Publicado 09/02/2021 - 16h27 - Atualizado 09/02/2021 - 16h28

Por Adriana Giachini/ Correio Popular

Com a pandemia, a cantora descobriu o poder do Tik Tok e diz que se sente encorajada para falar de pol?tica, feminismo, lutas sociais e pl?gio

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Com a pandemia, a cantora descobriu o poder do Tik Tok e diz que se sente encorajada para falar de pol?tica, feminismo, lutas sociais e pl?gio

De Beth Carvalho a Latino. De roda de samba ao Tik Tok. De clássico ao pagode. Bruna Volpi é o tipo de artista que “dá nó na cabeça” do jornalista quando a entrevista acaba. O papo começa sobre plágio, emenda com as constantes comparações que recebe com Beth Carvalho e Clara Nunes, passa por duras críticas ao machismo no pagode e narra como ela, com 20 anos de carreira como cantora e compositora de samba, está famosa nas redes sociais – acaba de conquistar 500 mil seguidores no Tik Tok – simplesmente por falar (e não só cantar, em paródias) o que pensa.
“A pandemia me encorajou a fazer algo que eu sempre quis: expor mais a minha opinião sobre as coisas. Durante a minha carreira, toda vez que eu tentava falar algo, sobre política, sobre feminismo, lutas sociais, as pessoas me diziam para silenciar. Diziam que eu poderia perder shows e oportunidades. Ai, veio a pandemia, e descobri o Tik Tok. Criei uma conta e não contei para ninguém. Cada vídeo que eu fazia, o número de seguidores crescia. Um dia, cheguei para meus produtores e contei que já tinha 300 mil. Não tinha como voltar atrás.”
E não é que, ao invés do esperado puxão de orelhas, desta vez, ganhou parabéns.
“Por fim, as pessoas entenderam que é parte de quem sou. Desde criança eu me posiciono, é algo meu”, conta a artista que, recentemente, se viu envolvida em uma polêmica nacional ao acusar o cantor Latino de plagiar um de seus textos. “Eu estava conversando com meu produtor sobre a situação dos músicos na pandemia e fiz uma gravação que viralizou”, recorda.
No texto, escrito por ela, e gravado no vídeo, Bruna crítica o discurso de pessoas que “culpam” artistas, donos e funcionários de bares por aglomerações. “Se você vai à praia e vê pessoas se aglomerando, você culpa as pessoas, o mar, a praia ou sol? As pessoas. Mas porque com os bares estão culpando os artistas?”, questiona a cantora, no início da gravação.
De acordo com Bruna, o vídeo foi compartilhado em um grupo de produtores e provavelmente pessoas próximas ao Latino que, no dia seguinte ao de sua publicação, gravou texto bem semelhante (ela tem as duas versões em seu YouTube). O cantor, via assessoria de imprensa, negou o plágio e ameaçou processar a campineira que, "inspirada na polêmica", acaba de lançar a música Cara de Pau, composição de Arlindinho. “A música fala daquele tipo de homem que é o bonzão na rede social, mas não paga pensão. O cara que tem dez filhos, mas nunca foi pai.”
Bruna ainda garante estar tranquila com a polêmica, diz que não se importou em ter o conteúdo compartilhado pelo cantor, mas gostaria que ele tivesse dados os créditos. "Quem trabalha como criador de conteúdo sabe que é comum que outros compartilhem e o propósito é esse mesmo, mas no caso ele não reconheceu a minha autoria. Mas já passou."
‘Mais solta, sem medo’ 
A boa notícia é que nova música já está nas playlists de pagode de 2021. Aliás, cabe registrar aqui o fato de que, se faltam os shows ao vivo – por conta da covid-19 -, a artista aproveita a ausência nos palcos para trabalhar bastante no mundo virtual. Além de criar de conteúdo, incluindo paródias musicais com as quais vem se destacando, ela também mostra fôlego para seguir como intérprete talentosa que é e tem lançado novas gravações quase que semanalmente. Tudo isso, revela Bruna, com o objetivo de ampliar a agenda de apresentações, quando possível.
“Mas acho que a Bruna de antes não existe mais. Melhor, existe uma Bruna mais solta agora, sem medo de se expressar porque, quem me acompanha sabe que em meu penúltimo CD eu gravei uma música que já falava da Lei Maria da Penha.”
Ela também recorda da versão que fez da música Minissaia, gravada por Dudu Nobre, rebatizada de Mini Shorts. “Só o corpo da mulher é exaltado? O mesmo não vale para o do homem”. E quando o tema envolve igualdade de gênero, a cantora é ainda mais crítica.
Segundo ela, entre as maiores frustrações da carreira está o preconceito que as mulheres que cantam pagode sofrem.“Já começa com o preconceito no gênero musical que, para quem vem do Conservatório de Tatuí, como eu, é motivo de crítica. Aí eu te pergunto que vozes femininas você tem no pagode que faz o Zeca Pagodinho, o Xande de Pilares ou o Dudu Nobre? Minha vida toda eu escuto que sou a nova Beth Carvalho, que lembro a Clara Nunes, mas quando aparece um projeto grande, nunca me chamam. Ser mulher no pagode é ter que ´provar ser uma artista acima da média, para ser tratada como alguém mediana.”

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Adriana Giachini/ Correio Popular