William, Joan, viveu 77 anos, o membro mais longevo da família. Foi sempre muito pobre, o marido era “haberdasher”, mascate de material de costura como agulhas, botões, zíper, fitas e forros. Shakespeare, que foi bom filho e bom irmão, deixou no seu testamento 20 libras para Joan e autorização para ela morar em parte da casa da Henley Street. Foi também a única da família Shakespeare que deixou descendentes, alguns parentes remotos ainda vivos. A segunda mulher importante na vida de William foi sua esposa Ann Hathaway. Os comentaristas, em sua maioria, são de opinião de que William e Ann foram namorados muitos meses antes de se casarem apesar da diferença de idade, ela 8 anos mais velha, o que era incomum não visto com bons olhos na Era Elisabetana. Na sequência ouviremos um pouco Germaine Geer, “scholar” de primeira linha e defensora ardorosa de Ann Hathaway, tão maltratada por alguns comentaristas mal informados e difamadores.
(1) Will in the world: How Shakespeare became Shakesperare, Stephen Breenblatt.
(2) A gravação está assinada na parte inferior esquerda da imagem, Martin Droeshout.
Walter Vieira é Juiz de Direito e titular na Academia Campinense de Letras (ACL). wvieira@uol.com.br

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