Publicado 17/02/2021 - 17h06 - Atualizado 17/02/2021 - 17h16

Por Adriana Giachini/ Correio Popular

O maestro Victor Hugo Toro e o sambista Dudu Nobre destacaram o talento de Zé Keti, na gravação em meio da semana de Carnaval sufocado pela pandemia

Divulgação/ Prefeitura Municipal de Campinas

O maestro Victor Hugo Toro e o sambista Dudu Nobre destacaram o talento de Zé Keti, na gravação em meio da semana de Carnaval sufocado pela pandemia

“Um pequeno perfume de carnaval.” Assim o maestro Victor Hugo Toro, da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, define a gravação do clássico Máscara Negra, lançada ontem, terça-feira de Carnaval, pela Prefeitura de Campinas, e que está disponível no canal do YouTube Cultura Abraça Campinas.
O vídeo, que vem sendo trabalhado desde o início do ano, faz uma homenagem ao centenário de nascimento do compositor carioca Zé Keti, em 2021, e conta, além da Sinfônica, com participações do cantor Dudu Nobre, da Orquestra Anelo e das baterias das Escolas de Samba de Campinas.
A analogia feita por Toro faz sentido, especialmente neste ano de ausência da mais tradicional festa popular do Brasil, como parte do enfrentamento à covid-19. A referência ao perfume e à sua capacidade de acionar um dos sentidos humanos mais atingidos pelo coronavírus – o olfato – surge também como ferramenta de resgate à memória.
Uma memória que é construída individualmente durante toda a gravação, conduzida pela harmonia musical com a reunião de tantos instrumentistas e pela voz de Dudu Nobre, nos versos tão famosos: “Oh, quanto riso. Oh, quanta alegria. Mais de mil palhaços no salão. O Alerquim está chorando pelo amor da Colombina...”
“Eu considero que este é um dos projetos mais bonitos que participei e não só como maestro da Orquestra, mas como profissional. Para mim, essa gravação é um presente para Campinas e para o Brasil, uma música que desperta emoções e que mais uma vez quebra os paradigmas quando se debate clássico x popular. É simplesmente música feita para todos.”
Assim como o maestro, a filha do compositor, Geisa Keti, também participou da live, transmitida ao vivo pelo Facebook da administração, para lançamento da gravação. “Meu pai, quando compôs Máscara Negra, já dizia para gente que seria eterna. Assim como quando ele fez A Voz do Morro. Nós, da família, ficamos emocionados com a homenagem, que é também um grande reconhecimento ao legado do meu pai”, disse Geisa, que considera Máscara Negra o “último clássico do carnaval de marchinhas”.
Zé Keti compôs a marcha para o Carnaval de 1967. Ela foi gravada pelo próprio compositor e também por Dalva de Oliveira e venceu o Primeiro Concurso de Músicas para Carnaval, criado pelo Conselho Superior de MPB do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.
A gravação
Para a secretária municipal de Cultura de Campinas, Sandra Ciocci, a reunião de talentos para a homenagem ao compositor expressa o respeito e a admiração que o artista inspirou em sua trajetória e continua como exemplo. “A música de Zé Keti ultrapassa os limites do tempo e representa um dos marcos de excelência da música popular. Nada mais apropriado que uma iniciativa como essa no ano do centenário do nascimento desse grande compositor”, afirmou.
“Cantar Zé Keti, que é um dos grandes nomes do samba e da música popular brasileira, é uma satisfação enorme. Fico feliz de participar de um projeto tão agregador como esse, tão necessário também nesse momento de pandemia. Tive o prazer de conhecer Zé Keti e fiquei muito honrado com tudo isso”, disse Dudu Nobre.
O vídeo reuniu participações gravadas remotamente de Dudu Nobre, no Rio de Janeiro, do Instituto Anelo, dos ritmistas das escolas de samba, assim como dos diversos naipes da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, composta de cordas, madeiras, metais e percussão.
“Que felicidade estar nesse projeto, reunindo músicos de estilos tão diferentes. Mas além de agradecer, nós, do Anelo, vamos torcer para que essa reunião se repita e que a administração continue cuidando de seus “corpos artísticos” com o cuidado e atenção que merecem”, resumiu o maestro Guilherme Ribeiro, em referência ao trabalho da Sinfônica, do Anelo e dos músicos ligados ao samba.
“Foi uma sensação única. Fizemos o nosso melhor e creio que quem assistir vai gostar do trabalho", afirmou o mestre de bateria Michel Henrique de Morais Furtado, escolhido como regente das baterias.
Já para o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Campinas (Liesca), Edson Joia, a união de todos foi a marca dessa gravação, aliada ao clima de retomada dos trabalhos e de esperança para 2022 . “Estamos juntos nesse momento difícil da pandemia e esse trabalho mostra o esforço de todos em defesa de um futuro melhor”, disse.
Os registros foram editados e mixados em Campinas. O cenário da gravação utilizou a obra Viva a Música, do artista plástico Rogério Pedro, também de Campinas
José Flores de Jesus, Zé Keti
Nascido em 1921, no Rio de Janeiro, José Flores de Jesus, o famoso Zé Keti, é um dos principais compositores populares nacionais. Foi pedreiro, feirante e exerceu muitos ofícios no decorrer da vida, mas foi a música que o imortalizou. Zé Keti é autor de obras primas como Máscara Negra, A Voz do Morro, Opinião, Diz que Fui Por Aí, Acender as Velas, entre tantos outros clássicos da música nacional. Seu nome está profundamente ligado à história da Escola de Samba Portela, do Rio de Janeiro. Zé Keti faleceu em 1999 na cidade em que nasceu.

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Adriana Giachini/ Correio Popular