Publicado 04/10/2020 - 09h00 - Atualizado 02/10/2020 - 17h54

Por Eduardo Martins/Especial para a Metrópole

A síndrome do coração partido, na maioria das vezes, atinge mulheres no período pós-menopausa

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A síndrome do coração partido, na maioria das vezes, atinge mulheres no período pós-menopausa

O termo logo remete à dor por um amor não correspondido, mas a síndrome do coração partido é mais relevante do que isso e apresenta como principal característica o enfraquecimento de parte do músculo do coração, mais frequentemente da ponta do ventrículo esquerdo, o que leva ao mal funcionamento desse órgão. Também conhecida como síndrome de Takotsubo, a doença rara é ligada ao estresse e atinge, na maior parte dos casos, mulheres no período pós-menopausa, na faixa dos 68 anos.
“Na maioria das vezes ela é reversível, o que a diferencia de outras patologias que também acometem o coração de forma semelhante. O mecanismo pelo qual há falha de contração de parte do músculo cardíaco parece ser a produção abrupta e excessiva de catecolaminas, substâncias altamente estimuladoras do sistema cardiovascular, que em doses elevadas são tóxicas e em geral são produzidas após forte estresse emocional ou físico”, explica Carla Patrícia da Silva e Prado, professora de cardiologia da Faculdade São Leopoldo Mandic de Campinas e presidente da regional de Campinas da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) está realizando um estudo inédito no País sobre a síndrome de Takotsubo e um registro nacional sobre a doença será criado. O mapeamento visa conhecer o perfil epidemiológico da síndrome no Brasil para melhorar o diagnóstico, proporcionar tratamentos mais eficazes e políticas públicas de prevenção à patologia.
“A síndrome já é conhecida dos especialistas brasileiros, mas não temos dados epidemiológicos. Temos um estudo único no Rio, mas ainda não dá para concluir que temos mais casos. Agora temos um registro nacional, acredito que levaremos dois anos para ter nossos dados. Embora não seja tão frequente, é conhecida pelos cardiologistas”, destaca Carla Patrícia.
De acordo com especialistas, o cenário brasileiro em relação à doença pode estar igual ao que vem acontecendo nos Estados Unidos, onde médicos da Cleveland Clinic, em Ohio, descobriram aumento da incidência da síndrome durante a pandemia da Covid-19. Em dois hospitais do sistema de saúde americano, os diagnósticos de cardiomiopatia por estresse aumentaram durante março e abril, e a doença foi diagnosticada em 7,8% dos pacientes que chegaram ao pronto-socorro da instituição com dor no peito e outros sintomas cardíacos. Isso foi quatro a cinco vezes maior do que as taxas observadas em períodos anteriores à pandemia, que oscilavam entre 1,5% e 1,8%, segundo o estudo publicado em julho na revista médica JAMA Network Open.
“A pandemia por Covid-19 por si só gera grande estresse emocional, como acontece também em situação de guerra. A emergência em saúde devido ao novo coronavírus pode estar aumentando o número de infartos, de crises hipertensivas, de pessoas obesas, com ansiedade e depressão, em função de todo o contexto da pandemia, que causa falta de perspectivas e mudança de hábitos. Tudo isso leva a uma condição final de extremo estresse, que é gatilho para o desenvolvimento da síndrome de Takotsubo em indivíduos que têm predisposição genética”, explica o cardiologista Marcelo Westerlund Montera, coordenador do registro nacional da doença da SBC.
Sintomas
A síndrome do coração partido apresenta sintomas parecidos com o infarto agudo do miocárdio que, na maioria das vezes, tem características como dor torácica, falta de ar, palpitações e eventualmente até a perda da consciência transitória. A partir da semelhança, se torna necessário a realização do cateterismo cardíaco para diferenciar a doença.
“Até 3% dos pacientes atendidos em unidades de emergência com sintomas típicos de acometimento cardíaco, como dor no peito e falta de ar, são decorrentes da síndrome do coração partido e os exames habitualmente realizados para diagnóstico de doenças cardíacas, como eletrocardiograma e os laboratoriais com dosagens dos marcadores de necrose miocárdica, não são capazes de diferenciar essa síndrome do infarto”, pontua a médica Carla Patrícia.
Prevenção
Atualmente, ainda não são conhecidas formas de evitar a doença, mas a rápida procura por um serviço de saúde ao sentir os sintomas, é essencial para o tratamento da síndrome. “O pronto diagnóstico médico da anormalidade funcional do coração, com início imediato do tratamento padrão para a insuficiência cardíaca, pode ser a chave para o reestabelecimento da normalidade da função do órgão e um melhor prognóstico”, destaca a especialista.
Óbitos relacionados a essa síndrome foram relatados em apenas 1,8% em estudo publicado na revista JACC Heart Failure em 2019, que não incluíram pacientes da América do Sul. Recentemente, o Registro Multicêntrico de Takotsubo (REMUTA) fez uma publicação no Arquivo Brasileiro de Cardiologia de 2020 e encontrou uma taxa de 10,6% de mortalidade hospitalar no País.
Estresse emocional
As mulheres apresentam maior chance de desenvolver a síndrome de Tokotsubo, mas a doença também pode aparecer nos homens. Segundo a especialista, a cada 10 pacientes com esse diagnóstico, nove são mulheres, principalmente após a menopausa com idade em torno de 68 anos.
“A partir dos 50 anos, elas têm cinco vezes mais chances (de desenvolver a síndrome) do que mulheres mais jovens e 10 vezes mais chances do que homens para esse diagnóstico, o que sugere um fator hormonal associado”, destaca.
Estudos relatam que 78% dos pacientes que desenvolvem a síndrome do coração partido apresentam quadros de depressão ou ansiedade e são portadores de personalidade tipo D. Isso indica que indivíduos menos sociáveis que manifestam emoções negativas podem apresentar a doença. Alguns registros também apontam uma predisposição genética associada.
“Essa doença, em geral, é desencadeada por gatilhos, como estresse emocional em até 58% ou estresse físico. Com o estresse psicológico, foram relatadas perdas pessoais significativas como divórcio, morte de familiares, perdas de animais de estimação e grandes catástrofes naturais”, finaliza a doutora Carla Patrícia.

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Eduardo Martins/Especial para a Metrópole