Publicado 05/05/2021 - 15h22 - Atualizado 05/05/2021 - 15h22

Por Gilson Rei/ Correio Popular

Veículo de transporte escolar estacionado em rua de Campinas: com a atividade totalmente paralisada desde o início da pandemia, muitos motoristas não conseguiram arcar com despesas e venderam suas vans

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

Veículo de transporte escolar estacionado em rua de Campinas: com a atividade totalmente paralisada desde o início da pandemia, muitos motoristas não conseguiram arcar com despesas e venderam suas vans

O impacto da pandemia da covid-19 foi desastroso para os profissionais do setor de transporte escolar e - como o futuro é muito incerto - este tipo de atividade sofre a ameaça da extinção. O serviço de transporte escolar durante a pandemia foi totalmente interrompido e os motoristas de vans escolares foram obrigados a adotar serviços alternativos de transporte ou partir para outras atividades.
Douglas Barbosa, que atuou por treze anos no transporte escolar e tinha contrato com 70 crianças e adolescentes, desistiu da atividade. "Vendi a van e investi na área da alimentação. Atualmente, pago minhas contas com o comércio de pastéis e salgados em uma barraca no Jardim Von Zuben", afirmou. Segundo ele, a pandemia eliminou "friamente" os treze anos de experiência e dedicação com o transporte nas escolas.
O compasso de espera de alguns pais manteve a atividade de Barbosa por alguns meses de 2020, durante a pandemia. "Algumas famílias que já tinham contrato há vários anos, ainda mantiveram uma mensalidade mesmo na pandemia, pois houve descontos e valores simbólicos nas parcelas porque os pais esperavam o retorno mais breve das aulas", disse.
A grande maioria dos pais, entretanto, encerrou o pagamento mensal do transporte. "Os gastos continuaram na pandemia, com a manutenção mecânica da van, com as taxas em vistorias a cada semestre e com outros pagamentos. Como tenho dois filhos para cuidar e não havia expectativa de um futuro melhor, decidi encerrar as atividades no final do ano passado e parti para outra área de atuação", resumiu Barbosa.
Tsunami
José Henrique Savoy, motorista do transporte escolar na cidade por quatro anos, desde abril de 2017, disse que a pandemia provocou um verdadeiro tsunami. "Nos primeiros anos de atividade transportava uma média de 15 alunos por dia e no ano de 2020, cheguei a média 30 alunos diariamente, que era o ideal previsto. Porém, a pandemia provocou o cancelamento de todos os contratos", afirmou.
Savoy destacou que além de perder sua renda repentinamente, a van estacionada na garagem passou a gerar muitos prejuízos de manutenção. "A renda do transporte escolar secou, passei a sobreviver apenas com a aposentadoria que recebo e com a renda do trabalho da esposa. Para manter as contas em dia e evitar maiores prejuízos, passei a fazer serviços de entrega delivery para uma loja de departamentos por seis meses", comentou. "Fiz também o transporte de voluntários do Exército na doação de sangue para o hemocentro do hospital Irmãos Penteado", explicou.
Segundo o motorista, o retorno às aulas presenciais não está surtindo efeito positivo e de recuperação no serviço de transporte escolar. "As aulas presenciais têm baixa adesão e, mesmo assim, os alunos que estão indo, vão apenas em semanas alternadas", comentou.
Outro fator que pesa contra o serviço é a rotina das famílias. "Com a pandemia, muitos pais estão em home office e eles acabam fazendo o transporte dos filhos", disse. "Não há previsão de melhora para o transporte escolar. A atividade voltará apenas depois da vacinação em massa e com a retomada da normalidade, fatos que devem ocorrer a partir de 2023, caso não surjam novas pandemias", afirmou.
Atualmente apenas um aluno está sendo transportado por Savoy. "É bom para me manter cadastrado e para garantir o veículo em movimento. Porém, não gera renda, afinal os gastos são maiores do que a mensalidade recebida", comentou. "Vou tentar me manter no escolar, mas terei que manter serviços alternativos de transporte" explicou.
Cargas e Reciclagem
Osmar Dalaqua que transporta escolares por mais de treze anos na região do Campo Grande mudou de atividade desde a pandemia. O profissional trabalhava com três vans na região e decidiu vender um veículo para quitar despesas. Como não tinha mais a opção dos escolares, decidiu investir no transporte de cargas no comércio e utiliza as duas vans neste novo ramo de atividade. Depois desta solução, ele não pensa em voltar a trabalhar no transporte escolar.
Já o motorista escolar Itamar Alves, informou que sua alternativa foi mudar para o trabalho de coleta e transporte de materiais de reciclagem. Alves disse que vendeu sua van e comprou um caminhão para transportar papelão, vidro, metais e plásticos para empresas. "A atividade está rendendo mais lucro do que transporte escolar e pretendo não parar com esta nova opção", disse.
A mudança, segundo Alves, ajudou a salvar sua situação e auxiliou também a de colegas de profissão no transporte escolar. "Dois motoristas de van escolar passaram a trabalhar comigo nesta nova atividade. Eles tinham vans financiadas e foram obrigados a entregar os veículos para os bancos porque não havia como pagar as parcelas", disse Alves. As parcelas, segundo ele, eram de aproximadamente R$ 2 mil por mês e não havia renda para quitar.
Aplicativo
Moisés Hygino de Lima que trabalhou no transporte escolar por 8 anos e atendia mais de 50 crianças mensalmente, disse que a pandemia fez uma mudança radical em sua rotina. "Deixei de atuar de um dia para outro e me vi sem saída porque não havia expectativa de retorno ao transporte escolar", comentou. Com três filhos para alimentar e cuidar, Lima decidiu vender a van e investir na compra de um carro para atuar como motorista de aplicativo da Uber.
Outro motorista que optou pela profissão de motorista de aplicativo da Uber foi Fábio Oliveira, da Fasioli Transporte Escolar. "Atuei por três anos como motorista de van escolar e o movimento caiu a zero desde a pandemia", disse. Segundo ele, a alternativa foi investir no transporte por aplicativo e destacou que não tem ainda expectativa de voltar à van escolar.
Cadastro tem poucas baixas apesar da crise
Apesar do impacto negativo causado pela pandemia no transporte escolar, o número de pessoas cadastradas para atuar no serviço não sofreu ainda grandes alterações e apresenta uma redução de 2,92% no total de profissionais em atuação em Campinas no período de 15 meses, entre dezembro de 2019 e março deste ano.
Segundo a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), um total de 1.878 transportadores estavam cadastrados em dezembro de 2019, antes da pandemia. Em março deste ano, o cadastro apontou a existência de 1.823 profissionais no transporte escolar, uma redução de 55 profissionais cadastrados, que representou uma diminuição de 2,92% no período de 15 meses.
Apesar de existir uma mudança no tipo de atividade dos profissionais do transporte escolar, neste período de pandemia, o cadastro e as vistorias semestrais na Emdec para atuar no setor são práticas mantidas dentro dos prazos estabelecidos. Isto é mantido pelos profissionais para que eles possam retornar normalmente ao transporte escolar, caso as aulas presenciais voltem a acontecer dentro da normalidade.
Qualquer cancelamento no cadastro inviabilizará o retorno destes profissionais à atividade e eles terão que realizar novamente todo o processo de cadastramento, reunir documentação e exigências para posterior aprovação do setor de fiscalização da Emdec.

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Gilson Rei/ Correio Popular