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09/07/2012 13:09:28.000
Para Roma com Amor

Claro que seria idiotice cobrar uma obra-prima por ano de Woody Allen. Mesmo assim, estava ansioso por ver Para Roma com Amor (foto), mas confesso que me decepcionei um pouco. E minha decepção também é idiotice. Talvez porque goste tanto do diretor – sei de pessoas que detestam ou desprezam os trabalhos dele dos últimos anos.

A primeira impressão é de que parece um filme feito às pressas. Depois de tantos anos, Allen sugere ter escrito o roteiro em poucas semanas, traquejado que é com o ofício – como em qualquer profissão, tendemos a, em algum momento, ligar o automático.

Ademais, com esse ciclo de cidades – Londres, Barcelona, Paris e, agora, Roma –, ele força um pouco a barra para adaptar suas histórias ao cenário. Ainda que tenha obras espetaculares como Match Point (Londres) e Meia-Noite em Paris.

Em Roma fica a nítida impressão de que ele fez um filme turístico, abusou das paisagens lindas e ficou (por meio dos personagens) citando os pontos turísticos e, como sempre acontece (mas, aqui, de modo um tanto desleixado) abusou também das citações.

Até mesmo o próprio Allen, de volta à cena, se mostra um tanto cambaleante – seria de esperar, pois está parecendo um velhinho meio trôpego, mesmo sendo adorável no que faz. As piadas parecem ser as mesmas – sim, ele sempre se repetiu, mas em Para Roma com Amor ele fez um cozido dos muitos filmes, um especial, o que revi recentemente, Memórias, do qual falo em seguida.

O momento mais interessante, afinal, é do cantor de ópera, história bizarra, mas convincente. Um sujeito que monta óperas de modo bizarro, só poderia fazer aquilo com o cantor que só se sente à vontade no banheiro. E, digamos, basta este veio do filme para fazê-lo interessante, justamente porque demonstra uma vez mais o quanto este diretor é criativo e surpreendente. Ele consegue fazer algo interessante de quase nada.

Memórias
Falava de Memórias (1980), um de seus mais belos e instigantes filmes, porque o personagem de Roberto Begnini nada mais é que o personagem de Allen em Memórias – aquele sujeito espantado com o assédio das pessoas.

Claro que em Para Roma com Amor ele acrescenta um dado novo: a celebridade instantânea que não tem a menor importância e ninguém sabe a razão de ele ser celebridade. Em Memórias, o personagem é um cineasta famoso – daí o assédio.

De qualquer maneira fica um pouco esse sentimento de déjà vu, especialmente porque revi Memórias no mesmo dia e as belas imagens em preto-e-branco e aquele personagem meio perdido entre o assédio e as lembranças, além das inquietações filosóficas passeavam por minha cabeça.

Curioso que não me lembrava muito do filme – lá se vão mais de 30 anos. Mas revê-lo, me trouxe à lembrança todas aquelas imagens e elas estavam frescas, bastou acionar um botão qualquer da memória para que surgissem de modo tão significativo. E engraçado, mas com uma graça melancólica. A cena final do cinema vazio me deu um nó na garganta.

Ouso dizer que este filme é um grande momento da história do cinema e talvez um dos melhores da rica cinematografia de Allen. E foi feito há 34 anos.
 

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enviada por João Nunes

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