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01/08/2012 12:22:34.000
Aqui é o meu Lugar

Olhem para esse sujeito da foto. É o grande ator Sean Penn travestido de um roqueiro gótico, andrógino, com voz afetada, preguiçoso e desencantado. Não quer mais saber da carreira, está rico, aplica dinheiro na bolsa, vive em Dublin, recebe convite da MTV para um revival e desdenha.

Se anda na rua, assusta pessoas com seu cabelo desgrenhado, o rosto maquiado e com cara de sonso; pode cruzar com um fã nostálgico, mas ele finge não ser quem é e despacha o intruso. Cheyenne, o nome dele, não está nem aí pra ninguém. Ou melhor, só lhe interessa a filha (para quem tenta arranjar um namoro) e a mulher – seu oposto, pois é máscula, incisiva e dura.

O filme chama-se Aqui é o meu Lugar, de Paolo Sorrentino, tirado de uma música de David Byrne, que aparece cantando – há uma deliciosa cena em que Cheyenne ao violão (na foto) discute com um garoto sobre quem é o autor da canção.

O menino diz: toca This must be the Place, do Arcade Fire, e Cheyenne lhe informa que a música foi composta por David Byrne, mas o garoto contesta. E se estabele uma discussão muito legal – um contraste de geração que é, na periferia, um dos temas do filme. Aliás, ouvir a canções nas duas versões torna-se exercício bem interessante.

Mas, e o filme? Eis um enigma. Saí da sessão sem saber se tinha gostado ou não. Claro, o verbo usado aqui (gostar) é um equívoco para alguém que pretende analisar um filme. Portanto, assumo o equívoco, mas esta foi a primeira reação. Porém, tenho de dizer as razões.

Vamos, primeiro, aos elementos que me impressionam positivamente e têm a ver com questões técnicas: a belíssima fotografia, os planos abertos e lindos; a maneira como a câmera se movimenta criativamente e dá ritmo à lentidão da narrativa.

E sobre a narrativa, não me incomoda nem um pouco a lentidão. Em tempos de filmes com mil cortes por segundo torna-se até uma bênção ver planos longos, cuidadosos e que despertam o prazer de ver, de contemplar – não estou preocupado apenas com climax, música enchendo todo o tempo e espaço, ações. Nada disso me interessa em princípio.

Em Aqui é o meu Lugar o tempo caminha em outro ritmo, o que provoca certo distanciamento. Até mesmo a figura de Cheyenne gera distanciamento, pois parece um sujeito que não existe, que está fora do habitual, longe do que chamamos de realidade do dia-a-dia, um verdadeiro ET. E tudo isso é legal de observar.

Tem mais: a música – o clipe com Byrne é uma delícia de ver –, as cores, a obsevação desse personagem que abandonou o mundo real, o humor muitíssimo bom dos diálogos e, por fim, o olhar do diretor para um universo inadequado ao mundo atual.

E, no entanto, o filme nunca me arrebata. Principalmente depois da morte do pai de Cheyenne, que lhe provoca um movimento abrupto e tudo se transforma num road movie e, de repente, estamos diante do holocausto – tema recorrente nos Estados Unidos que se praticamente virou gênero.

Não precisamente por causa do holocausto, mas pelo encaminhamento dado ao filme. Alguém escreveu acertadamente que ninguém pode tomar para si a dor do outro – que é o ocorre com o ex-roqueiro em relação ao pai dele.

Talvez seja este o ponto que me incomoda, como se ele tomasse como honra um acerto de contas com o passado do pai para que ele mesmo se sentisse em paz. E como se isso significasse encontrar o lugar que lhe é devido no mundo diante de um passado (o dele de roqueiro) que Cheyenne renega. Mas as contas devidas e pagas parecem não se encaixar, parecem não resolver.

Portanto, resumindo: agora me expliquei um pouco (pois não tenho certeza desta explicação) em vez de apenas dizer gostei ou não gostei. O fato é que Aqui é o meu Lugar provoca estranhamento, seja pela narrativa, pelo enfoque, pelo exótico em Cheyenne e pela maneira como aborda questões aparentemente tão distantes (rock e holocausto).

Não por acaso, deixo este comentário completamente aberto. Talvez devesse rever o filme.
 

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enviada por João Nunes

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