Publicado 06/04/2021 - 09h54 - Atualizado 06/04/2021 - 09h55

Por Rodrigo Piomonte/ Correio Popular

Profissional da saúde prepara vacina para ser aplicada em policial militar: se o ritmo da imunização for mantido, a cobertura vacinal na cidade será encerrada somente daqui a seis anos

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

Profissional da saúde prepara vacina para ser aplicada em policial militar: se o ritmo da imunização for mantido, a cobertura vacinal na cidade será encerrada somente daqui a seis anos

A escassez de vacinas e a consequente necessidade de se estabelecer prioridades, o que limitou a quantidade de pessoas que poderiam ser vacinadas por dia, sem citar a ausência de uma coordenação nacional por parte do governo federal na definição de estratégias e cronogramas comuns para os estados, impactam diretamente na velocidade com que os municípios conduzem seus programas de imunização contra a covid-19. Em Campinas, se o ritmo atual for mantido, o municio levará seis anos para concluir a cobertura vacinal de toda a população.
O cálculo é do matemático Régis Varão, professor e pesquisador em Matemática da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ele, para que a cidade alcance a vacinação de todo o seu público alvo estimado em um período de um ano, a velocidade da imunização deveria ser seis vezes mais rápida do que a atual. A projeção do especialista tem como base a análise de dados da vacinação divulgados, por meio de boletim, pela Prefeitura de Campinas, relativo aos primeiros 70 dias da campanha, entre 18/01/2021 e 28/03/2021.
No período, segundo o balanço da Administração Municipal, a cidade recebeu 219.526 doses do imunizante, sendo 45.750 em janeiro, 80.451 em fevereiro e 93.325 até o dia 23 de março. Esse volume foi usado para aplicação da primeira e segunda doses nas categorias definidas pelo Programa Nacional de Imunização, segundo o qual profissionais da saúde e idosos tinham prioridade, seguidos de outros grupos.
Até o final de março, receberam as duas doses da vacina em Campinas 37.913 pessoas, ou seja, 3,11% do público alvo total estimado para ser vacinado, que segundo o levantamento da Prefeitura é de 1.220.012 de campineiros. Para fazer o cálculo sobre a estimativa de tempo que a cidade levaria para imunizar 100% de sua população, Varão baseou-se no número total de campineiros a serem vacinados, no contingente já imunizado e no período de vacinação divulgado pelo balanço do governo municipal (70 dias).
Sendo assim, se Campinas mantiver o ritmo atual de vacinação, serão necessários outros 70 dias para vacinar mais 3,11% da população. Fazendo um cálculo que supõe a manutenção desse compasso de imunização, a cidade levará 2.250 dias para proteger todos os seus moradores contra o coronavírus, pouco mais de seis anos. Para se ter ideia de como a velocidade de vacinação está baixa, para que a Administração Municipal consiga imunizar todos os campineiros no período de um ano, ao invés de 3,11% da população vacinada em 70 dias, a cidade deveria estar imunizado 19,17% dos seus cidadãos nesse mesmo período de tempo.
Em outras palavras, o ritmo de vacinação deveria ser seis vezes mais rápido do que o atual para que todas as pessoas conseguissem receber, no prazo de um ano, a primeira e a segunda doses do imunizante, aponta o matemático. O professor ressalta, no entanto, que a estimativa não leva em consideração uma série de fatores que permeiam a campanha de vacinação. "Não levamos em conta outras questões que vão desde a produção em si do imunizante até a própria logística de distribuição. Sem contar os vários outros fatores de cunho técnico e político que vêm comprometendo a velocidade do avanço da campanha no país", acrescenta.
A Prefeitura informou que, para avançar com a imunização na cidade, depende do envio de mais doses por parte do Ministério da Saúde. Ressalta também que buscou imprimir maior velocidade na imunização ao ter se integrado ao consórcio organizado pela Frente Nacional de Prefeitos, que pretende comprar vacinas diretamente de fabricantes internacionais.
Uso de álcool e máscara deve ser mantido por imunizado
Por causa da escassez de vacinas, é muito difícil garantir que essa circulação atual do vírus diminua como consequência da imunização em massa da população. Nesse sentido, especialistas em saúde ponderam que a adoção das medidas de isolamento social e de higiene sanitárias, além da ação de gestores na busca por outras formas de se conseguir mais vacinas e acelerar a campanha, são os fatores essenciais para conter a crise da covid-19.

De acordo com a análise do infectologista André Giglio Bueno, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), diante do atual cenário os únicos recursos de proteção para uma grande parcela da população ainda serão, ao longo dos próximos meses, as medidas de proteção não farmacológicas. "Para boa parte da população, a única estratégia para evitar a contaminação pelo coronavírus é fazer o que todo mundo já conhece: evitar aglomeração, usar máscaras de boa qualidade e de forma correta e higienizar as mãos e superfícies", afirma.

O médico faz um alerta para as pessoas já imunizadas que, segundo ele, ainda correm riscos. "Como a circulação do vírus está muito alta, essas pessoas já imunizadas têm um risco considerável de serem infectadas e entrarem no percentual daquelas que, mesmo vacinadas, podem desenvolver a doença em casos graves". Bueno explica que, pelo fato das vacinas ainda serem muito pouco conhecidas quanto à eficácia de longo prazo, é bom tomar cuidado com a exposição ao vírus mesmo após as duas doses de imunização.

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Rodrigo Piomonte/ Correio Popular