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Em filme, Walter Salles evita endeusar livro On The Road


Em seu longa Na Estrada, em cartaz em Campinas, cineasta adota distanciamento e se sai com um belíssimo filme


17/07/2012 - 15h57 .
João Nunes   ESPECIAL PARA A AGÊNCIA ANHANGUERA  
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Garrett Hedlund em cena de Na Estrada, que tem direção de Walter Salles: amor intenso, visceral e destrutivo
(Foto: Divulgação)

O amor de Dean Moriarty (Garrett Hedlund) por Sal Paradise (Sam Riley) em 'Na Estrada' (On the Road, Estados Unidos, França e Brasil, 2012), do brasileiro Walter Salles, e por suas duas mulheres, Marylou (Kristen Stewart) e Camille (Kirsten Dunst) é intenso, visceral e destrutivo. Sal Paradise, porém, trata seu amor por Dean Moriarty quase como um estudo antropológico, alguém que precisa viver emoções inexploradas e necessita da pesquisa e da investigação para escrever um livro. E enquanto Dean expõe suas entranhas selvagens e ingênuas sem pudores, representado por um Garret Hedlund carismático e tomado pelo personagem, Sam prefere a distância, a observação, nunca (ou quase nunca) o mergulho. Este, por exemplo, não suporta (por mais que deseje) dividir a mesma cama com o amigo e a namorada dele. Sente-se incapaz, ri nervoso — o que irrita o despojado Dean. 

Dean, por seu lado, não pensa um segundo em fazer sexo com um homem (Steve Buscemi) para ganhar uma grana, enquanto Sal, na cena mais emblemática do filme, o espreita como se desejasse o lugar do homossexual. Este desfruta o prazer que Sal esconde. Enquanto Sal tateia os limites, Dean vai além de todos os limites e entra em transe ouvindo e dançando bebop, se requebra ao som de música latina e se dedica desmedidamente às drogas com a mesma paixão que se entrega aos seus amores. 

Estes dois homens crescidos, que vivem abraçados e até trocam beijos, adoram dizer “I love you” um ao outro, ficam felizes quando, nas poucas ausências, recebem cartas carinhosas e não conseguem se largar. No entanto, se impõem um abismo — o mesmo abismo que os une, os separa. 

Walter Salles sabe que toca num livro homônimo quase sagrado de Jack Kerouac e empresta delicadeza à direção e à maneira como envolve seus profissionais para comporem esse retrato da geração beat. A música do argentino Gustavo Santaolalla pontua os climas com sobriedade, jamais se sobressai e, entretanto, está umbilicalmente atada ao filme. Assim como a bela fotografia de Eric Gautier, marcada por traços escuros, especialmente no início, e iluminada nas paisagens magníficas de um road movie que cruza uma América cheia de contrastes e surpresas. Do campo de algodão, ao pôr do sol; da estrada que parece não ter fim, à neve; das noites esfumaçadas dos bares, às casas claustrofóbicas, pois os personagens não as suportam, querem o movimento, o deslocamento para algum lugar independentemente de que lugar seja. 

O roteiro de Jose Rivera evita o respeito demasiado com a obra e prefere os lampejos de emoção e da procura que dela exalam, as idas e vindas dos personagens pontuadas por discretas elipses e marcadas por não menos discretas informações do lugar e ano. Não lhe interessa o rigor do didatismo dos mapas e da ordem cronológica, mas o vigor da narrativa do livro cujo espírito está latente em cada sequência e diálogo. 

O anjo 

Desta maneira, se Sal é o narrador, o homem das observações e o que organiza os relatos como se estivesse à parte deles (mesmo que se envolva, mais de corpo presente e menos com a alma), Dean personifica o anjo exterminador que desperta paixões e obsessões inexplicáveis — diante de Old Bull Lee (um excepcional Viggo Mortensen) Sal o santifica. Por Dean, Carlo Marx (Tom Sturridge, muito bem no papel) daria a vida; por ele, Camille se desdobra com os filhos, chora e sofre; por ele, Marylou é capaz de fazer tudo e, quando descartada, o desmascara por se sentir rejeitada (“veja o cafajeste que ele é”, diz a Sal); por ele, Sal cai no mundo, se entrega até onde o comportamento de (quase) bom moço permite, mas se vê doente e abandonado pelo amigo. 

Se o livro marcou diversas gerações, menos pela literatura e mais pelo relato corajoso e pelo que tinha de revolucionário como comportamento e filosofia, ao filme não interessa endeusar uma época de atitudes libertárias nem tratar o livro como canônico e intocável. A força de 'Na Estrada' reside no distanciamento afetivo que Walter Salles faz do livro para narrar uma história que se desloca de seu tempo tão distante (as viagens de Kerouac se deram entre 1947 e 1950) para se fixar nas emoções de pessoas em qualquer época. Por isto, o filme se torna tão afetuoso, pois não cria aura sobre a geração beat; ao contrário, permite que nos identifiquemos com a humanidade de seus personagens (Jack Kerouac, Neal Cassady, Allen Ginsberg, William S. Burroughs, entre eles) como se fossem nossos contemporâneos. Portanto, não há reverências desnecessárias; existem, sim, emoções de sobra neste que é o mais belo filme
de Walter Salles.