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01/06/2012 10:25:57.000
Solteiros com Filhos *

Notícia rara, o título de um filme em português (sempre muito criticado; neste caso, Solteiros com Filhos) é mais honesto com a história do que o original (Friends with Kids, Estados Unidos, 2012). O casal protagonista não é tão amigo assim como sugere o nome em inglês. Depois, este é um filme sobre mulheres do ponto de vista de uma mulher, pois foi escrito pela atriz e, agora, diretora Jennifer Westfeldt.

Assim, e por se tratar de comédia romântica, dificilmente vamos escapar da comiseração da autora pela protagonista pouco exuberante (até as amigas acham isso), que vem a ser a própria diretora. Este comentário, longe de ser misógino, faz sentido porque poderia ser diferente, pois a boa história tinha tudo para se tornar um pequeno marco no gênero.

Tinha, se nos esquecêssemos de que se trata de cinema norte-americano industrial que, para evitar constrangimentos, tem de fugir de teses moderninhas sobre o comportamento social e se ater ao tempero conservador de sempre. Nossa diretora e atriz até se esforça a fim de parecer moderna. Julie (Jennifer) e Jason (o ótimo Adam Scott) são os melhores amigos desde a faculdade (foto).

Dois outros casais, amigos deles, encaram o casamento e filhos e a vida se transforma num inferno. Julie e Jason não querem isso para a própria vida e decidem ter filho sem casamento – olhe como são modernos. Tudo parece ir muito bem. A experiência dá certo – o que frustra os dois casais amigos – a ponto de eles acharem que descobriram a roda. Mas, de repente, tudo começa a mudar.

Bem, o que Jennifer Westfeldt tentou foi defender uma tese nova para o comportamento contemporâneo heterossexual. Ela levantou a bandeira de uma pequena revolução que visaria extinguir o casamento. O casal teria filhos, mas não se exporia às vicissitudes do dia-a-dia; em outras palavras, aproveitaria o melhor dos mundos e ainda teria tempo e disposição para fazer sexo à vontade fora de casa.

Não que esta seja uma solução fácil e confortável – se fosse, a própria sociedade a teria descoberto e adotado. Ocorre que a roteirista e diretora acredita na tese da sua pequena revolução e a leva a bom termo quase todo o tempo. Porém, lá pelas tantas, ela admite que a tese conservadora que move o mundo desde os tempos imemoriais não pode ser mudada.

Curiosamente, pela maneira como o roteiro foi montado, até poderia. Primeiro, porque estamos no terreno da ficção e cinema não é vida – mas representação dela. Segundo, porque ao assumir tal postura, as mulheres não sairiam por aí adotando a moda como se fosse mandamento – o que seria bobagem. Então, por que o temor de ousar na ficção?

Ora, porque estamos no cinema industrial americano de mercado e porque a comédia romântica precisa de final feliz e porque Jennifer assume a auto-comiseração e Julie terá de se dar bem, pois não é tão linda assim, não tem seios grandes e se encaminha celeremente para ser solteirona.

Ok, cinema não é vida. Mas na real, milhões de mulheres e homens solteiros e solitários vivem à procura de alguém especial – alguém que, em geral, nunca chegará. Por que o cinema não pode refletir um pouco que seja a respeito disso? E, mesmo assim, produzir um desfecho bacana? Afinal, Julie tem um filho lindo, gracinha, amigos especiais e um sujeito que gosta mesmo dela – como amiga.

Não, a visão feminina romântica (sem generalizar) do modo de ser do mundo (ainda que passe longe da realidade) e o olhar conservador americano sobre esse mesmo mundo não permitem soluções acéfalas. No conceito-padrão, Deus criou o homem e a mulher para se casarem, terem filhos e serem felizes – com as bênçãos de todas as igrejas. Mesmo que isso seja de mentirinha. Mas não importa. Para quê inventar moda se podemos transitar confortáveis no mundo que criamos?

* Publicado na edição de hoje do Correio Popular.

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enviada por João Nunes

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